sexta-feira, 27 de maio de 2016

Embaixada e Consulado

por Janaína Harada | Edição 167
Ilustra: Francisco Martins
A embaixada lida com as relações entre dois Estados, enquanto o consulado trata das relações entre o Estado e o povo. Cada país tem apenas uma embaixada em cada nação parceira, sempre na capital local. No nosso caso, Brasília abriga 135 embaixadas, como a da Costa do Marfim e a da Suécia. Ali são tratados assuntos como política externa, direitos humanos, economia e cultura. Já os consulados podem ter diferentes postos dentro de um mesmo país, prestando serviços a civis conterrâneos e estrangeiros, como a emissão de documentos (passaportes, vistos, certidões de nascimento etc.). Ao redor do mundo, o governo brasileiro é representado por 53 consulados-gerais, 11 consulados, 8 vice-consulados e 139 embaixadas. A mais recente foi criada em 2013, em Lilongwe, no Malaui.
NOSSA CARA LÁ FORA
As diferenças entre os três profissionais
DIPLOMATA
No Brasil, são funcionários concursados do Ministério das Relações Exteriores. Eles representam o país no exterior. Como diplomata, a pessoa pode trabalhar tanto em Brasília quanto nas embaixadas e consulados brasileiros em nações estrangeiras. O tempo de permanência do diplomata em cada posto do Itamaraty varia de dois a cinco anos
Curiosidade:Após uma longa carreira, o diplomata pode exercer as funções de embaixador e cônsul
EMBAIXADOR
Como chefe de uma embaixada, é o mais alto representante do nosso governo em um país estrangeiro. Para que um diplomata ocupe a função de embaixador, precisa ser nomeado pelo Presidente da República. Uma vez no exterior, ele pode ocupar a função por até cinco anos. Após o período, retorna ao Brasil ou é indicado para uma embaixada em outra nação
CÔNSUL
É o cargo do chefe de um consulado. Ele é responsável pela ponte entre seu país de origem e a comunidade local. Dentro do posto, também são chamados de cônsules adjuntos e vice-cônsules os funcionários responsáveis diretamente pelas atividades consulares. Não há limite de consulados para cada país, e cada um tem seu cônsul

quinta-feira, 26 de maio de 2016

As árvores do Cerrado possuem troncos tortuosos

por Lucas Baptista | Edição 178
ILUSTRAS: Sabrina Eras
É devido a uma combinação de fatores naturais. A flora do Cerrado possui características biológicas que a protegem da morte em caso de queimadas - fenômeno comum na região devido aos raios. Mas o fogo mata alguns brotos, de modo que os galhos estão sempre crescendo numa direção diferente (veja no infográfico abaixo). Vale lembrar que o Cerrado é um bioma do tipo savana (em que as árvores são espaçadas o suficiente para deixar que a luz solar chegue ao solo e permita o crescimento de grama) exclusivo da América do Sul, predominante principalmente no Centro-Oeste do Brasil. A vegetação, típica de climas secos, se compõe de arbustos e pequenas árvores com troncos tortuosos e casca e folhas grossas.
1) CASCA GROSSA
O súber é um tecido formado por células mortas e que envolve troncos e galhos. Ele é interpretado como uma característica de adaptação ao fogo. Agindo como isolante térmico, o súber impede que as altas temperaturas das labaredas atinjam os tecidos vivos mais internos dos caules
2) TERRA FRACA
O solo é naturalmente rico em alumínio e pobre em nutrientes, o que faz com que a vegetação não cresça muito. Por isso, é comum ver árvores baixas no Cerrado, com entre 2 e 6 m (a não ser nas partes conhecidas como Cerradão, em que há mais disponibilidade de água e nutrientes)
3) DEBAIXO DA TERRA
Raízes e outras estruturas subterrâneas, como tubérculos, são muito bem desenvolvidas nas plantas do Cerrado - em parte para buscar água em lençóis a 20 m abaixo do solo. Com isso, a vegetação pode rebrotar com rapidez após intempéries climáticas, como o fogo, por exemplo
VIDA APÓS AS CHAMAS
Brotos de cima queimam, então o jeito é ir para os lados
1. O fogo, resultante de descargas elétricas naturais, é comum na região. Ele queima a gema (ou broto) apical, uma concentração celular no ápice do caule. Por isso, a árvore deixa de crescer para cima
2. A árvore não morre por causa da casca grossa, do súber e das raízes (veja acima). Com isso, as gemas axilares, que ficam nas laterais do caule, germinam, fazendo com que a árvore cresça para os lados
3. O processo de queimada e morte das gemas é contínuo, de modo que os galhos ganham sequências de curvas e ficam "tortos". Afinal, a cada momento, há uma gema axilar brotando para um lado diferente


