quarta-feira, 6 de agosto de 2014

VIDA NOVA NO GELO

As ursas-polares mostram que o mais formidável predador do Ártico pode ser muito charmoso
Na primavera, ursas-polares do Parque Nacional Wapusk, na província canadense de Manitoba, saem da toca com seus filhotes de 3 meses. A fêmea jejuou por até oito meses, mas isso não impede que os filhotes suguem as energias que lhe restaram. Se forem trigêmeos, o mais persistente consegue uma refeição adicional. O nanico desta ninhada está fraco, tendo sido privado pelos irmãos maiores de várias mamadas. As fêmeas são protetoras, mas dão pouca importância às disputas em torno da comida. Fotografo ursos-polares há 11 anos e só uma vez vi o mais fraco de uma ninhada de três sobreviver até o outono.Os gêmeos, o tamanho mais comum de ninhada, parecem viver envoltos em luxo. Uma dupla farta-se de leite gordo. Mesmo de longe ouço os estalidos que fazem ao mamar e, através das lentes, consigo ver bocas meladas emergindo para respirar. Nesse dia ventoso, os ursos são mais inteligentes que eu. Eles descansam debaixo das árvores, enquanto sou obrigado a me agüentar em território desprotegido.
Primeiros passos
Trigêmeos de ursos-polares seguem os passos da mãe em sua primeira viagem ao litoral da baía de Hudson. Os inuits, esquimós do Canadá, dão a essa iniciação o nome de atiqtuq, “ursos descendo para o mar”.Sonolenta, uma fêmea gigante pouco se importa com as tentativas de seu filhote para galgá-la, mas fico emocionado com o espetáculo – e contente porque meus dedos gelados estão ágeis para capturar a série. Vivendo como um urso, mas sem um isolamento térmico tão eficaz quanto o deles, tremo de frio até mesmo em moderados -5oC depois de passar horas imóvel, esperando que façam alguma coisa. A temperatura é amena para a ursa, mas o filhote ainda não tem gordura nem pêlos suficientes para ficar invulnerável aos elementos. Se desgarrar de sua mãe, poderá facilmente morrer de fome ou de frio. Serão necessários mais de dois anos antes de ele se tornar um caçador competente, capaz de sobreviver sozinho.O castigo é rápido para um filhote que se desgarra e sobe um banco de neve sem licença. A ursa o agarra e o imobiliza no chão com um rosnado baixo, apesar dos gritos de protesto do filhote. A mãe mostrava-se mais tolerante antes, quando o mesmo filhote lutava com um irmão, os dois envolvidos pelo abraço dela. A toca diurna é um abrigo familiar temporário. Com suas patas enormes, a ursa retira neve para ali se acomodar. Os ursos fazem freqüentes pausas em sua jornada em direção ao mar, a fim de descansar, brincar e amamentar. Não tenho dúvidas de que esta mãe e exímia caçadora esteja faminta e ansiosa para caçar focas na massa de gelo flutuante, mas ela não apressará seus filhotes na longa caminhada. O pai, como sempre, não está presente nesta cena familiar. Os machos nômades não têm nenhuma função na criação dos filhotes e podem ser perigosos para os ursos jovens. Por isso, as fêmeas com filhotes tendem a evitá-los. O menor dos três – mesmo debilitado – continua no grupo, uma minúscula bola de pêlos parcialmente escondida, ao lado da mãe.Vivendo num mundo de diversões sem fim, os trigêmeos brincam e rolam aos pés de sua protetora. Num dia gélido, uma fêmea envolve seu filhote com calor maternal. Com o vento baixando a temperatura a -50oC, aqueço meu equipamento e meus dedos junto ao motor do veículo. Um rolo de filme despedaça-se como vidro quando tento carregá-lo na máquina. O truque é trabalhar devagar e com cuidado, embora alguns grandes momentos possam ficar sem registro.Nem tudo vai bem no reino dos ursos. Embora a delimitação de parques e a criação de cotas de caça tenham ajudado a proteger os animais das armas de fogo, surgem novas ameaças. Poluentes químicos contaminam a cadeia alimentar e o hábitat natural dos ursos poderá se deteriorar pela mineração e pela extração de petróleo em alto-mar. Tendências recentes de aquecimento da temperatura aceleraram o derretimento das massas de gelo flutuante, reduzindo a caça de focas pelos ursos-polares durante a primavera. Ainda não se pode prever o que será deles e de outros animais selvagens do Ártico. No momento, tudo o que vejo é um nobre sobrevivente na paisagem, protegendo seus filhotes do vento ártico e de outros perigos da vida no gelo.(Norbert Rosing - Dezembro de 2008).





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