terça-feira, 19 de agosto de 2014

QUANDO A VIDA QUASE ACABOU

Há 250 milhões de anos, no período Permiano, uma devastação misteriosa quase dizimou a vida na Terra
“Bem-vindos ao Triângulo Negro,” anuncia a paleobióloga Cindy Looy quando estacionamos perto de um conjunto de colinas no norte da República Tcheca, a alguns quilômetros da dupla fronteira com a Alemanha e a Polônia. O lugar tem um nome sinistro e logo descubro a razão: ele deriva do carvão queimado pelas usinas termelétricas da região. Décadas de chuva ácida gerada pelas emissões das usinas devastaram a vegetação local, mas, apesar desse passado, os morros sem árvores me pareceram saudáveis. Tento disfarçar minha surpresa.Fazia meses, afinal, que eu estava no encalço da maior catástrofe natural da história da Terra. Há cerca de 250 milhões de anos, no final do período chamado Permiano, uma força misteriosa destruiu 90% das espécies do planeta. Menos de 5% da fauna marinha sobreviveu. Em terra firme, menos de um terço das espécies de grandes animais conseguiu escapar. Quase todas as árvores morreram. Cindy Looy havia me contado que o assustador Triângulo Negro era hoje o lugar ideal para se observar como o mundo teria ficado nessa época remota e calamitosa. Mas o lugar, à primeira vista, em nada se parecia com o apocalipse.Só percebemos os primeiros sinais da devastação quando seguimos para o alto das colinas: os restos de um bosque de abetos, morto pela chuva ácida, com seus troncos caídos e ocultos pela vegetação rasteira. Ninguém ouvia o canto de pássaros ou o zumbido de insetos. Apenas o vento soprava através do mato que resistira ao ácido. “A floresta que existia aqui há poucas décadas era muito rica em espécies. Restaram algumas gramíneas”, lamenta Looy.A pesquisadora apanhou uma pinha de abeto, possível reservatório do pólen das árvores à nossa volta. Ela acredita que a extinção em massa do Permiano foi causada por uma chuva ácida ocorrida depois da liberação de gases vulcânicos. Por isso, quer comparar o pólen fóssil encontrado em rochas permianas com o pólen de uma floresta moderna, também morta por chuva ácida. Tal como um detetive numa cena de homicídio, Looy guardou a pinha num saco plástico para depois examiná-la num laboratório. “Pode-se dizer que estamos trabalhando no maior caso de homicídio de todos os tempos”, ela explica.CindyLooy está entre os muitos cientistas que tentam identificar o “assassino” responsável pela extinção do Permiano. Outra famosa mortandade acabou com o reinado dos dinossauros há 65 milhões de anos, entre os períodos Cretáceo e Terciário. A maioria dos pesquisadores considera esse caso encerrado. As rochas da época contêm traços de um asteróide que atingiu a Terra e produziu eventos catastróficos, de incêndios globais a alterações climáticas. Mas os detetives do Permiano estão diante de uma multidão de suspeitos, sem provas suficientes para condenar qualquer um deles.Para entender a extinção, eu queria, antes de tudo, ter uma idéia de sua escala. Mas isso não é fácil – os sedimentos que contêm fósseis do fim do Permiano são raros e muitas vezes inacessíveis. Um dos poucos sítios arqueológicos onde eles estão preservados fica a cerca de 300 quilômetros da Cidade do Cabo, na África do Sul, numa faixa de cerrado conhecida como Karoo. “À primeira vista, é o tipo do lugar monótono onde as pessoas dormem ao volante”, compara Roger Smith, paleontólogo do Museu Sul-Africano, enquanto rodamos por uma terra sem árvores. “Mas este pode ser o melhor lugar para se observar a transição do período Permiano para o Triássico.”Seguimos até um desfiladeiro chamado Lootsberg. As rochas à nossa volta datam do final do Permiano. Numa hipotética viagem ao passado, teríamos visto tantos e tão diferentes animais como se estivéssemos visitando o Parque Nacional de Serengeti, na Tanzânia. A maior parte deles pertenceria a um grupo conhecido como sinápsidos, répteis exóticos com aparência de mamífero – algo como um híbrido de cachorro e lagarto. Durante mais de 60 milhões de anos, os sinápsidos foram os principais vertebrados terrestres e ocuparam os mesmos nichos ecológicos que seus sucessores, os dinossauros. “Encontramos fósseis de vários tipos de sinápsidos nessas rochas, como os dicinodontes-com-bico-de-tartaruga, que certamente viviam em rebanhos e pastavam a vegetação ribeirinha”, diz Smith. “Havia também muitos herbívoros menores, comedores de raízes, como os diictodontes, de corpo comprido e pernas curtas. Já os gorgonópsidos eram carnívoros velozes e de dentes afiados.”