terça-feira, 24 de maio de 2016

OS ARQUIVOS SECRETOS DO VATICANO

Yuri Vasconcelos | ME Especial 159-A

Os arquivos secretos do Vaticano guardam 35.000 volumes, que contam a história da humanidade. Se suas prateleiras fossem enfileiradas, elas se estenderiam por 84 quilômetros. São registros de descobertas científicas e geográficas, documentos papais e correspondências diplomáticas. Há também cartas do artista Michelangelo, os papéis da anulação do casamento do rei inglês Henrique VIII e vários processos da Inquisição, inclusive o de Galileu Galilei.
No livroAnjos e Demônios, o simbologista Robert Langdon pesquisa papéis do arquivo para encontrar um dos quatro cardeais sequestrados pela fraternidade secreta Illuminati. Assim como na obra de Dan Brown, boa parte dos registros pertencentes ao acervo está à disposição do público, mas a consulta deve ser feita fora da sala secreta, que não está aberta à visitação. Alguns documentos confidenciais só podem ser acessados pela alta hierarquia da igreja católica. (DF)

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A milícia cristã que se inspira em Jesus para combater o Estado Islâmico

Grupo armado se baseia na Bíblia para lutar ao lado de combatentes muçulmanos contra avanço de extremistas.

Depois de um ataque do grupo autodenominado Estado Islâmico nas festividades de Natal, um grupo de cristãos no Iraque decidiu se armar. E assim nasceu a Brigada Babilônia (ou Resistência Cristã Iraquiana), uma milícia formada para proteger essa minoria religiosa.
Na sede do grupo, em Bagdá, há uma imagem impressionante na parede. Ela mostra uma estrada de terra, exposta ao sol, que leva a uma pequena aldeia com uma cordilheira ao fundo. E ao longo da estrada há cruzes a cada cem metros – algumas mais altas do que postes de luz.
 “É uma aldeia cristã”, diz um dos guardas. “Perto de Mosul (norte do Iraque)”.
Eles são uma milícia, apesar de preferirem a expressão “unidade de mobilização popular”. Cerca de 30 grupos semelhantes proliferaram nos últimos anos no Iraque, totalizando cerca de 100 mil voluntários armados.
Eles se formaram para barrar o avanço do Estado Islâmico quando o grupo extremista avançou pelo norte e oeste do Iraque, em 2014, ameaçando inclusive Bagdá. Quando o exército nacional do Iraque entrou em colapso, as milícias se mantiveram firmes.
A maioria delas é muçulmana xiita. Muitas são sunitas, e uma apenas é cristã – a Brigada Babilônia.
As outras imagens nas parede da Brigada são fotografias, todas mostrando o líder da Brigada, Rayan al-Kildani. Kadani em uniformes militares. Kildani com óculos de sol, Kildani se encontrando com pessoas importantes, Kildani em semblante contemplativo, Kildani com cara de determinado.
Ele chega para conversar com a BBC ladeado por um grupo de apoio – a maioria veste terno, mas um dos jovens tem uma barba e está com roupas militares.
As milícias persuadiram o governo central a cobrir seus custos e como resultado elas estão recebendo, juntas, algo em torno de US$ 1,4 bilhão (R$ 4,8 bilhões, aproximadamente) anualmente.
Para um líder miliciano como Kildani, o valor é superior a U$ 600 (R$ 2.096) por homem, por mês - quantia relevante na região.
Há histórias de pessoas que alugam casas em Bagdá, reúnem um grupo de pessoas, anunciam a formação de uma milícia e vão ao governo se inscrever para receber a verba.
“Quantos homens você tem?”, pergunta a reportagem da BBC.
Ele responde: “isso é um segredo militar”.
“Vocês têm centenas de homens ou milhares?”
“Muitos”.
“Armas?”
“Foguetes”, ele diz. “De tamanho médio. Isso é guerra. Você não pode lutar uma guerra com metralhadoras”.
“Então, vocês são uma milícia cristã”, diz a reportagem.
“O que o Estado Islâmico está fazendo com cristãos é terrível”, ele responde. “Eles são o demônio”.
