segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A CIDADE MAIS VIOLENTA DO BRASIL


Dá para dizer que duas cidades disputam esse título infeliz: a pequena Juruena, no Mato Grosso, e Serra, um dos maiores municípios do Espírito Santo. Na estatística pura e simples, Juruena seria a mais violenta: ela tem um índice de 139,7 pessoas assassinadas por ano para cada 100 mil habitantes. O problema dessa estatística é que o número-base de 100 mil habitantes (usado em pesquisas mundiais) pode gerar distorções em municípios como Juruena, que tem apenas 6 mil moradores. "Essa taxa de mortes por 100 mil habitantes não funciona muito bem em cidades pequenas. Um município com 10 mil pessoas pode ter tido uma chacina de 10 indivíduos em um ano e não ter nenhum assassinato no outro", diz o economista Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), órgão que produziu o estudo com esses dados sobre a violência no país. É por isso que os especialistas preferem considerar nesse ranking as cidades com mais de 300 mil habitantes. E, dentro desse grupo de municípios de médio a grande porte, Serra, na região metropolitana de Vitória (ES), é o campeão de violência, com 97,62 assassinatos por ano para cada 100 mil habitantes. As maiores cidades do país, São Paulo e Rio de Janeiro, têm muitas mortes em números absolutos, mas proporcionalmente não são tão violentas assim - as duas não ficam nem entre as 20 cidades mais perigosas do país entre aquelas com mais de 300 mil habitantes.
 Rankings de vida e morte Entre as cidades com mais de 300 mil habitantes, Serra (ES) é a mais perigosa
 MAIS VIOLENTAS
 1º Serra (ES) - 97,62*
 2º Olinda (PE) - 95,29
 3º Cariacica (ES) - 91,99
 4º Jaboatão dos Guararapes (PE)- 88,35
 5º Diadema (SP)- 73,15
 6º Duque de Caxias (RJ)- 69,62
 7º Vila Velha (ES) - 69,31
 8º Nova Iguaçu (RJ) - 68,54
 9º São João de Meriti (RJ) - 67,65
 10º Recife (PE)- 66,38

MENOS VIOLENTAS
 1º Maringá (PR)- 7,94
 2º Joinville (SC) - 8,03
 3º Juiz de Fora (MG) - 8,16
 4º Pelotas (RS)- 8,72
 5º Franca (SP) - 8,83
 * Nº de assassinatos por ano para cada 100 mil habitantes (Marina Motomura,Mundo Estranho, ed. 45).
 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

PAÍS BASCO

É um território que, apesar do nome, não é um país independente, mas uma área de 20 mil quilômetros quadrados entre a Espanha e a França onde vivem os bascos. Estabelecido ali há mais de 4 mil anos, esse povo conservou boa parte dos seus traços culturais originais, especialmente o nacionalismo e a língua, que não tem parentesco com nenhuma outra. "Ao longo de todo esse tempo, os bascos tiveram seu território ocupado por romanos, visigodos, mouros e francos. A Espanha e a França pegaram sua fatia por volta do século 15", afirma a historiadora Maria Guadalupe Pedrero-Sánchez, da Unesp de Assis (SP). No século 17, a demarcação definitiva das fronteiras dividiu de vez esse povo em dois Estados. "Na Espanha, onde estão 90% do território basco, a integração foi mais difícil que na França", diz o geógrafo André Martin, da Universidade de São Paulo (USP).
 Durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), eles lutaram contra o general Francisco Franco, o líder nacionalista que implantou uma sangrenta ditadura. Em represália, o general acabou com a relativa autonomia política basca, alimentando ainda mais o nacionalismo daquele povo e fazendo surgir organizações terroristas que defendiam a criação de um Estado independente. O mais famoso desses grupos, o ETA (sigla de Euskadi Ta Askatasua, ou "pátria basca e liberdade"), apareceu em 1959. Ao longo das últimas quatro décadas, os terroristas organizaram atentados contra o governo central em nome da independência. Uma pequena trégua na luta aconteceu em 1978, com a promulgação de uma nova Constituição espanhola que favorecia a autonomia do País Basco. Desde 1980, a nação conta com um Parlamento próprio, mas ainda não tem território.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

