sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A TRISTE SINA DO POVO BOSQUÍMANO

O povo bosquímano, depois de perder o seu terrítório tenta resistir às transformações culturais, mesmo à beira da extinção.
Nascido em meio à pobreza, a roupa do corpo é praticamente tudo o que este pastor acumulou trabalhando numa fazenda da Namíbia. Reduzidos à servidão na terra que pertenceu a seus ancestrais, os 85 mil bosquímanos nativos do sul da África tentam recuperar sua posição e seu orgulho.
Um bosquímano besunta as pernas com sangue de antílope num ritual presenciado pelos visitantes da Intu Afrika, uma reserva de caça comercial na Namíbia. Muitos tentam sobreviver do turismo. “A mitologia é um de seus poucos trunfos”, diz o antropólogo James Suzman.Tenhamos pena dos primeiros habitantes do sul da África. Pena do povo sem nome, pois quem é único não precisa distinguir-se dos outros. Pena dessa gente cujo domínio exclusivo chegou a se estender do Zambeze ao cabo da Boa Esperança, do Atlântico ao Índico. Os tsuanas – seus vizinhos no Kalahari, aonde chegaram há 1,2 mil anos – os chamam de basarwa, “os que nada possuem”. Para os cóis, seus primos pastores, eles são os san, “forasteiros ou vagabundos”. Esse povo tem um passado antigo, mas quase nenhum registro histórico – a não ser por uma gloriosa exceção: figuras de antílopes e elefantes, de dançarinos e caçadores pintadas na pedra, algumas surpreendentemente vívidas mesmo tendo ficado expostas à chuva e ao sol durante três milênios. As pinturas mais recentes mostram navios e cavaleiros. Depois nada mais.Os colonos europeus que aportaram no sul da África há 350 anos os chamaram simplesmente debushmen, “homens da mata” ou bosquímanos, em português. Considerando-os “indomáveis” e uma ameaça para o gado, foram tratados como seres desprezíveis e exterminados em grande número. Em um estudo antropológico realizado no século 19, J.C. Prichard resumiu a dramática situação dessa gente: “Em nenhuma outra parte do mundo encontra-se a natureza humana em situação de tanto desamparo e tanta miséria”.Anunciados como “os anões primitivos da África”, grupos de bosquímanos eram exibidos pela Inglaterra nas feiras de monstruosidades que eram comuns na época vitoriana. Para os primeiros antropólogos, eles não passavam de “fósseis vivos”, o elo perdido da evolução, ou seja, nem chegavam a ser propriamente humanos. Para alguns estudiosos, as extraordinárias línguas dos bosquímanos, com seus estalidos tonais, assemelhavam-se não à linguagem humana, e sim às vozes dos animais, “ao cacarejar das galinhas e ao grugulejar dos perus”.Logo os bosquímanos foram marginalizados, lançados ao patamar mais baixo do brutal sistema de castas vigente no sul da África. Muitos foram escravizados na prática pelos bantos pastoris; outros trabalhavam por um prato de comida nas fazendas dos brancos.Hoje restam perto de 85 mil bosquímanos, à beira da extinção cultural. A maioria vive nas regiões mais remotas do deserto de Kalahari, em Botsuana, Namíbia, Angola, África do Sul, Zimbábue e Zâmbia. Estão entre os povos aborígines mais estudados do planeta. Tanto interesse deve-se à idéia de que constituem um de nossos derradeiros vínculos com uma existência baseada na caça e na coleta, um estilo de vida universal até cerca de 10 mil anos atrás, quando o homem ainda não havia domesticado animais nem aprendido a cultivar a terra. Numa época em que a sobrevivência humana dependia diretamente da natureza.Já faz algum tempo que os bosquímanos perderam seu esplêndido isolamento de caçadores e coletores. Para alguns antropólogos, a transformação final dos bosquímanos do Kalahari acompanhou a difusão de poços d’água na década de 50. Uma das principais vantagens desse povo era sua capacidade de sobreviver em regiões áridas, sem água na superfície. Graças à destreza para localizar melões e tubérculos suculentos e também ao sistema de enterrar ovos de avestruz repletos de água e devidamente lacrados na estação das chuvas para recuperá-los durante as secas, eles conseguiram sobreviver em áreas consideradas inabitáveis por outros povos. Agora esse talento deixou de ter utilidade. Os poços permitiram que a região fosse ocupada pelos cóis e pelos bantos pastoris e os bosquímanos acabaram sendo desalojados.