“Sua milícia já combateu alguma vez?”
“Nós lutamos lado a lado com as milícias muçulmanas. Somos o primeiro poder cristão na história do Iraque”.
E continua: “Eu sei que a Bíblia diz que quando você recebe um tapa, você deve oferecer o outro lado da face. Mas nós temos forças de defesa muito boas agora. Ninguém vai fazer nenhum mal aos cristãos. Alguns tiveram suas casas tomadas. Eu fui pessoalmente a essas casas para dizer às pessoas que chegaram que deixassem as residências. O sofrimento cristão acabou”.
Um dos telefones dele toca. Ele olha para o número que está chamando, dá um grunhindo e entrega para alguém atender.
“E sobre o mandamento 'Não matarás'?”, a BBC pergunta.
“Nós temos que lutar, temos que nos defender. Jesus mesmo disse que se você não tem uma espada, você deve sair e comprar uma”.
“Ele disse isso mesmo?”, pergunta a reportagem.
“Está na Bíblia”, insiste Kildani.
“Em Mateus”, diz um homem. “Lucas”, afirma outro. “Mateus e Lucas”, eles dizem juntos. Kildani olha para um dos assistentes que está brincando com um joguinho no celular.
“Encontre”, ele ordena.
O jovem com o telefone anda até o repórter. Ele tem um verso em árabe na tela do celular.
É Lucas, capítulo 22, versículo 36: “Se você tem uma bolsa, pegue, e também uma mala; e se você não tem uma espada, venda o seu casaco e compre uma”.
Acontece que teólogos vêm discutindo sobre esse versículo há séculos. Seria uma espada de verdade? Ou uma metáfora? Kildani não tem dúvidas. Ele diz que ele e seus homens estão em patrulha. E eles estão armados.




quarta-feira, 18 de maio de 2016

Estudo aponta que plástico é principal depredador dos oceanos

Todos os dias oito milhões de toneladas de resíduos acabam no oceano.
Segundo fundação, 80% da poluição de nossos mares é de origem terrestre.

Da France Presse
O plástico, em forma de garrafas, sacos ou tampas, é o principal depredador dos oceanos, denunciou nesta terça-feira a ONG Surfrider após um estudo de contaminação em cinco pontos da costa francesa e espanhola.
Com a ajuda de centenas de voluntários, a ONG realizou em 2015 em várias zonas da Grã-Bretanha e do País Basco um estudo dos resíduos que contaminam as praias, a costa e os fundos marinhos, no âmbito de um projeto de alcance europeu.
"Todos os dias oito milhões de toneladas de resíduos acabam no oceano. E 80% da poluição de nossos mares é de origem terrestre e consequência da atividade humana, com repercussões terríveis na biodiversidade e no conjunto de nosso meio ambiente", afirma o presidente da Surfrider Foundation Europe, Gilles Asenjo, em um comunicado.
Segundo a ONG, o plástico constitui "mais de 80%" dos resíduos nos cinco lugares do estudo. É o caso da praia de Burumendi, em Mutriku (Espanha), onde 96,6% dos 5.866 resíduos recolhidos são de plástico ou de poliestireno.
Na praia de La Barre, em Anglet (França), a proporção é de 94,5% de um total de 10.884 resíduos.
O plástico e o poliestireno também estão presentes em abundância na praia de Porsmilin da localidade francesa de Locmaria-Plouzané (83,3%, 2.945 resíduos).
A proporção é muito menor na praia de Murguita de San Sebastián (Espanha), onde há 61% de plástico e de poliestireno, mas também 18% de vidro.
E na praia de Inpernupe, em Zumaia (Espanha), cerca de metade dos resíduos são vidro (47,9%) e 29,1% são plástico e poliestireno.
Além de plástico, os voluntários também encontraram nos cinco locais do estudo cordas e redes de pesca, guimbas de cigarro, recipientes de comida, tampas, garrafas de vidro e de plástico, sacos e fraldas. Em cada lugar, a Surfrider estabeleceu uma lista dos dez principais resíduos.
Segundo fundação, 80% da poluição de nossos mares é de origem terrestre (Foto: Erik De Castro/Reuters)