Smith reduziu a velocidade num trecho sinuoso, abaixou o vidro e apontou para um penhasco marcado com uma estria horizontal. “Vê aquele rochedo na beira da estrada?”, pergunta. “Ele representa a zona de transição entre os períodos Permiano e Triássico. Segure-se. Vamos passar pelo ponto exato da extinção!”
 Os fósseis encontrados no lugar indicam que os sinápsidos sofreram um golpe mortal no final do Permiano. Nos primeiros metros da zona de transição restaram apenas um ou dois fósseis dos animais conhecidos como listrossauros. O crânio de um deles estava no caminhão de Smith – o focinho achatado dava-lhe a aparência de um buldogue com presas. No terreno mais alto, nas rochas do início do Triássico, a diversidade diminui ainda mais.
 A flora também foi atingida pela fúria da extinção. Há indícios de danos às florestas nos Alpes Italianos. Fiz parte de uma equipe de pesquisas dirigida por Henk Visscher, da Universidade de Utrecht, no despenhadeiro de Butterloch, onde jazidas de fósseis expostos cobrem a transição do Permiano ao Triássico. As jazidas ficam no alto de um penhasco, acessíveis apenas por uma escalada em montes de cascalho. Segui Mark Sephton, um alpinista veterano, por uma encosta de pedras soltas até chegar a uma saliência na rocha. Sephton usava o martelo para extrair fragmentos rochosos, cada qual contendo fósseis microscópicos – pedaços de plantas e de fungos. As camadas inferiores de fragmentos, anteriores à extinção, preservaram bastante pólen, sinal de ali havia uma floresta de coníferas saudável. Nas rochas do trecho de transição, porém, o pólen é substituído por fiapos de fungos fossilizados.
 Esses resquícios podem representar a explosão populacional de um tipo de fungo primitivo e faminto, que se banqueteava de árvores putrefatas. “Ele devia alimentar-se de madeira”, analisa Looy, que trabalha com Visscher. “Ao morrer, a árvore caía. A partir de esporos no solo, os fungos então cresciam sobre ela. E decompunham-na completamente.” Visscher e seus colegas encontraram uma elevada ocorrência de resquícios de fungos em rochas do Permo-Triássico. Como as mesmas rochas apresentam poucos grãos de pólens de árvores, a conclusão de Visscher é de que quase todas as árvores do mundo morreram de uma só vez.
 Na volta de butterloch, um membro da equipe passou-me uma banana mole e escura que sobrara do almoço. “É assim que você pode imaginar a extinção permiana. Biomassa apodrecendo”, compara ele. “Não é fácil eliminar tantas espécies. Foi um evento realmente devastador”, completa Doug Erwin, paleontólogo do Instituto Smithsoniano. Erwin e o geólogo Samuel Bowring, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, detectaram cinzas vulcânicas em sedimentos chineses acumulados durante o fim do Permiano. Para Bowring, a extinção durou apenas 100 mil anos – na escala geológica de tempo, mais rápida que o clique de uma câmera fotográfica.
