sexta-feira, 29 de agosto de 2014

SÍMBOLOS DO BRASIL

O Hino, as armas e brasões, os selos e a bandeira nacional são alguns dos Símbolos oficiais expostos neste livro infantil. Ao explicar suas origens, a autora ressalta a importância e o respeito que os cidadãos devem ter em relação a estes. Além da partitura do Hino Nacional, as letras de alguns hinos também são apresentadas na edição. Tem um didático glossário com as palavras desconhecidas para crianças (e, muitas vezes, também para os adultos) e seus significados.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

NORTE DA ÁFRICA

Muitos nomes são utilizados para se referir à região norte do continente africano: África Branca, África Setentrional, África do norte e Norte d’África. Essa área, oposta à África Negra (nações do sul), é composta pelos seguintes países: Egito, Líbia, Argélia, Tunísia e Marrocos. Porém, além destas nações, a ONU (Organização das Nações Unidas), através de seu Departamento de Estatísticas, ainda inclui o Sudão e o Saara Ocidental como componentes do Norte da África.
norte da africa
 Entre os territórios que formam o Norte da África, todas as nações são membros atuantes da Liga Árabe. Além disso, Mauritânia, Líbia, Argélia, Tunísia e Marrocos fazem parte da União do Magrebe Árabe, que é um tratado de integração e ajuda mútua entre as economias da região.
 Antes de ser considerada África Branca, essa região foi originalmente habitada por africanos de pele negra. De acordo com alguns historiadores, isso pode ser comprovado pela presença da arte rupestre difundida no Saara. Somente as áreas do Baixo Egito  e do Magrebe eram habitadas por africanos brancos. A prova disso é a utilização dos idiomas camito-semíticos para a comunicação desta etnia.
 Após o processo que desertificou o Saara, os negros africanos migraram para a região sul do continente pelas costas ocidental e oriental. Após o período que compreende a Idade Média (entre os séculos V e XV), a região ficou sob controle dos otomanos, com exceção das terras que hoje pertencem ao Marrocos. Ao final do século XIX, França, Reino Unido, Itália e Espanha foram os principais colonizadores da área norte da África, com destaque para as duas primeiras nações.
 Com a dificuldade de travessia no território desértico da África do Norte, o intercâmbio com a África subsariana quase não existiu durante séculos. Naquele período, as transações entre as duas regiões eram somente de caráter comercial, realizadas através do rio Nilo e por meio das costas oriental e ocidental. Este panorama perdurou até o início do processo de expansão do islamismo e dos povos árabes.
 No que se refere à geografia da região, o Norte da África ocupa áreas como a faixa que segue o Mediterrâneo. O clima da localização é úmido e ameno, sendo que a parcela do sul do território pega parte do deserto do Saara. Localizada em parte do Egito, a península do Sinai encontra-se um uma placa tectônica árabe e, por isso, também faz parte do continente asiático. Desta forma, o Egito é categorizado como uma nação transcontinental do Norte da África.
Felipe ARaújo.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

INDÚSTRIAS DE BENS NÃO DURÁVEIS

A indústria de bens não duráveis teve seu surgimento na invenção do tear mecânico e é responsável pela produção de mercadorias de baixo custo unitário e de curta duração de tempo em seu período de disponibilização no mercado e de consumo. Essa indústria depende da proximidade de consumidores, por meio da presença de atacadistas e varejistas que auxiliem no escoamento de seus produtos.
Os bens não duráveis demandam de menor quantidade de energia e de processos industriais em comparação aos bens duráveis e semi duráveis, possuem rapidez para serem produzidos, disponibilizados e consumidos. Atendem a um nível de consumo, muitas vezes, generalizado, de primeira necessidade ou de alta procura.
 Para o bem não durável permanecer no mercado é necessário um alto ritmo de produção e de reposição do mesmo, pois é um tipo de produto de fácil e rápido consumo. A indústria de bens não duráveis costuma reunir o maior número de pequenos e médios investidores, pois é um setor industrial que exige menor volume de investimentos, o que não compromete a presença de grandes investidores mantenedores de linhas de produtos.
 Quando falamos em bens não duráveis sempre nos lembramos de grandes marcas e de grandes fabricantes como a Nestlé, Unilever, Johnson`s & Johnson`s e Coca-Cola Company, que dominam a produção de produtos não duráveis em diferentes países nos setores de alimentos, perfumes, bebidas, e artigos de higiene pessoal.
 Esse setor apresenta a presença de pequenas e médias empresas, mas o predomínio de grandes conglomerados.  Em 2010, no Brasil, segundo estimativa apresentada pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), esse setor calculava um crescimento de 10,6% superior ao registrado em 2009 em seu faturamento, acima da expectativa média de todo o setor industrial, considerando o crescimento do poder de compra da classe média brasileira.
 Porém, além do ritmo de consumo interno, a indústria nacional de bens não duráveis também depende da influência da demanda interna em 20%, considerando que 80% desse mercado é voltado ao mercado interno, fator essencial para o crescimento do setor no país.
Fernando Rebouças

terça-feira, 26 de agosto de 2014

LIMA

Lima é a capital e maior cidade do Peru. Está localizada nos vales dos rios Chillón, Rímac e Lurín, banhada pelo Oceano Pacífico na parte central do país. Junto com a cidade portuária de Callao, forma a Região Metropolitana de Lima. Com uma população de quase nove milhões de habitantes, a área metropolitana de Lima é a quinta maior da América do Sul2 assim como a 5a mais populosa da América Latina.
 Fundada em 18 de janeiro de 1535, como a Cidade dos Reis, passou a ser a capital do Vice-Reino do Peru durante o regime espanhol e depois da independência do país, passou a ser a capital do Peru.
 Segundo o censo de 2007, a Região Metropolitana de Lima tem aproximadamente 8,5 milhões de habitantes — destes, mais de 7,6 milhões são residentes da Província de Lima —, representando aproximadamente 30% da população peruana3 A "Grande Lima" se estende por mais de cem quilômetros ao longo da costa, abrangendo também o porto de Callao, o principal do país, e compõe-se de 43 distritos.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

POR QUE A CHINA OCUPA O TIBET?

Por três motivos principais. Acompanhe:
1. Interesse geográfico
O Tibete faz fronteira com a Índia. A proximidade ajuda a China a ficar de olho no vizinho, que vira-e-mexe ameaça invadir a região.
2. Interesse econômico
"O Tibete é um pedaço de terra rico em recursos naturais, como ouro, zinco, manganês e madeira", afirma Alison Reynolds, diretor da Campanha pelo Tibete Livre.
3. Interesse político
Ao garantir a unidade territorial com mão de ferro, os chineses procuram evitar o colapso que desmembrou a ex-União Soviética, repartida em 14 repúblicas com o fim do socialismo.

De qualquer forma, a China alega ter evidências de que o país lhe pertence desde tempos ancestrais. De fato, a ocupação atual se mantém mais ou menos inalterada desde o século 13, quando o Tibete foi incorporado ao império chinês. Essa situação só foi interrompida em 1912, quando a revolução republicana pôs fim ao império. Na ocasião, os tibetanos aproveitaram a confusão para expulsar os chineses e declararam a independência. Mas a situação piorou em 1959: após vários conflitos, uma rebelião em Lhasa, capital do Tibete, foi reprimida com violência pelo governo comunista chinês, que já havia retomado o território tibetano em 1949. Depois da treta, o dalai-lama, líder religioso e político do Tibete, teve de fugir a pé com seus seguidores pelas montanhas da região. Atualmente, ele está exilado na Índia, de onde luta pela independência de seu país.(Roberto Navarro).


terça-feira, 19 de agosto de 2014

QUANDO A VIDA QUASE ACABOU

Há 250 milhões de anos, no período Permiano, uma devastação misteriosa quase dizimou a vida na Terra
“Bem-vindos ao Triângulo Negro,” anuncia a paleobióloga Cindy Looy quando estacionamos perto de um conjunto de colinas no norte da República Tcheca, a alguns quilômetros da dupla fronteira com a Alemanha e a Polônia. O lugar tem um nome sinistro e logo descubro a razão: ele deriva do carvão queimado pelas usinas termelétricas da região. Décadas de chuva ácida gerada pelas emissões das usinas devastaram a vegetação local, mas, apesar desse passado, os morros sem árvores me pareceram saudáveis. Tento disfarçar minha surpresa.Fazia meses, afinal, que eu estava no encalço da maior catástrofe natural da história da Terra. Há cerca de 250 milhões de anos, no final do período chamado Permiano, uma força misteriosa destruiu 90% das espécies do planeta. Menos de 5% da fauna marinha sobreviveu. Em terra firme, menos de um terço das espécies de grandes animais conseguiu escapar. Quase todas as árvores morreram. Cindy Looy havia me contado que o assustador Triângulo Negro era hoje o lugar ideal para se observar como o mundo teria ficado nessa época remota e calamitosa. Mas o lugar, à primeira vista, em nada se parecia com o apocalipse.Só percebemos os primeiros sinais da devastação quando seguimos para o alto das colinas: os restos de um bosque de abetos, morto pela chuva ácida, com seus troncos caídos e ocultos pela vegetação rasteira. Ninguém ouvia o canto de pássaros ou o zumbido de insetos. Apenas o vento soprava através do mato que resistira ao ácido. “A floresta que existia aqui há poucas décadas era muito rica em espécies. Restaram algumas gramíneas”, lamenta Looy.A pesquisadora apanhou uma pinha de abeto, possível reservatório do pólen das árvores à nossa volta. Ela acredita que a extinção em massa do Permiano foi causada por uma chuva ácida ocorrida depois da liberação de gases vulcânicos. Por isso, quer comparar o pólen fóssil encontrado em rochas permianas com o pólen de uma floresta moderna, também morta por chuva ácida. Tal como um detetive numa cena de homicídio, Looy guardou a pinha num saco plástico para depois examiná-la num laboratório. “Pode-se dizer que estamos trabalhando no maior caso de homicídio de todos os tempos”, ela explica.CindyLooy está entre os muitos cientistas que tentam identificar o “assassino” responsável pela extinção do Permiano. Outra famosa mortandade acabou com o reinado dos dinossauros há 65 milhões de anos, entre os períodos Cretáceo e Terciário. A maioria dos pesquisadores considera esse caso encerrado. As rochas da época contêm traços de um asteróide que atingiu a Terra e produziu eventos catastróficos, de incêndios globais a alterações climáticas. Mas os detetives do Permiano estão diante de uma multidão de suspeitos, sem provas suficientes para condenar qualquer um deles.Para entender a extinção, eu queria, antes de tudo, ter uma idéia de sua escala. Mas isso não é fácil – os sedimentos que contêm fósseis do fim do Permiano são raros e muitas vezes inacessíveis. Um dos poucos sítios arqueológicos onde eles estão preservados fica a cerca de 300 quilômetros da Cidade do Cabo, na África do Sul, numa faixa de cerrado conhecida como Karoo. “À primeira vista, é o tipo do lugar monótono onde as pessoas dormem ao volante”, compara Roger Smith, paleontólogo do Museu Sul-Africano, enquanto rodamos por uma terra sem árvores. “Mas este pode ser o melhor lugar para se observar a transição do período Permiano para o Triássico.”Seguimos até um desfiladeiro chamado Lootsberg. As rochas à nossa volta datam do final do Permiano. Numa hipotética viagem ao passado, teríamos visto tantos e tão diferentes animais como se estivéssemos visitando o Parque Nacional de Serengeti, na Tanzânia. A maior parte deles pertenceria a um grupo conhecido como sinápsidos, répteis exóticos com aparência de mamífero – algo como um híbrido de cachorro e lagarto. Durante mais de 60 milhões de anos, os sinápsidos foram os principais vertebrados terrestres e ocuparam os mesmos nichos ecológicos que seus sucessores, os dinossauros. “Encontramos fósseis de vários tipos de sinápsidos nessas rochas, como os dicinodontes-com-bico-de-tartaruga, que certamente viviam em rebanhos e pastavam a vegetação ribeirinha”, diz Smith. “Havia também muitos herbívoros menores, comedores de raízes, como os diictodontes, de corpo comprido e pernas curtas. Já os gorgonópsidos eram carnívoros velozes e de dentes afiados.”
Smith reduziu a velocidade num trecho sinuoso, abaixou o vidro e apontou para um penhasco marcado com uma estria horizontal. “Vê aquele rochedo na beira da estrada?”, pergunta. “Ele representa a zona de transição entre os períodos Permiano e Triássico. Segure-se. Vamos passar pelo ponto exato da extinção!”
 Os fósseis encontrados no lugar indicam que os sinápsidos sofreram um golpe mortal no final do Permiano. Nos primeiros metros da zona de transição restaram apenas um ou dois fósseis dos animais conhecidos como listrossauros. O crânio de um deles estava no caminhão de Smith – o focinho achatado dava-lhe a aparência de um buldogue com presas. No terreno mais alto, nas rochas do início do Triássico, a diversidade diminui ainda mais.
 A flora também foi atingida pela fúria da extinção. Há indícios de danos às florestas nos Alpes Italianos. Fiz parte de uma equipe de pesquisas dirigida por Henk Visscher, da Universidade de Utrecht, no despenhadeiro de Butterloch, onde jazidas de fósseis expostos cobrem a transição do Permiano ao Triássico. As jazidas ficam no alto de um penhasco, acessíveis apenas por uma escalada em montes de cascalho. Segui Mark Sephton, um alpinista veterano, por uma encosta de pedras soltas até chegar a uma saliência na rocha. Sephton usava o martelo para extrair fragmentos rochosos, cada qual contendo fósseis microscópicos – pedaços de plantas e de fungos. As camadas inferiores de fragmentos, anteriores à extinção, preservaram bastante pólen, sinal de ali havia uma floresta de coníferas saudável. Nas rochas do trecho de transição, porém, o pólen é substituído por fiapos de fungos fossilizados.
 Esses resquícios podem representar a explosão populacional de um tipo de fungo primitivo e faminto, que se banqueteava de árvores putrefatas. “Ele devia alimentar-se de madeira”, analisa Looy, que trabalha com Visscher. “Ao morrer, a árvore caía. A partir de esporos no solo, os fungos então cresciam sobre ela. E decompunham-na completamente.” Visscher e seus colegas encontraram uma elevada ocorrência de resquícios de fungos em rochas do Permo-Triássico. Como as mesmas rochas apresentam poucos grãos de pólens de árvores, a conclusão de Visscher é de que quase todas as árvores do mundo morreram de uma só vez.
 Na volta de butterloch, um membro da equipe passou-me uma banana mole e escura que sobrara do almoço. “É assim que você pode imaginar a extinção permiana. Biomassa apodrecendo”, compara ele. “Não é fácil eliminar tantas espécies. Foi um evento realmente devastador”, completa Doug Erwin, paleontólogo do Instituto Smithsoniano. Erwin e o geólogo Samuel Bowring, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, detectaram cinzas vulcânicas em sedimentos chineses acumulados durante o fim do Permiano. Para Bowring, a extinção durou apenas 100 mil anos – na escala geológica de tempo, mais rápida que o clique de uma câmera fotográfica.
 Gregory Retallack, geólogo da Universidade de Oregon, acredita que o principal suspeito da mortandade tenha sido o impacto de um enorme asteróide. Segundo ele, tal colisão teria lançado bilhões de partículas na atmosfera. E elas teriam se difundido por todo o planeta antes de se precipitar sobre a terra e o oceano. Na Austrália e na Antártida, Retallack encontrou, em rochas da época da extinção, minúsculos cristais de quartzo marcados com fraturas microscópicas. “É preciso uma força várias vezes maior que a de uma explosão nuclear para criar esse quartzo fraturado”, avalia Retallack. “Só um impacto descomunal poderia tê-lo deformado dessa maneira.” Recentemente uma equipe de pesquisadores descobriu, na Austrália, algo que poderia ser a marca daquele impacto: uma cratera de mais de 120 quilômetros de largura, causada por um asteróide com mais de 5 quilômetros de diâmetro.

Perguntei a Retallack como eu sentiria o impacto se estivesse a centenas de quilômetros do local. “Haveria um tremor”, replica ele. “Depois, nuvens de gases venenosos bloqueariam o sol durante meses. As temperaturas baixariam, neve e chuva ácidas cairiam do céu. Quando as nuvens se dispersassem, a atmosfera acabaria ficando espessa por causa do dióxido de carbono resultante de incêndios e de matéria em decomposição. O CO2 é um gás causador do efeito estufa, que teria contribuído para um aquecimento global que duraria milhões de anos.” Apenas os efeitos de curto prazo – frio, escuridão e chuva ácida – seriam suficientes para matar as plantas e o plâncton, que fazem fotossíntese e são a base da maior parte das cadeias alimentares. Os animais herbívoros morreriam de fome. E depois os carnívoros, que se alimentam dos herbívoros.
 Outros pesquisadores suspeitam que a causa da morte tenha vindo dos mares. Os cientistas há muito sabiam que, no final do Permiano, não havia oxigênio nas profundezas oceânicas. A maior parte da vida marinha concentrava-se em águas rasas – nos recifes, por exemplo. Mas, em 1996, os geólogos ingleses Paul Wignall e Richard Twitchett, da Universidade de Leeds, anunciaram a descoberta dos primeiros indícios de esgotamento do oxigênio, ou anoxia, em rochas de águas rasas da época da extinção.
Hoje, em lugares onde não há boa circulação de correntes, a poluição dos mares provoca o mesmo problema de anoxia. Wignall, porém, suspeita que o oceano inteiro tenha se tornado estéril no fim do Permiano. A inexistência de uma calota de gelo pode ter estacionado as correntes que oxigenam o oceano. Em geral, são as diferenças de temperatura entre as águas polares e equatoriais que criam as chamadas correntes de convecção. Sem elas, pode ter havido um acúmulo de águas sem oxigênio, que vazaram para as águas rasas quando o nível do mar subiu. E assim sufocaram a vida marinha.
 Os oceanos permianos também podem ter sido envenenados com CO2. É o que pensa Andrew Knoll, um paleobiólogo de Harvard. As bactérias oceânicas alimentam-se de matéria orgânica e produzem bicarbonato como subproduto de sua digestão. Sem as correntes marinhas, o nível de bicarbonato teria aumentado nas profundezas do oceano. Knoll acha que algum fenônemo poderoso perturbou os mares. A água do fundo veio à superfície e, nesse processo, foi despressurizada. O bicarbonato dissolvido foi liberado sob a forma de CO2, fazendo o oceano efervecer como um copo de sal de frutas. Quando níveis tóxicos de CO2 chegaram aos baixios, os peixes tornaram-se letárgicos e, aos poucos, caíram no sono. “Talvez o Permiano tenha terminado com um suspiro, em vez de um estrondo”, resume Knoll.

Outros suspeitos da mortandade são os vulcões. Uma temporada de erupções mortíferas pode ter deixado uma impressão digital de 2,5 milhões de quilômetros quadrados na Sibéria. Coberto por coníferas, parte de um monte de lava com 4 quilômetros de espessura foi detectado abaixo da cidade de Norilsk. Os geólogos chamam esse vasto campo de lava de Armadilhas Siberianas. “Rios de espesso magma escorreram de numerosos vulcões”, diz o geólogo Paul Renne, do Centro de Geocronologia de Berkeley. “Centenas de quilômetros cúbicos de magma espalharam-se pela Sibéria o bastante para cobrir a Terra com uma camada de cerca de 6 metros de espessura.”
 Há décadas os cientistas sabem que as Armadilhas Siberianas foram formadas no fim do Permiano. Com isso, vigora a hipótese de que a extinção possa ter relação com a série de erupções vulcânicas. Renne, especialista na determinação da idade das rochas, vem tentando calcular com precisão a época desses dois eventos. Seu laboratório está repleto de aparelhos que indicam a idade das rochas por meio do decaimento de isótopos radiativos no interior delas. Ele obteve pedaços de lava das Armadilhas Siberianas e rochas da transição permo-triássica vindas da China. Com isso, pode determinar que os dois eventos ocorreram com um intervalo de 100 mil anos – e duvida que isso seja apenas uma mera coincidência.
 Mas os vulcões das Armadilhas Siberianas não provocaram a extinção cobrindo o mundo com lava. À medida que eram liberados na atmosfera, os gases vulcânicos teriam gerado chuvas ácidas. Moléculas de sulfatos teriam bloqueado a luz do sol e esfriado o planeta. A glaciação teria reduzido o volume de água no oceano, congelando-a. O nível do mar baixou, matando a vida marinha nas águas rasas e reduzindo drasticamente sua diversidade. A queda no nível do mar pode também ter liberado metano, que, associado ao CO2 das erupções e da matéria orgânica em decomposição, teria provavelmente produzido condições de estufa. “Em 1783 um vulcão chamado Laki entrou em erupção na Islândia”, conta Renne. “Em um ano a temperatura global caiu quase 1 grau. Imagine um Laki cuspindo lava todos os anos, durante centenas de milhares de anos.”
 Doug Erwin, do Instituto Smithsoniano, compara a extinção no Permiano ao livro Assassinato no Expresso Oriente, de Agatha Christie, no qual um corpo é descoberto num trem com 12 golpes de faca – 12 assassinos diferentes conspiraram para matar a vítima. Erwin suspeita de vários assassinos. Pois talvez tudo – erupções, um impacto de asteróide, a falta de oxigênio na água – tenha ocorrido ao mesmo tempo. “Tudo isso poderia acontecer de novo. A questão é quando. Amanhã? Daqui a 100 milhões de anos?”, completa Erwin.
 Perambulei pelo Instituto Smithsoniano até chegar a uma estante com crânios de sinápsidos do Permiano. O lugar não é muito visitado. Os listrossauros, que herdaram o mundo estéril do Triássico, fitam o vazio da sala com seus olhos vazados. A situação lembra o tempo em que eles foram soberanos. Sozinhos, sem ter com quem competir, espalharam-se por todo o planeta, da Rússia à Antártida.
 A morte cria oportunidades. Os sobreviventes ocupam nichos vagos. Foi preciso, por exemplo, 1 milhão de anos para os sinápsidos se diversificarem. Uma de suas linhagens produziu nossos ancestrais, os primeiros mamíferos. Hoje estamos criando uma nova extinção em massa, exterminando espécies sem conta. Será que, agora, a vida será capaz de se recuperar? Lembrei-me das plantas resistentes ao ácido no Triângulo Negro, na República Tcheca. É um acontecimento menor. Pois, se a vida pôde sobreviver à extinção do Permiano, pode então resistir a qualquer desastre futuro.
Hillel J. Hoffmann (National Geografhic, agosto de 2011).

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A TRISTE SINA DO POVO BOSQUÍMANO

O povo bosquímano, depois de perder o seu terrítório tenta resistir às transformações culturais, mesmo à beira da extinção.
Nascido em meio à pobreza, a roupa do corpo é praticamente tudo o que este pastor acumulou trabalhando numa fazenda da Namíbia. