segunda-feira, 1 de setembro de 2014

RETRATOS DA BÓSNIA

“Começou em Kosovo e em Kosovo vai terminar.”
Lembrei-me dessas palavras sobre o conflito nos Bálcãs, ditas em 1991 por meu amigo Futy, um fotógrafo esloveno, no dia em que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) iniciou seus ataques aéreos, em março de 1999. Eu estava em Pristina, a capital de Kosovo, onde grupos paramilitares sérvios percorriam as ruas, espancando os albaneses étnicos. Todos sabiam que não havia possibilidade de acordo e que a guerra estava para eclodir. Então Futy tinha razão, pensei. A luta voltara a Kosovo.
Quando o conheci, há nove anos, Futy percebera as velhas rivalidades fervilhando sob as águas paradas da ex-Iugoslávia comunista. Elas emergiram nessa pequena província, pátria de cerca de 2 milhões de pessoas (90% das quais albaneses étnicos) e parte da Iugoslávia dominada pelos sérvios.
Sob o comunismo, Kosovo gozava de certa autonomia em relação ao governo central, sediado em Belgrado. Mas os nacionalistas sérvios sempre a viram como berço da cultura sérvia e, em 1989, Slobodan Milosevic, o líder do Partido Comunista sérvio, decidiu endurecer e rescindir a autonomia de Kosovo. Diante dos protestos da população, o governo central enviou tropas à província para ajudar a polícia. Mais de 20 pessoas foram mortas e centenas feridas, numa onda de violência que se estendeu por meses a fio.
Um dos poucos fotojornalistas que cobriram o confronto, Futy teve os dentes quebrados a pontapés durante um dos tumultos. Ficou desdentado, mas nem por isso deixou de rir furiosamente do caráter surrealista da guerra que tomava conta dos Bálcãs.
Nos anos seguintes, acabei acompanhando essa guerra até me fartar, testemunhando a mesma insanidade vezes sem conta, enquanto os sérvios tentavam manter seu domínio sobre as repúblicas que se separavam da Iugoslávia: primeiro a Eslovênia, depois a Croácia, por fim a Bósnia. Nesse processo, minha visão da humanidade tornou-se mais sombria e complexa. Depois de ver as atrocidades cometidas pelas tropas sérvias em Vukovar, na Croácia – e a retaliação das forças croatas –, tomei plena consciência da presença do mal na face da Terra. Na Bósnia foi ainda pior: como uma boca imensa devorando as pessoas. E foi em Sarajevo que Futy desapareceu em 1993, após ser detido por uma patrulha sérvia. Não havia motivo para matá-lo, mas tenho certeza de que o fizeram, porque é assim que as coisas acontecem nessa parte do mundo. Aliás, seu corpo nunca foi encontrado.
Na primavera de 1998, fui a Kosovo, logo depois do grande massacre de kosovares albaneses em Likosane – o primeiro de uma série de ataques para eliminar os “terroristas” do Exército de Libertação de Kosovo (ELK), mas que, com freqüência, dizimavam homens, mulheres e crianças inocentes. Viajando quase sempre por estradas secundárias, vários colegas e eu cobrimos a loucura – e uma triste sucessão de enterros – de aldeia em aldeia.
Nas colinas de Drenica, baluarte do ELK, encontramos milhares de kosovares albaneses que tinham sido expulsos de suas casas, famílias inteiras vivendo em cabanas feitas de galhos e pedaços de plástico. Muitos homens dessas famílias estavam longe dali, lutando contra os sérvios, e os que se instalaram nas colinas – em sua grande maioria adolescentes e velhos – também se preparavam para o combate. Eles costuravam na roupa o emblema com a águia de duas cabeças que caracteriza a bandeira albanesa e armavam-se com fuzis automáticos Kalashnikov.
O massacre que afinal indignou o mundo ocorreu em janeiro de 1999, em RacŠak, onde as forças sérvias assassinaram cerca de 40 pessoas. Ali vi a brutalidade dos Bálcãs com nova e terrível clareza. Quem vive num país que nunca passou por uma guerra ainda consegue assistir pela TV à versão pasteurizada do conflito e pensar que, no fundo, o mundo é bom e decente. Os habitantes de RacŠak têm outra história para contar.
Dois meses depois, quando as conversações de paz desandaram e a Otan iniciou o bombardeio, fui um dos últimos jornalistas a deixar Kosovo. Nunca esquecerei o desespero nos olhos dos albaneses kosovares que, nesse dia, passaram por nós na estrada. Eles sabiam o que nossa partida significava. Não haveria mais testemunhas do horror que logo os engoliria. A morte estava à solta nos Bálcãs, e eu quase ouvi a risada de Futy, o louco.(Alexandra Boulat, agosto de 2011).


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