 Dos cerca de 25 grupos remanescentes, o mais próximo da chamada sociedade bosquímana autêntica encontra-se no distrito de Nyae Nyae, no nordeste da Namíbia. Seus membros são os ícones dos conservacionistas, vivendo em perfeita harmonia com a natureza e romantizados no filme Os Deuses Devem Estar Loucos. Esses bosquímanos são conhecidos como os ju/’hoansi, “o verdadeiro povo”, e contam com cerca de 1,6 mil indivíduos. A barra depois de “ju” é um dos quatro sinais (/, //, ! e € ) usados para indicar os distintos estalidos das línguas bosquímanas.
 Nyae Nyae fica numa região plana e árida, na fronteira com Botsuana. Servia de “pátria” no estilo do apartheid quando a Namíbia ainda era província da África do Sul. Oito anos depois de sua independência da Namíbia, em 1990, Nyae Nyae passou a ser uma reserva, administrada por um conselho eleito de bosquímanos. Os ju/’hoansis têm sorte de habitar a terra de seus ancestrais ou pelo menos parte dela.
 Uma das cerca de três dezenas de aldeias em Nyae Nyae, Den/ui está localizada no fim de uma estrada de terra irregular em meio ao bushveld, a vegetação rala do Kalahari. As cabanas de palha hoje habitadas pelos bosquímanos pouco se distinguem daquelas erguidas por seus ancestrais para servir de abrigo provisório numa época de existência nômade, quando os grupos familiares estavam sempre se deslocando em busca de caça e coleta. Hoje, porém, a aldeia é permanente, possui uma escola primária de fibra de vidro e um poço artesiano de água fresca.
 Acampamos numa clareira próxima à aldeia e naquela noite fiquei ouvindo os sons de peitos cheios de catarro, a tosse seca dos tuberculosos, o choro inconstante dos bebês competindo com os uivos dos chacais em ronda. É inverno no Kalahari e, quando os galos começam a cantar, o frio penetra nos ossos. Ao sair da barraca, vejo o “coração da manhã” – assim os bosquímanos chamam Júpiter – brilhando no horizonte. A água em minha caneca está congelada.
 Ao entrar na aldeia, encontramos as famílias amontoadas em torno de pequenas fogueiras. Algumas crianças estão de peito nu e os adultos têm, quando muito, um cobertor puído sobre os ombros ossudos e as costelas salientes. Estão tomando seu parco café da manhã: frutos silvestres e chá aguado.
 Sentado num tronco, N!amce, um dos líderes de Den/ui, dedica-se à preparação de flechas. Primeiro aquece e rola o caniço amarelo nas cinzas da fogueira, a fim de obter a forma desejada. Depois besunta a ponta da haste com o betume de uma velha bateria de carro, aquece de novo a flecha e nela enrola um fio feito com tendão de antílope kudu (Tragelaphus strepsiceros). Em seguida, faz um entalhe numa das extremidades, o encaixe da flecha na corda do arco. Na outra ponta insere uma lasca de osso de girafa, que liga a uma pequena cana, na qual fixa a ponta da flecha, um pedaço de arame moldado em forma de triângulo. Por fim, reveste com cuidado os 10 centímetros de arame anteriores à ponta da flecha com o veneno cuidadosamente armazenado num chifre de antílope steenbok (Raphicerus campestris).
 O veneno dos bosquímanos é famoso. Alguns caçadores empregam uma mistura de peçonha de cobra e sumo de cacto; outros preferem essência de escorpião e aranha-armadeira. Aqui, no norte do Kalahari, utilizam o mais letal de todos: as larvas de duas espécies de besouro, Diamphidia e Polyclada, misturadas com resina de árvore. O veneno penetra na corrente sanguínea e provoca paralisia, levando à morte. Atingido por uma boa flechada, um antílope pequeno demora cerca de 24 horas para morrer; um animal grande agoniza por vários dias. E ainda não se conhece nenhum antídoto confiável.
Eram as flechas envenenadas dos bosquímanos que infundiam tanto terror nos primeiros colonos. No início do século 19, o missionário John Campbell descreveu o que aconteceu com um companheiro atingido no ombro por uma dessas flechas: “Seu aspecto nos assustou, estando ele muito inchado, sobretudo na cabeça e no pescoço. Ele contou que sentia o veneno descendo pouco a pouco até os dedos dos pés e depois subindo da mesma forma. Seu semblante era medonho, desfigurado pelo inchaço”. O homem morreu na noite seguinte.
 N!amce faz uma pausa para fumar. Ele soca um filtro de cortiça fibrosa na extremidade de seu cachimbo de metal, pega um punhado de excremento de hírace, um pequeno mamífero hiracóideo, e coloca-o no cachimbo. Então aspira a fumaça acre, exala com satisfação e passa o cachimbo para N€aisa, uma velha com a testa adornada por uma fieira de contas, das quais pende um triângulo de metal que fica balançando sob seu nariz. Ela usa também um clipe de papel na orelha, à guisa de brinco.
 Carregando flechas envenenadas, um grupo de homens sai para caçar. Seguem depressa, olhando para o chão só de vez em quando, quase sem alterar o ritmo da caminhada, para localizar rastros. Meu intérprete bosquímano, /Ai!ae/Aice, me explica como lêem o solo: “Do mesmo jeito como vocês lêem um livro. A mata é nosso livro”. Eles conseguem determinar a idade e o sexo dos animais pelas marcas que deixam. Um jovem caçador se agacha e examina os excrementos de um antílope hartebeest: quanto mais material fibroso, menos eficiente é a digestão e mais velho o animal. Em geral, uma gazela springbok macho é a última do bando, me informa /Ai!ae/Aice; e um órix gemsbok macho dá cabeçadas no tronco das árvores para delimitar seu território.
 Os bosquímanos calculam o momento em que um rastro foi produzido em função do tempo que os cupins levam para reconstruir um ninho pisoteado, ou que uma haste de capim leva para retomar sua posição habitual ou, ainda, pelo tempo que uma aranha necessita para reparar sua teia. E, quando atingem o animal com uma flecha, não correm de imediato em seu encalço. Em vez disso, seguem até o lugar onde o acertaram e memorizam o tipo de rastro que ele deixa. Só então passam a segui-lo pacientemente, até ele tombar morto.
 Graças a essa habilidade como rastreadores, mais do que a qualquer outro talento, ao longo dos anos militares, caçadores e fazendeiros os têm procurado para perseguir guerrilheiros, animais e caçadores ilegais.
 Hoje os caçadores voltam de mãos vazias. A caça foi exterminada em Nyae Nyae. Em 1877, em um único dia, o caçador africânder Hendrik van Zyl e sua eficiente tropa de “atiradores” bosquímanos abateram aqui mais de 100 elefantes. Os pastores hereros, de língua banto, e os fazendeiros brancos eliminavam os antílopes, pois estes disputavam as pastagens com o gado. Atualmente, a caça ocupa lugar modesto na dieta dos bosquímanos. Ela varia muito de acordo com as circunstâncias, mas, segundo recente levantamento feito numa aldeia de Nyae Nyae, respondia por menos de 20% do consumo semanal. Os alimentos não perecíveis distribuídos pelo governo em épocas de seca representam cerca de 40%, e outros 35% são adquiridos com dinheiro de aposentadorias, venda de artesanato e salários. O restante provém de hortas e coleta.
 Alguns dias depois, com o sol aquecendo a manhã gelada, junto-me a um grupo de mulheres da aldeia que vai coletar nozes de mongongo, um fruto do tamanho da avelã e rico em proteínas. Envoltas em mantos de pele de antílope hartebeest bordados com círculos de contas e carregando os filhos nas costas, as mulheres partem mata adentro. Algumas usam sandálias toscas feitas de pneu, mas a maioria está descalça. Muitas exibem no rosto intrincadas tatuagens, pequenos traços azuis paralelos irradiando de cada olho. Elas atravessam o mar de capim. Logo estão vasculhando as folhagens e cutucando o chão com varetas. N€aisa discorre sobre o uso dos vários espécimes da flora e da fauna que vai recolhendo numa sacola de estopa. A raiz de uma árvore é boa para quem tosse sangue. Outra cura febre ou gripe. “E esta é a planta da sorte”, diz ela, arrancando uma erva. “Basta queimá-la e pôr a cinza no rosto para que todos os homens se apaixonem pela gente.”
 Os besouros da acácia tampouco escapam: depois de terem as patas arrancadas, também vão para a sacola. N€aisa pega a minúscula carapaça sarapintada de um jabuti que traz presa ao cinto de contas, retira a rolha que a fecha, despeja um pouco de rapé na mão calejada e o aspira.
Por fim chegamos ao bosque de mongongo. Uma pequena manada de elefantes passou por aqui há pouco, pulverizando as árvores com a violência de um tornado. Mesmo assim, quando tomam o caminho de volta, quase 8 horas depois, as mulheres levam as sacolas cheias. Elas ajeitam as crianças nas costas e, afastando-se do sol poente, partem na direção dos finos penachos de fumaça que se elevam da aldeia.
 Uma vez em casa, arrancam as asas dos besouros e os tostam na brasa por alguns segundos. Oferecem-me um punhado deles. Levo um à boca e mordo, apreensivo. Os fluidos internos do besouro inundam-me a língua e trato de engolir o mais rápido possível.
 À noite os bosquímanos da aldeia costumam dançar em torno do fogo e, às vezes, essa dança evolui para um estado de transe, um dos principais elementos de sua espiritualidade. Ao longo dos anos, os missionários converteram alguns bosquímanos ao cristianismo, mas não os de Den/ui. “Aqui somos tradicionalistas”, explica o líder da aldeia. “Podemos falar com quem os cristãos falam. O Deus é o mesmo; só o que muda é a maneira de se comunicar com Ele.”
 Sentadas ao redor da fogueira, as mulheres e as crianças batem palmas enquanto os homens dançam em volta das chamas, batendo os pés no chão poeirento, as coxas vibrando sob as perneiras de couro. Pouco a pouco, vai crescendo o ritmo das palmas e da cantilena sem palavras. A cerimônia, chamada “dança da girafa”, é conduzida pelo xamã local, um velho com uma tiara de contas e pena de avestruz na cabeca e uma bolsa de couro ocre sobre a virilha. Enquanto circunda a fogueira, ele acaba caindo em transe. Os bosquímanos acreditam que, nesse estado de consciência alterado, é possível curar enfermidades e entrar em contato com os mortos ou com parentes ausentes.
 A mãe de uma menina doente pede ao xamã que descubra a causa do mal. O xamã segura a mulher pelos ombros e pressiona a própria testa contra a dela para extrair seus pensamentos. Outros aldeões esfregam san, um perfume feito com raízes da planta Hemizygia bracteosa, no corpo do xamã e também lançam ao fogo punhados que explodem numa chuva de estrelinhas.
 De repente, o xamã afasta-se do tremeluzente círculo de fogo e, apesar de sua provável idade avançada, trepa numa árvore próxima onde, encarapitado num galho, põe-se a cacarejar e a rugir para a multidão. Minutos depois, salta para o chão, o rosto cortado e sangrando por causa dos espinhos da árvore. Então retoma a dança, num ritmo frenético, ao mesmo tempo que lança gritos para o frio e impassível firmamento.
 “O problema todo começou com a gazela”, anuncia o xamã, falando em nome de um ancestral falecido. “A que foi achada morta perto da aldeia. Vocês comeram a carne, mas jogaram fora as tripas, o bucho e os cascos. Foi um desperdício. O espírito se zangou e por isso vai matar a menina. É preciso comer tudo, tudo!” Em geral os transes aliviam as tensões e reforçam a solidariedade, mas essa advertência relativa ao desperdício é incomum – raramente os espíritos pregam moral. O xamã garante ao espírito irado que tal erro não se repetirá. E com isso desaba na fria poeira vermelha, seus membros tremendo de maneira incontrolável. O líder e outros aldeões o afagam até cessarem os tremores.
 A cultura dos bosquímanos tem suscitado grande interesse não só no campo da antropologia, mas também no do etnoturismo, que, segundo alguns, poderia constituir a melhor maneira de preservar resquícios de sua tradição cultural. Organizações como a Wimsa, o Grupo de Trabalho das Minorias Indígenas no Sul da África, vêm tentando negociar acordos entre os bosquímanos e os operadores de turismo de modo a evitar que os nativos sejam explorados como no passado. No entanto, empreendimentos como a Intu Afrika reduzem as chances de os bosquímanos preservarem seus costumes, ainda que mantenham vivo o orgulho da sua herança cultural. É uma reserva de caça comercial situada no sudeste da Namíbia, de propriedade de brancos, na qual foi instalada uma comunidade nativa nos moldes tradicionais. Os turistas que chegam à Intu Afrika em peruas lotadas são recebidos por cerca de 40 bosquímanos !xóõ.
Hoje de manhã, um bosquímano chamado Alex explica ao público como se monta uma armadilha para avestruz. Sua vestimenta se resume a um manto de camurça sobre a tanga, ao passo que os turistas acumulam malhas sobrepostas para se defender do frio. Os bosquímanos têm talento para imitar animais selvagens, e Alex representa com perfeição a avestruz que se aproxima da isca, fica com a cabeça presa na armadilha, debate-se desesperadamente para libertar-se e por fim consegue, mas à custa da própria degola.
 Na verdade, Alex e seus colegas já não vivem da captura de avestruzes, e sim de salários, gorjetas e venda de suvenires. De tantas em tantas semanas, um guarda-florestal abate um antílope para eles. No dia seguinte junto-me a Klein (“pequeno”, em africâner) David e outros quatro bosquímanos para rastrear gazelas gemsbok. Hilton Holm, o gerente do hotel, nos segue num jipe Land Rover, munido de seu rifle. Enquanto seus companheiros avançam correndo pelas dunas, Klein David conta que a maior parte deles mora no Corredor 17, uma pequena orla de terra junto à fronteira de Botsuana que se tornou uma espécie de área de despejo onde se amontoam os bosquímanos que trabalham nas fazendas dos brancos e dos hereros.
 “Lá não sobrou nenhum animal selvagem”, lamenta Klein David. “Nem mesmo lebre. Havia muita caça quando meu avô era menino. Mas os fazendeiros das vizinhanças cercaram a terra, de modo que estamos enjaulados. Quem entra em propriedade alheia corre o risco de ser preso. A vida que a gente levava se acabou e não tem volta.” E continua: “Meu nome bosquímano é Tchi!xo. Quer dizer ‘desafortunado’. Recebi este nome porque meu pai era ruim de pontaria, sempre errava o alvo. Mas hoje em dia deixamos de usar nossos nomes bosquímanos. Os missionários vieram e nos deram outros nomes, que eles podiam pronunciar com facilidade. Também não estávamos acostumados com sobrenomes, mas agora precisamos tê-los para preencher formulários. Assim, meu sobrenome é Xamseb. Significa ‘leão’ na língua dos cóis. Tchi!xo Xamseb quer dizer Leão Desafortunado”.
 Ao estudar os cerca de 10 mil bosquímanos que realizam trabalhos temporários nas fazendas próximas ao Corredor 17, o antropólogo James Suzman desmentiu a idéia de que esse povo vagava por um imenso território, deslocando-se para regiões mais remotas quando perdia suas terras. Em vez disso, Suzman descobriu que, sempre que possível, os bosquímanos permaneciam nos locais que conheciam bem, áreas que em geral não passavam de 25 a 50 quilômetros quadrados. “Mesmo hoje, empregados ou não, eles permanecem na fazenda de um branco ou de um herero, por pior que seja o tratamento”, acrescenta, “porque esse é seu território original e não têm outro local para ir.”
 Ao contrário do Corredor 17, a Intu Afrika é bem provida de caça, e Holm não demora muito para abater uma gazela gemsbok. Os bosquímanos logo o esquartejam e acondicionam as partes em sacos feitos do próprio intestino do animal. E se besuntam com o sangue “para homenagear o espírito da gazela”, explica Klein David.
 Atravessamos um reluzente depósito de sal para voltar ao local onde os bosquímanos vivem, distante dos olhos curiosos dos turistas da Intu Afrika. Aqui, numa aldeia chamada Twilight, como a fazenda do branco onde se situa, Klein David e os outros habitam um amontoado de casas de alvenaria arruinadas e cercadas de lixo, rodas velhas e bicicletas desmanteladas. “As casas eram boas quando as construímos”, diz Holm. “Mas eles arrebentaram tudo. Não estão acostumados a morar em construção de alvenaria.”
 Após deixar a intu afrika, cruzo a fronteira e entro em Botsuana, onde se encontra a maior população remanescente de bosquímanos, por volta de 47,5 mil indivíduos.
 A maioria sobrevive prestando serviços nas fazendas, mas alguns poucos conseguiram se manter em seu território ancestral, no que é hoje a Reserva de Caça do Kalahari Central. Trata-se de um lugar árido e agourento cujo solo permanece seco durante a maior parte do ano. Em 1961, quando se criou essa reserva de caça – a terceira da África em tamanho –, o funcionário colonial George B. Silberbauer concluiu que ela podia servir a um duplo propósito: proteger tanto a fauna como os bosquímanos locais, desde que estes utilizassem apenas métodos tradicionais de caça. Entretanto, achando que os dois objetivos colidiam cada vez mais, o governo de Botsuana adotou a controversa política de encorajar os bosquímanos a partir. Agora, face a repercussões internacionais adversas, está reconsiderando essa medida.
 Molapo, um dos últimos povoados bosquímanos da Reserva de Caça do Kalahari Central, abriga uma população decrescente de //gana, hoje reduzida a aproximadamente 150 pessoas. Alguns migraram para o assentamento governamental de New Xade, fora da reserva, atraídos pela promessa de escolas, clínicas, água potável e uma indenização de cinco vacas ou 15 cabras para cada indivíduo. Descubro, com surpresa, que não sou o único estrangeiro por aqui. Há mais de dez anos o japonês Kazunobu Ikeya, pesquisador do Museu Nacional de Etnologia de Osaka, vem estudando periodicamente esta comunidade de bosquímanos. Ao chegar, encontro-o filmando um morador local que, de machado em punho, golpeia a que é praticamente a única árvore da região, mais alta que uma pessoa. Todo o resto já foi abatido para servir de lenha.
 “Ele está cortando um pedaço de madeira para fazer uma mbira”, diz Ikeya, focalizando o tronco. Esse instrumento musical consiste em tiras de metal de diversos comprimentos – as teclas – presas a uma base de madeira. O pesquisador aponta para uma velha cicatriz no tronco – evidência, explica, da última mbira extraída dali. Eis um bom exemplo de como os bosquímanos cuidam da preservação natural, mantendo essa árvore viva para usá-la outras vezes. Agora, porém, as vigorosas machadadas estão prestes a derrubar a árvore da música, que, de fato vem abaixo mal Ikeya acaba de falar. Parece que a atual necessidade de lenha é mais urgente que a demanda futura por mbiras.
 Embora more na terra de seus ancestrais, a gente de Molapo não leva mais a vida dos lendários bosquímanos do passado, que tão bem se adaptaram às condições do deserto. Não extrai água de plantas suculentas, e sim de um grande tanque de plástico numa plataforma elevada. Todos os meses um caminhão-pipa do governo chega de Mothomelo para reabastecer o tanque. Essa população também cria cabras e jumentos. Caça a cavalo, com lanças e cães, e não a pé com arco e flecha. E reforça a alimentação com mantimentos enviados pelo governo.
 Na ausência do presidente do grupo Povo Original do Kalahari, uma organização que faz campanha pelos direitos dos bosquímanos sobre a Reserva de Caça do Kalahari Central, Kobou, um velho de rosto enrugado, fala em nome do povoado. Sentado com os outros, usa um espesso gorro de esquiador e coturnos sem cadarço.
 “Vez por outra o governo tenta nos convencer a seguir para New Xade”, diz ele. “Nós nos recusamos, porque nossa terra é aqui, e não queremos o dinheiro.” Kobou esclarece que nunca foram ameaçados, porém admite que teriam de se mudar ou morrer caso as autoridades interrompessem o fornecimento de água. “Poderíamos sobreviver com melões silvestres, raízes e fontes naturais, mas só por uns três meses do ano, na época da chuva.”
 Foi na África do Sul que, ajudados por diversas epidemias, os colonos empreenderam ao longo dos anos o maior extermínio de bosquímanos. Na década de 80, acreditava-se que não restava no país nenhum sobrevivente desse povo. Contudo, após o fim do apartheid, foram localizados, quase por acaso, dispersos em fazendas e acampamentos de posseiros em torno de Rietfontein, cerca de 250 remanescentes do grupo €khomani.