terça-feira, 17 de maio de 2016

OS 7 MAIORES TERREMOTOS QUE JÁ OCORRERAM NO BRASIL

Lucas Baptista EDITADO POR Otavio Cohen ATUALIZADO EM 01/10/2015

Os terremotos são fenômenos que podem ser causados por falhas geológicas, vulcanismos e, principalmente, pelo encontro de diferentes placas tectônicas. A maioria dos abalos sísmicos é provocada pela pressão aplicada em duas placas contrárias. O Brasil não é uma região vulnerável a sofrer esses tipos de abalo, pois está localizado no centro da placa aqui da América do Sul. Apesar disso, já houve vários casos de terremotos no país. E a gente lembrou dos 7 maiores ocorridos por aqui: 
 

7. Mato Grosso (1955)
Em janeiro de 1955, no Mato Grosso, mais precisamente na Serra do Trombador, foi detectado um terremoto de 6,6 graus na escala Richter, o maior registrado na história do Brasil. O abalo ocorreu em região muito pouco habitada, o que não ocasionou em mortes nem em danos materiais.
6. Espírito Santo (1955)
No mesmo ano, a cidade de Vitória-ES foi atingida por um abalo sísmico de 6,3 graus na escala Richter. A reação das pessoas foi de susto e as casas apemas balançaram. Não há nenhum registro de ferimentos ou danos.
5. Rio Grande do Norte (1980)
João Câmara, município do Rio Grande do Norte, foi atingido por uma série de terremotos na década de 1980. O mais grave deles ocorreu em novembro de 1986, quando a cidade tremeu com um tremor de 5,1 graus na escala Richter, provocando a destruição de 4 mil imóveis.
4. Pacajus, Ceará (1980)
Na mesma década, Pacajus, na Região Metropolitana de Fortaleza, viveu na pele os efeitos de um terremoto com magnitude de 5,2 na Escala Richter e foi sentido na Capital.  
3. Itacarambi - MG (2007)
O tremor na localidade de Caraíbas, no município de Itacarambi, no norte de Minas Gerais, atingiu 4.9 na escala Richter. Apesar de uma magnitude não tão grande, uma criança de 5 anos morreu e seis pessoas ficaram feridas. Além disso, pouco mais de 5 casas caíram em função do terremoto.
2. 2007 - Divisa entre Acre e Amazonas: 6,1 graus
Um terremoto de 6,1 graus na escala Richter foi registrado entre os estados de Acre e Amazonas em 2007. Não houve registros de mortos e feridos nem danos materiais, apenas depoimentos de pessoas que sentiram o tremor.
1. São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Rio de Janeiro. (2008)
Um terremoto de 5,2 graus de magnitude na escala Richter atingiu diversas regiões de São Paulo. Não houve registros de acidentes. O mais interessante (ou aterrorizante) é que o tremor refletiu nos estados do Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais e Santa Catarina.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O Brasil secou

A falta d'água se alastrou pelo país, sintoma das mudanças climáticas e do desmatamento na Amazônia, cada vez mais debilitada. Nos aproximamos de um futuro desértico e a culpa é toda nossa

Em 2014, não choveu. Pelo menos não quanto deveria. Os índices de chuvas apresentam déficit, os reservatórios minguaram a percentuais críticos, a nascente do Rio São Francisco secou pela primeira vez na história. Esses eventos extremos estavam previstos pelos estudiosos das mudanças climáticas, causadas quase exclusivamente pela atividade humana, especialmente pela queima de combustíveis fósseis. Mas outro fator está agravando esse quadro: o desmatamento. A Amazônia é a responsável por manter úmido todo o continente, e sua depredação influencia diretamente no clima.