BÔERES

Entre o final do século XVII e início do XVIII, um grupo de fazendeiros de origem holandesa lutou contra o domínio dos ingleses em territórios africanos. Conhecidos como Böers (Bôeres, em português), parte deste grupo também descendia de calvinistas franceses, alemães e escandinavos e localizavam-se na região do Cabo (África do Sul), onde mantinham suas colônias e criaram o africâner (idioma neerlandês com inglês e malaio).
Durante o século XVIII, os Böers sofreram pressões das autoridades locais e foram obrigados a se deslocar para uma região localizada depois do rio Orange. Durante esta mudança de área, chamada de “A Grande Viagem”, os Böers travaram muitas batalhas e conseguiram fundar duas repúblicas: Transvaal e Orange. Nestes locais, aplicaram políticas segregacionistas que determinavam desigualdade econômica e social, utilizando os negros como força de trabalho.
 Dentro deste contexto, ocorreram as Guerras dos Bôeres, que foram confrontos entre os böers e os britânicos. Na época, o exército da Grã-Bretanha tentava dominar as minas de ouro e diamante que foram encontradas no território bôer. O primeiro conflito (Primeira Guerra dos Bôeres) durou de 1880 a 1881 e a independência do Transvaal foi conquistada. Porém, na Segunda Guerra dos Bôeres (1899-1902), houve a retaliação britânica com a criação da União Sul-Africana.
 Um dos fatores preponderantes para a vitória dos britânicos na Segunda Guerra dos Bôeres foi que, naquele período, a Grã Bretanha passava pela Revolução Industrial e a produção de materiais da indústria bélica  encontrava-se em plena expansão, o que ajudou na conquista contra os böers.
 Como consequência, as repúblicas de Orange e do Transvaal foram anexadas ao grupo de colônias britânicas de Natal e do Cabo. Segundo alguns historiadores, durante estes conflitos, os britânicos confinaram os böers em diversas áreas de concentração e executaram os prisioneiros que se rebelavam. O fim do conflito veio apenas com o Tratado de Vereeniging, que colocou o território da África do Sul sob domínio da Grã Bretanha.
 Os böers tem uma importância histórica controversa na África do Sul, apesar de terem criado as bases da sociedade que se tornou o apartheid africano, foram importantes para as descobertas de minérios que trouxeram desenvolvimento econômico para a região. Atualmente, o termo bôer não é mais utilizado na África Austral, tendo sido substituído por africâner.
Felipe Araújo.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

PLANO NACIONAL DE AGROECOLOGIA E PRODUÇÃO ORGÂNICA

O Planapo (Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica) é um programa instituído pelo governo federal para o estabelecimento de projetos estratégicos para serem implementados no campo, abrangendo a produção e a normatização dos produtos orgânicos e agroecológicos e seus insumos. Na agricultura, espera-se a obtenção de retornos favoráveis para a produção de alimentos e para a preservação dos agroecossistemas, incluindo a conservação dos recursos naturais.
Em seu processo de implementação, o Planapo depende não somente de incentivos do governo federal, mas também de órgãos governamentais regionais e organizações não-governamentais. A declaração inicial para o início do Planapo nas propriedades produtoras do pais foi dada por Pepe Vargas, Ministro do Desenvolvimento Agrário do governo Dilma Rousseff, durante Seminário Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica realizado em maio de 2013.

O Planapo está interligado ao Pnapo (Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica), instituído em 2012, através do Decretor n° 7.794. O Planapo seguiu após o Pnapo num processo de aprovação por um conselho de ministros do governo federal. Inicialmente, o Pnapo foi lançado com verba de 7 bilhões de reais para concessão de crédito e apoio à pesquisa, sendo considerado uma importante iniciativa para a agricultura brasileira nos anos 2010.

O Planapo, em sua execução, ajudará na ampliarão do crédito para o campo, no registro de produtos, infraestrutura e melhoria técnica nos processos de produção, incluindo a redução do uso de agrotóxicos por meio de novos métodos de plantio que incluem a produção de orgânicos.

Leia os primeiros parágrafos do decreto DECRETO Nº 7.794, DE 20 DE AGOSTO DE 2012:

Art. 1º  Fica instituída a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica - PNAPO, com o objetivo de integrar, articular e adequar políticas, programas e ações indutoras da transição agroecológica e da produção orgânica e de base agroecológica, contribuindo para o desenvolvimento sustentável e a qualidade de vida da população, por meio do uso sustentável dos recursos naturais e da oferta e consumo de alimentos saudáveis.