 Roger Chennells, advogado do Sasi, o Instituto Bosquímano Sul-Africano, criado em 1996, está aproveitando ao máximo a nova Constituição sul-africana para reivindicar, em favor dos €khomani, um extenso território da província de Cabo-Norte. A área inclui o antigo Parque Nacional de Gemsbok do Kalahari, hoje incorporado ao Parque Transfronteiriço de Kgalagadi. Fui com ele ao povoado de Welkom, onde muitos €khomani estavam reunidos, a pedido de Chennells, para eleger os líderes da comunidade. Todo o processo, conduzido em africâner, foi bastante animado à medida que Chennells explicava-lhes pacientemente o estranho conceito de votação.
 Petrus Vaalbooi, eleito líder, perguntou à platéia: “Se uma leoa der cria, vocês me ajudam a roubar os filhotes?” Essa foi sua maneira de alertá-los para os graves problemas que os aguardavam.
Poucos meses depois, no início de 2000, o governo sul-africano concedeu-lhes oficialmente um território, ao sul da reserva. Eles ainda enfrentam imensos desafios para desenvolver a região por meio do turismo ou da agricultura, porém essa experiência na África do Sul insuflou novo ânimo à luta de todos os bosquímanos para obter o reconhecimento da comunidade e de seu direito à terra.
 A esse pequeno grupo se resumem os bosquímanos nativos da África do Sul, que todavia abriga, num lugar chamado Schmidtsdrift, a maior – e talvez a mais desoladora – comunidade de bosquímanos do planeta. Mais de 4,3 mil indivíduos originários de Angola e da Namíbia encontram-se isolados ali, a 1 hora de carro de Kimberley, a capital da província de Cabo-Norte. Schmidtsdrift é a própria desolação. Aproximadamente de 1,9 mil barracas militares se enfileiram numa encosta descampada, pedregosa e batida pelo vento. Dois grupos bosquímanos, os !xûs e os khwes, que se detestam mutuamente, partilham a encosta cuidadosamente dividida que se estende até a margem do rio Vaal. Desde 1990, o local abriga, em caráter provisório, um batalhão de bosquímanos do Exército sul-africano. Na verdade, o batalhão foi desmobilizado em 1994, após o fim do apartheid, mas os soldados bosquímanos simplesmente se recusaram a debandar porque não tinham para onde ir.
 E, ironicamente, Schmidtsdrift talvez seja a mais abastada das comunidades de bosquímanos. Muitos ex-soldados continuam recebendo pensão e os habitantes contam com duas escolas – de ensino elementar e médio – e uma clínica equipada e em funcionamento. Porém, o consumo generalizado de álcool e maconha, paliativos contra um mundo que tem massacrado esse povo, indica deslocamento e perda. A seção de bebidas é a primeira que se vê quando se entra no armazém do campo. As marcas são as mais baratas, com o maior teor alcoólico, como Diamond Fields Late Harvest, um vinho branco que nem sequer vem em garrafa, e sim numa embalagem de papel-alumínio.
 Na clínica, o médico do Exército me diz que o alcoolismo afeta até crianças de 12 anos e que há muito a tuberculose é a principal causa de mortes. Os bosquímanos ainda recorrem à medicina tradicional quando adoecem e só em caso de insucesso procuram a clínica – em geral tarde demais. Eles desconfiam muito da medicina ocidental e o médico admite que não consegue transpor essa barreira cultural.
 O lamento de uma sirene anuncia a esperada hora do almoço na escola do campo, e mais de 1,6 mil crianças formam fila para receber uma tigela de sopa grossa e um pedaço de pão. Para muitas essa é a única refeição do dia e o que assegura sua permanência na escola. Quem não assiste às aulas não ganha a sopa.
 Em Schmidtsdrift, o líder do Conselho Tradicional !Xü é o ex-sargento Mario Mahongo, do grupo !Xû. Ele preside a Associação da Propriedade Comunitária !Xû & Khwe, uma organização consultiva que representa os interesses dos !xûs e dos khwes. A associação está planejando a mudança de toda a comunidade para uma fazenda nas redondezas, onde haveria moradias permanentes, construídas pelo governo e por fundações particulares, e mais oportunidades, como a de produzir e vender artesanato tradicional.