A floresta funciona como uma fábrica de chuvas. Por cima das nossas cabeças, há imensos rios seguindo seu curso, levando nuvens carregadas por onde passam. São os rios voadores, que começaram a ser estudados em 2006, numa parceria entre o aviador francês Gérard Moss e o engenheiro agrônomo Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Sobrevoando a Amazônia, eles descobriram todo o seu potencial de bombeamento de água e traçaram o curso que os rios voadores seguem pelo País. Esta capacidade da floresta de exportar umidade é um dos cinco segredos da floresta, poeticamente explicados no relatório O Futuro Climático da Amazônia, publicado recentemente por Nobre.

Nossa água vem da Amazônia
Entenda o processo de transpiração da floresta e a formação das nuvens sobre ela. Ao lado, conheça o percurso dos rios voadores e como eles levam chuvas por todo o continente.




O fluxo dos rios voadores é mais intenso no verão, estação em que chove na maior parte do País. Isso acontece graças à inclinação da Terra nesta época do ano, que favorece a entrada dos ventos marítimos na América do Sul. Mas há mais uma vantagem geográfica que garante esse circuito: a Cordilheira dos Andes, localizada a oeste da floresta. O imenso paredão faz com que os ventos não passem direto e deixem o resto do Brasil sem umidade. De acordo
com o físico Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), é no
começo do ano que os rios voadores reabastecem as fontes de água e reservatórios brasileiros. Ao se chocarem contra a Serra da Mantiqueira e da Canastra, no Sudeste, enchem a nascente de vários rios importantes, como o São Francisco. "Esta região é a caixa d’água do Brasil", avalia Fearnside. "Se não chover na época em que tem que chover, os reservatórios
não serão recarregados ao longo do ano", completa. Esse tem sido o drama em 2014. 

Desmatamento que vai, volta 

Poder contar com a maior floresta tropical do mundo, inclusive em relação aos recursos hídricos, é um privilégio. Pouquíssimo valorizado. Nos últimos 40 anos, derrubamos 42 bilhões de árvores. Além disso, devido às queimadas, existe mais de 1 milhão de km² de floresta morta, degradada. O que não se imaginava é que uma revanche em forma de seca chegaria tão rápido. "Hoje, estamos vivendo a reciprocidade da inconsequência", atesta Nobre. Há mais de 20 anos, estudos alertavam para esse perigo. Em 1991, o climatologista Carlos Nobre, irmão de Antonio e também do INPE, comandou uma simulação para avaliar os impactos no clima da mudança do uso da terra. Constataram que, se a floresta fosse substituída por plantações ou pastagens, a temperatura média da superfície aumentaria cerca de 2,5 ºC, a evapotranspiração das plantas diminuiria 30% e as chuvas cairiam 20%. Também se previa uma ampliação das estações secas na área amazônica. Hoje, com quase metade da floresta original danificada, tais efeitos parecem ter vindo à tona.
"O desmatamento zero é para ontem. Chegamos a níveis climáticos críticos. Precisamos começar a replantar o que já perdemos", aponta Antonio Nobre. Apesar da urgência, as perspectivas não são animadoras. Só na região amazônica, há mais de 40 projetos do Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Federal só no quesito geração de energia. São usinas, barragens e outras medidas que causam inundações e corte de árvores e que afetam diretamente populações indígenas. Os projetos de estradas também são preocupantes. A recuperação da Rodovia Manaus-Porto Velho (BR-319), abandonada desde a década de 1980 por falta de manuntenção, também consta no PAC. De acordo com Philip Fearnside, o projeto é um risco para a Amazônia. "Uma estrada valoriza demais a terra, e especulação gera desmatamento e favorece a grilagem", explica. O mesmo acontece com a Rodovia Santarém-Cuiabá (BR-163), com mais de 1.700 km de extensão.

"A estrada vai ser recuperada para facilitar o transporte da soja produzida no Mato Grosso", aponta Fearnside, sobre uma das áreas amazônicas que mais sofrem com o agronegócio. "A terra valoriza tanto que pecuaristas estão vendendo suas terras para produtores de soja do Sul. Por sua vez, isso tem aumentado muito o desmatamento no Pará, com a liberação de terrenos para a criação de gado desses pecuaristas", critica o especialista. Ele também destaca o fortalecimento da bancada ruralista no Congresso, após as eleições deste ano.

Desmatamento e degradação:


Clima em crise

Neste verão, os rios voadores não avançaram sobre o Sudeste; tampouco as frentes frias. A ilha de calor instalada sobre a região, característica de uma urbanização extrema, cria bloqueios que afastam as chuvas. Por isso, a água esborrou na borda dessa bolha quente, gerando chuvas acima da média no Sul e países vizinhos. Hoje, há registros de seca em todos os Estados brasileiros. Em alguns deles, a seca é "excepcional", ainda mais grave do que a "extrema". O quadro já era grave no ano passado, quando o Nordeste viveu a pior seca dos últimos 50 anos, inserindo o Brasil no mapa de eventos climáticos extremos, da Organização Mundial de Meteorologia.

De acordo com o físico especialista em ciências atmosféricas Alexandre Araújo Costa, da Universidade Estadual do Ceará, o agravamento de secas e das cheias está relacionado ao aumento da temperatura na atmosfera. Aquecida, ela se expande, fazendo com que seja necessário reunir mais vapor d’água para formar nuvens. "Esse processo demanda mais tempo, portanto tende a prolongar os períodos de estiagem. Por outro lado, as nuvens se formam a partir de uma quantidade maior de vapor d’água, fazendo com que os eventos de precipitações se tornem mais intensos. Um planeta mais quente é um planeta de extremos", explica.

Para a filósofa e ecologista Déborah Danowski, que lançou recentemente o livro Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins, com seu marido e antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, entramos num caminho sem volta. "A crise climática não pode
mais ser evitada. Se cortássemos agora as emissões de CO, a Terra ainda iria se aquecer aproximadamente 1 ºC. Isso porque já jogamos no ar uma quantidade tão grande, que muito dele ainda nem foi absorvido", aponta. O que não quer dizer que não haja muito o que fazer. Para ela, o primeiro passo é repensar os modelos econômicos de crescimento e consumo. "O que nos cabe é tentar mitigar as causas que levam ao aprofundamento das mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, nos adaptar à vida em um mundo mais difícil ecologicamente."

Estamos todos ilhados
Seja pelo excesso de calor ou pelas enchentes. Mais filosoficamente: não temos saída para o clima. Os eventos extremos parecem estar se tornando uma realidade no Brasil.


 Camila Almeida

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Mudanças climáticas vão durar mais de 10 mil anos