Parágrafo único. A PNAPO será implementada pela União em regime de cooperação com Estados, Distrito Federal e Municípios, organizações da sociedade civil e outras entidades privadas.

Art. 2º  Para fins deste Decreto, entende-se por:

I - produtos da sociobiodiversidade - bens e serviços gerados a partir de recursos da biodiversidade, destinados à formação de cadeias produtivas de interesse dos beneficiários da Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006, que promovam a manutenção e valorização de suas práticas e saberes, e assegurem os direitos decorrentes, para gerar renda e melhorar sua qualidade de vida e de seu ambiente;
II - sistema orgânico de produção - aquele estabelecido pelo art. 1º da Lei nº 10.831, de 23 de dezembro de 2003, e outros que atendam aos princípios nela estabelecidos;
III - produção de base agroecológica - aquela que busca otimizar a integração entre capacidade produtiva, uso e conservação da biodiversidade e dos demais recursos naturais, equilíbrio ecológico, eficiência econômica e justiça social, abrangida ou não  pelos mecanismos de controle de que trata a Lei nº 10.831, de 2003, e sua regulamentação; e

IV - transição agroecológica - processo gradual de mudança de práticas e de manejo de agroecossistemas, tradicionais ou convencionais, por meio da transformação das bases produtivas e sociais do uso da terra e dos recursos naturais, que levem a sistemas de agricultura que incorporem princípios e tecnologias de base ecológica.
Fernando Rebouças.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

SOL - O ASTRO REI

O Sol é basicamente constituído de  átomos de gases batendo uns nos outros, gerando outros gases e liberando energia na forma de luz e calor. Um bruta calor, que no centro do Sol chega a 15 milhões de graus Celsius! Essa fornalha é alimentada pelas chamadas reações nucleares, que transformam hidrogênio em hélio. Aliás, o hidrogênio é, de longe, o principal componente do Sol, respondendo por 92,1% de sua massa. Em seguida vem o hélio, com 7,8% da massa solar. Como essa reação também produz energia, pode-se dizer que o Sol está, de fato, queimando - e deve continuar assim por 5 bilhões de anos. Quando o hidrogênio acabar, o núcleo do Sol passará a fundir o hélio com metais mais pesados do núcleo. Esse processo o transformará numa estrela gigante vermelha, que engolirá o sistema solar. Em seguida, o Sol vai colapsar e se transformar numa anã branca, esfriando-se por completo depois de 1 trilhão de anos.
 Chapa quente
O calor de hoje saiu do centro do Sol há 1 milhão de anos
1. O calor e a luz solar são produzidos por milhares de reações nucleares que rolam a cada segundo no centro do Sol. Nessas reações, quatro átomos de hidrogênio se fundem para formar um hélio. A massa do hélio corresponde a cerca de 70% da massa dos quatro hidrogênios. Os outros 30% são liberados na forma de luz e calor
 2. Toda essa energia resultante das reações nucleares passa a viajar em direção à superfície do Sol. Esse caminho até a borda solar dura cerca de 1 milhão de anos. Não é fácil para essa energia vencer uma pressão 340 bilhões de vezes superior à da Terra
 3. Quando a luz chega à superfície, os raios luminosos encontram apenas o vácuo espacial (ou seja, ausência de pressão atmosférica). Em apenas oito minutos, a luz viaja 150 milhões de quilômetros e chega ao nosso planeta
 É o cara!
Compare os exemplos de poder do astro rei
MASSA TOTAL
 2 x 1030 kg (2 nonilhões de quilos) = 98% do sistema solar 332 mil Terras
 QUEIMA DE HIDROGÊNIO POR HORA
 700 milhões de toneladas = 4,6 milhões de baleias-azuis (maior animal do mundo)
 ENERGIA PRODUZIDA POR HORA
 13 x 1021 kWh (13 sextilhões de quilowatts-hora) = 1 sextilhão de hidrelétricas de Itaipu (maior usina do mundo)
Fernando Badô  (Edição 51 - Mundo Estranho).