 Baixo e de bigode, Mahongo usa óculos escuros com armação de tartaruga, uniforme de camuflagem e coturnos marrons. Um trailer funciona como seu escritório no meio do campo; cartazes inspiradores forram a parede a suas costas. Como muitos homens do campo, ele ingressou na carreira militar por ocasião da guerra de independência de Angola, lutando ao lado dos portugueses.
 “Entre nós e os negros sempre houve muito conflito”, explica. “Eles escravizavam a minha gente. Os portugueses sabiam disso e, quando entraram em choque com os negros, nos procuraram e disseram: ‘Vamos unir forças para atingir um objetivo comum’.”
Depois que os portugueses saíram de Angola, em 1975, a África do Sul recrutou os bosquímanos para combater os guerrilheiros que lutavam pela independência da Namíbia. Quando a história se repetiu e a Namíbia também se tornou independente, os bosquímanos fugiram de novo para a África do Sul, temendo represálias.
 “Gostaríamos de voltar atrás no tempo, para uma época em que não existiam fronteiras nem cercas”, diz Mahongo. “Mas aqui na África do Sul é melhor esquecer isso. Tudo está loteado e cercado. Pelo menos e não. Meu coração está em Angola, mas hoje Angola é um país estrangeiro ára meus filhos. A guerra continua no lugar onde nasci. Grande parte de nossa cultura se perdeu. Como as velhas histórias de nossos países: eles se embrenhavam na mata e, ao voltar, contavam aos outros o que tinham visto. Hoje ninguém mais sai daqui para nada, e, portanto, não temos histórias para contar a nossos filhos. Não temos nada para transmitir a eles. Antigamente fazíamos instrumentos musicais para acompanhar nosso canto. Hoje vamos à cidade, compramos uma fita e ouvimos".
 Batista Salvadore, relações-públicas da associação !Xû & Khwe, leva-me a visitar o campo. Ele é filho de pai português e mãe !Xû. "O governo acha que todos os bosquíanos são iguais e por isso nos pôs juntos.", diz. "Mas aqui vivem duas tribos diferentes mais que os !xus e assediam nossas mulheres. Entre nós há quem ache que eles nem sequer são bosquímanos."
 De fato, os khwes são mais parecidos com os bantos. são mais altos e mais negros e não têm aquela aparência ligeiramente asiática dos !Xûs que combina com o estereótipo ocidental dos bosquímanos.
 Caminho com Salvadore até o rio Vaal. Na outra margem começa outro mundo, um mundo de fazendeiros brancos, terras bem cuidadas, verdejantes campos irrigados de alfafa. Alguns !Xûs se mudatam para a margem do rio e habitam pequenos telheiros. Nadam nus nas águas rasas e pescam bagres com a ajuda de mosquiteiros e tecidos perfurados.
 "Por que vocês saíram do campo principal", pergunto a uma família que nos olha com desconfiança. "A gente detestava o barulho e os bêbados", responde Kanguia Mundinda, uma mulher de meia-idade já encarquilhada. "Precisamos estar sempre mudando; assim é nossa vida".
 Qunado estou deixando Schmidtsdrift, Mahongo vem se despedir de mim. "Tenham pena de nós, pobres bosquímanos", ele me pede. "Pena de nós, que enfrentamos tantos problemas neste mundo. Nós, os bosquímanos, fomos os primeiros habitantes deste lugar. E como é que agora somos os últimos para conseguir qualquer coisa? Quando vêem que somos pacatos, pisam em nós. Precisamos encontrar forças para conquistar nosso lugar neste mundo. Do contrário, não haverá mais nenhum de nós. Vamos acabar desaparecendo todos. Só nossas pinturas hão de ficar, para fazer vocês se lembrarem de nós."
 Mas, assim como o tradicional estilo de vida dos bosquímanos do sul da África se restringe hoje aos museus, o pedido de Mahongo já soa como uma súplica do pasado. Enquanto os remanescentes lutam para se adaptar às mudanças ao seu redor, talvez o máximo que se possa salvar seja o legado de sua memória cultural, sobretudo sua extraordinária intimidade com a natureza.
Peter Godwin

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