Pesquisa calcula que as mudanças climáticas afetarão o planeta por muitos milênios. Grandes áreas costeiras ainda podem ser salvas se pararmos imediatamente de emitir carbono.
POR Denis Russo Burgierman 
Quase sempre, quando se pesquisa as mudanças climáticas, o horizonte de tempo das projeções de futuro é de um ou dois séculos - 300 anos, no máximo. Uma nova pesquisa que acaba de ser publicada pela revista Nature resolveu olhar mais longe e extender as projeções para 10 mil anos.
O resultado assusta. Ficou claro pelas projeções que a maior parte dos aumentos na temperatura e das áreas alagadas pelo oceano não serão revertidos nem em dez milênios. Ficou clara também a urgência de interromper o mais rápido possível a emissão de gases de efeito estufa: a pressa com a qual lidarmos com o tema fará diferença na temperatura da Terra e no nível do mar por mais de 10 mil anos.
10 mil anos é muito tempo para padrões humanos. 10 mil anos atrás, não havia nenhuma cidade humana na Terra, os mamutes ainda andavam por aí e agricultura dava seus primeiros passos.
Mas, em termos geológicos, 10 mil anos é um piscar de olhos. E já está claro que se iniciou uma nova era geológica: antropoceno, na qual a principal força alterando o planeta é a ação humana. Já que nossas ações se manifestam no plano geológico, faz sentido medir o impacto delas em tempo geológico. Temos que olhar para dezenas e centenas de milênios, não mais para séculos.
O grupo de pesquisa, composto de dezenas de cientistas das principais universidades do mundo, criaram grandes modelos climáticos usando os três cenários com os quais os cientistas costumam trabalhar: um de transição muito urgente para uma economia de carbono zero, um mais gradual e um no meio termo.
Os modelos mostraram que, dependendo de qual desses cenários adotarmos, o oceano pode subir 25 ou 52 metros, e ficar alto assim por mais de 10 mil anos. Isso significa que as decisões de hoje impactarão profundamente o tamanho e o formato dos continentes no futuro distante. Nos cenários mais pessimistas, pelo menos 25 megacidades terão que deslocar metade de suas populações ou mais, e 122 países terão que deslocar 10% de suas populações ou mais.
Enfim, o cenário é sombrio, mas o único jeito de lidar com ele é enfrentando o problema e parando de emitir carbono. Hoje, se possível.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

A CAUSA DOS GRANDES TERREMOTOS

Fenômeno relacionado com erupções vulcânicas potencializa tremores de até 7 pontos de magnitude, defendem geólogos
 Marcos Candido EDITADO POR Camila Almeida ATUALIZADO EM 11/02/2016

O mistério da intensidade dos grandes terremotos, que põem cidades inteiras abaixo, pode ter sido revelado. Um evento geológico foi identificado como uma das possíveis causas para grandes terremotos em regiões vulcânicas e de entroncamento de placas tectônicas - é o dique. Em países como o Havaí, Islândia e regiões da África, um dique consegue provocar abalos de seis a sete pontos de magnitude na escala Richter.
O dique (ou diking, em inglês) acontece quando placas se afastam um pouco e o magma da Terra ocupa esse espaço, criando uma coluna vertical de magma que gera tensão entre rochas e potencializa um terremoto de grandes proporções.
Para chegar a essa análise, cientistas da Universidade Estadual da Pensilvânia investigaram dois desastres naturais ocorridos na República Democrática do Congo, em 2002. No dia 17 de janeiro daquele ano, o vulcão Monte Nyiragongo matou mais de 100 pessoas após uma erupção. Oito meses depois do evento, um terremoto de magnitude 6.2 registrado na cidade de Kahele, a 19 quilômetros do vulcão, também foi estudado pelos geólogos. Com os dados em mãos, os pesquisadores verificaram o estado do solo, antes e depois de cada catástrofe, na tentativa de descobrir a coincidência entre os dois terem acontecidos na mesma região.
Ao fim da análise, foi descoberto que a erupção havia criado mudanças na placa tectônica em que o país está localizado - gerando um dique que impulsionou o terremoto que matou dezenas de pessoas à época. A hipótese é de que o dique (causado pela erupção) empurrou pedras umas contra as outras, acumulando uma tensão que, a um mínimo choque das placas tectônicas, ocasionou a um terremoto ainda mais potente. 

terça-feira, 10 de maio de 2016

TEXTO COMPLEMENTAR: MEDITERRÂNEO, UM MAR DE HIPOCRISIA

Nas últimas semanas, as notícias sobre a morte de milhares de seres humanos no Mar Mediterrâneo acabaram por revelar uma faceta muito desagradável de nós mesmos: a nossa infinita capacidade de eludir os fatos e tragar narrativas falsas, simplistas e unilaterais. A despeito dos acontecimentos, acalentamos nossa imaginação geopolítica na qual o papel dos heróis é invariavelmente representado pelos países ocidentais.
“Tráfico de pessoas” – grita a chamada de programas de televisão, enquanto mostramnegros sendo resgatados de navios indo a pique. Enquanto os náufragos recebem coletes alaranjados, o locutor descreve aajuda humanitária da Europa, passando a seguir à imagem do elegante primeiro-ministro italiano a anunciar o seu plano para lidar com a crise: “afundar os barcos” por meio dos quais os candidatos a refúgio tentam chegar a Europa.
Eventualmente, algum dos passageiros é entrevistado para ilustrar as condições deploráveis nas quais se faz a travessia, mas os milhares de africanos mortos não merecem, por exemplo, o tratamento pessoal dado às vítimas do acidente que vitimou 150 pessoas com a queda do Airbus A320 da Germanwings na França. É raro encontrar alguma reportagem em que a “voz autorizada a explicar” as repetidas tragédias não seja europeia.
Soa como desfaçatez, porém, falar sobre os resgates ou os naufrágios no Mediterrâneo sem mencionar os milhões de pessoas atingidas por conflitos armados, notadamente as guerras na Síria e na Líbia, e sem registrar, sobretudo, o papel ativo, se não o protagonismo, dos países ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, no desenvolvimento desses conflitos – seja por razões geopolíticas ou econômicas.
Somente na Síria, desde 2011, já se contam 130 mil mortos; mais de 2 milhões de pessoas foram buscar abrigo em países vizinhos e acabaram em campos de refugiados; mais de 4 milhões de pessoas tiveram que abandonar suas casas. Na Líbia, onde em 2011 o ditador Muamar Kadafi foi assassinado em frente às câmaras de TV após uma intervenção da OTAN, autorizada pela ONU, a continuidade dos conflitos ajuda a produzir mortos aos milhares e refugiados aos milhões.
Se pudesse, você não tentaria fugir de situação semelhante? Mas são poucas as pessoas que sobrevivem a esta dura realidade e conseguem dinheiro suficiente para tentar escapar pelas rotas do Mar Mediterrâneo que levam à Europa. Entre aqueles que chegam, um número ainda mais reduzido consegue ter reconhecida a sua situação como refugiado – o que torna possível pensar em reconstruir a vida, pelo menos enquanto a situação em seus países de origem não se estabiliza.
A maior parte das pessoas aguarda “num centro de detenção para imigrantes” ou é mandada de volta ao lugar de origem, em um processo cujas garantias jurídicas oferecidas são mínimas. Os que conseguem permanecer na Europa, em geral, servem como bodes expiatórios de um mal-estar cultural profundo, de uma crise de representação política sem precedentes e da crise econômica. Já o quinhão de responsabilidade da Europa nos desastres humanitários que os empurram de suas terras ainda está longe de ser plenamente apurada.
Isso ocorre porque, ao mesmo tempo em que patrocinam guerras em outros continentes, os países europeus tornam mais restritivas suas regras para concessão de refúgio. Como cortina de fumaça, os líderes do Velho Continente promovem operações humanitárias para resgatar os possíveis imigrantes das mãos dos “verdadeiros culpados pela crise”, os traficantes de pessoas que são majoritariamente africanos, além de tomar as devidas providências para que a travessia não seja feita, em nenhuma circunstância. Vale a pena lembrar que, antes da eclosão da mais recente crise, esta já era uma rota bastante utilizada, e igualmente perigosa. Ainda assim, o governo italiano proibiu os barcos de pescadores da Sicília de prestar ajuda a qualquer tipo de embarcação em situação de risco, sob risco de serem acusados de “cumplicidade com a imigração ilegal”.
Ao longo dos anos, a combinação de “intervenções humanitárias” mal pensadas e mal conduzidas com políticas restritivas e discriminatórias de gestão de fluxos migratórios e de refugiados pela União Europeia vem provocando a morte de milhares de seres humanos no Mediterrâneo, e também vem afogando a todos nós num mar de hipocrisia. Nesta triste fábula da política contemporânea, os únicos heróis são aqueles que conseguem sobreviver às guerras, à intolerância, à política europeia, às ondas e à nossa apatia.  
*Rossana Reis e Deisy Ventura
http://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-grri/mediterraneo-um-mar-de-hipocrisia-2718.html