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

RETRATOS DA BÓSNIA

“Começou em Kosovo e em Kosovo vai terminar.”
Lembrei-me dessas palavras sobre o conflito nos Bálcãs, ditas em 1991 por meu amigo Futy, um fotógrafo esloveno, no dia em que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) iniciou seus ataques aéreos, em março de 1999. Eu estava em Pristina, a capital de Kosovo, onde grupos paramilitares sérvios percorriam as ruas, espancando os albaneses étnicos. Todos sabiam que não havia possibilidade de acordo e que a guerra estava para eclodir. Então Futy tinha razão, pensei. A luta voltara a Kosovo.
Quando o conheci, há nove anos, Futy percebera as velhas rivalidades fervilhando sob as águas paradas da ex-Iugoslávia comunista. Elas emergiram nessa pequena província, pátria de cerca de 2 milhões de pessoas (90% das quais albaneses étnicos) e parte da Iugoslávia dominada pelos sérvios.
Sob o comunismo, Kosovo gozava de certa autonomia em relação ao governo central, sediado em Belgrado. Mas os nacionalistas sérvios sempre a viram como berço da cultura sérvia e, em 1989, Slobodan Milosevic, o líder do Partido Comunista sérvio, decidiu endurecer e rescindir a autonomia de Kosovo. Diante dos protestos da população, o governo central enviou tropas à província para ajudar a polícia. Mais de 20 pessoas foram mortas e centenas feridas, numa onda de violência que se estendeu por meses a fio.
Um dos poucos fotojornalistas que cobriram o confronto, Futy teve os dentes quebrados a pontapés durante um dos tumultos. Ficou desdentado, mas nem por isso deixou de rir furiosamente do caráter surrealista da guerra que tomava conta dos Bálcãs.
Nos anos seguintes, acabei acompanhando essa guerra até me fartar, testemunhando a mesma insanidade vezes sem conta, enquanto os sérvios tentavam manter seu domínio sobre as repúblicas que se separavam da Iugoslávia: primeiro a Eslovênia, depois a Croácia, por fim a Bósnia. Nesse processo, minha visão da humanidade tornou-se mais sombria e complexa. Depois de ver as atrocidades cometidas pelas tropas sérvias em Vukovar, na Croácia – e a retaliação das forças croatas –, tomei plena consciência da presença do mal na face da Terra. Na Bósnia foi ainda pior: como uma boca imensa devorando as pessoas. E foi em Sarajevo que Futy desapareceu em 1993, após ser detido por uma patrulha sérvia. Não havia motivo para matá-lo, mas tenho certeza de que o fizeram, porque é assim que as coisas acontecem nessa parte do mundo. Aliás, seu corpo nunca foi encontrado.
Na primavera de 1998, fui a Kosovo, logo depois do grande massacre de kosovares albaneses em Likosane – o primeiro de uma série de ataques para eliminar os “terroristas” do Exército de Libertação de Kosovo (ELK), mas que, com freqüência, dizimavam homens, mulheres e crianças inocentes. Viajando quase sempre por estradas secundárias, vários colegas e eu cobrimos a loucura – e uma triste sucessão de enterros – de aldeia em aldeia.
Nas colinas de Drenica, baluarte do ELK, encontramos milhares de kosovares albaneses que tinham sido expulsos de suas casas, famílias inteiras vivendo em cabanas feitas de galhos e pedaços de plástico. Muitos homens dessas famílias estavam longe dali, lutando contra os sérvios, e os que se instalaram nas colinas – em sua grande maioria adolescentes e velhos – também se preparavam para o combate. Eles costuravam na roupa o emblema com a águia de duas cabeças que caracteriza a bandeira albanesa e armavam-se com fuzis automáticos Kalashnikov.
O massacre que afinal indignou o mundo ocorreu em janeiro de 1999, em RacŠak, onde as forças sérvias assassinaram cerca de 40 pessoas. Ali vi a brutalidade dos Bálcãs com nova e terrível clareza. Quem vive num país que nunca passou por uma guerra ainda consegue assistir pela TV à versão pasteurizada do conflito e pensar que, no fundo, o mundo é bom e decente. Os habitantes de RacŠak têm outra história para contar.
Dois meses depois, quando as conversações de paz desandaram e a Otan iniciou o bombardeio, fui um dos últimos jornalistas a deixar Kosovo. Nunca esquecerei o desespero nos olhos dos albaneses kosovares que, nesse dia, passaram por nós na estrada. Eles sabiam o que nossa partida significava. Não haveria mais testemunhas do horror que logo os engoliria. A morte estava à solta nos Bálcãs, e eu quase ouvi a risada de Futy, o louco.(Alexandra Boulat, agosto de 2011).