 Gregory Retallack, geólogo da Universidade de Oregon, acredita que o principal suspeito da mortandade tenha sido o impacto de um enorme asteróide. Segundo ele, tal colisão teria lançado bilhões de partículas na atmosfera. E elas teriam se difundido por todo o planeta antes de se precipitar sobre a terra e o oceano. Na Austrália e na Antártida, Retallack encontrou, em rochas da época da extinção, minúsculos cristais de quartzo marcados com fraturas microscópicas. “É preciso uma força várias vezes maior que a de uma explosão nuclear para criar esse quartzo fraturado”, avalia Retallack. “Só um impacto descomunal poderia tê-lo deformado dessa maneira.” Recentemente uma equipe de pesquisadores descobriu, na Austrália, algo que poderia ser a marca daquele impacto: uma cratera de mais de 120 quilômetros de largura, causada por um asteróide com mais de 5 quilômetros de diâmetro.

Perguntei a Retallack como eu sentiria o impacto se estivesse a centenas de quilômetros do local. “Haveria um tremor”, replica ele. “Depois, nuvens de gases venenosos bloqueariam o sol durante meses. As temperaturas baixariam, neve e chuva ácidas cairiam do céu. Quando as nuvens se dispersassem, a atmosfera acabaria ficando espessa por causa do dióxido de carbono resultante de incêndios e de matéria em decomposição. O CO2 é um gás causador do efeito estufa, que teria contribuído para um aquecimento global que duraria milhões de anos.” Apenas os efeitos de curto prazo – frio, escuridão e chuva ácida – seriam suficientes para matar as plantas e o plâncton, que fazem fotossíntese e são a base da maior parte das cadeias alimentares. Os animais herbívoros morreriam de fome. E depois os carnívoros, que se alimentam dos herbívoros.
 Outros pesquisadores suspeitam que a causa da morte tenha vindo dos mares. Os cientistas há muito sabiam que, no final do Permiano, não havia oxigênio nas profundezas oceânicas. A maior parte da vida marinha concentrava-se em águas rasas – nos recifes, por exemplo. Mas, em 1996, os geólogos ingleses Paul Wignall e Richard Twitchett, da Universidade de Leeds, anunciaram a descoberta dos primeiros indícios de esgotamento do oxigênio, ou anoxia, em rochas de águas rasas da época da extinção.
Hoje, em lugares onde não há boa circulação de correntes, a poluição dos mares provoca o mesmo problema de anoxia. Wignall, porém, suspeita que o oceano inteiro tenha se tornado estéril no fim do Permiano. A inexistência de uma calota de gelo pode ter estacionado as correntes que oxigenam o oceano. Em geral, são as diferenças de temperatura entre as águas polares e equatoriais que criam as chamadas correntes de convecção. Sem elas, pode ter havido um acúmulo de águas sem oxigênio, que vazaram para as águas rasas quando o nível do mar subiu. E assim sufocaram a vida marinha.
 Os oceanos permianos também podem ter sido envenenados com CO2. É o que pensa Andrew Knoll, um paleobiólogo de Harvard. As bactérias oceânicas alimentam-se de matéria orgânica e produzem bicarbonato como subproduto de sua digestão. Sem as correntes marinhas, o nível de bicarbonato teria aumentado nas profundezas do oceano. Knoll acha que algum fenônemo poderoso perturbou os mares. A água do fundo veio à superfície e, nesse processo, foi despressurizada. O bicarbonato dissolvido foi liberado sob a forma de CO2, fazendo o oceano efervecer como um copo de sal de frutas. Quando níveis tóxicos de CO2 chegaram aos baixios, os peixes tornaram-se letárgicos e, aos poucos, caíram no sono. “Talvez o Permiano tenha terminado com um suspiro, em vez de um estrondo”, resume Knoll.

Outros suspeitos da mortandade são os vulcões. Uma temporada de erupções mortíferas pode ter deixado uma impressão digital de 2,5 milhões de quilômetros quadrados na Sibéria. Coberto por coníferas, parte de um monte de lava com 4 quilômetros de espessura foi detectado abaixo da cidade de Norilsk. Os geólogos chamam esse vasto campo de lava de Armadilhas Siberianas. “Rios de espesso magma escorreram de numerosos vulcões”, diz o geólogo Paul Renne, do Centro de Geocronologia de Berkeley. “Centenas de quilômetros cúbicos de magma espalharam-se pela Sibéria o bastante para cobrir a Terra com uma camada de cerca de 6 metros de espessura.”
 Há décadas os cientistas sabem que as Armadilhas Siberianas foram formadas no fim do Permiano. Com isso, vigora a hipótese de que a extinção possa ter relação com a série de erupções vulcânicas. Renne, especialista na determinação da idade das rochas, vem tentando calcular com precisão a época desses dois eventos. Seu laboratório está repleto de aparelhos que indicam a idade das rochas por meio do decaimento de isótopos radiativos no interior delas. Ele obteve pedaços de lava das Armadilhas Siberianas e rochas da transição permo-triássica vindas da China. Com isso, pode determinar que os dois eventos ocorreram com um intervalo de 100 mil anos – e duvida que isso seja apenas uma mera coincidência.
 Mas os vulcões das Armadilhas Siberianas não provocaram a extinção cobrindo o mundo com lava. À medida que eram liberados na atmosfera, os gases vulcânicos teriam gerado chuvas ácidas. Moléculas de sulfatos teriam bloqueado a luz do sol e esfriado o planeta. A glaciação teria reduzido o volume de água no oceano, congelando-a. O nível do mar baixou, matando a vida marinha nas águas rasas e reduzindo drasticamente sua diversidade. A queda no nível do mar pode também ter liberado metano, que, associado ao CO2 das erupções e da matéria orgânica em decomposição, teria provavelmente produzido condições de estufa. “Em 1783 um vulcão chamado Laki entrou em erupção na Islândia”, conta Renne. “Em um ano a temperatura global caiu quase 1 grau. Imagine um Laki cuspindo lava todos os anos, durante centenas de milhares de anos.”
 Doug Erwin, do Instituto Smithsoniano, compara a extinção no Permiano ao livro Assassinato no Expresso Oriente, de Agatha Christie, no qual um corpo é descoberto num trem com 12 golpes de faca – 12 assassinos diferentes conspiraram para matar a vítima. Erwin suspeita de vários assassinos. Pois talvez tudo – erupções, um impacto de asteróide, a falta de oxigênio na água – tenha ocorrido ao mesmo tempo. “Tudo isso poderia acontecer de novo. A questão é quando. Amanhã? Daqui a 100 milhões de anos?”, completa Erwin.
 Perambulei pelo Instituto Smithsoniano até chegar a uma estante com crânios de sinápsidos do Permiano. O lugar não é muito visitado. Os listrossauros, que herdaram o mundo estéril do Triássico, fitam o vazio da sala com seus olhos vazados. A situação lembra o tempo em que eles foram soberanos. Sozinhos, sem ter com quem competir, espalharam-se por todo o planeta, da Rússia à Antártida.
 A morte cria oportunidades. Os sobreviventes ocupam nichos vagos. Foi preciso, por exemplo, 1 milhão de anos para os sinápsidos se diversificarem. Uma de suas linhagens produziu nossos ancestrais, os primeiros mamíferos. Hoje estamos criando uma nova extinção em massa, exterminando espécies sem conta. Será que, agora, a vida será capaz de se recuperar? Lembrei-me das plantas resistentes ao ácido no Triângulo Negro, na República Tcheca. É um acontecimento menor. Pois, se a vida pôde sobreviver à extinção do Permiano, pode então resistir a qualquer desastre futuro.
Hillel J. Hoffmann (National Geografhic, agosto de 2011).

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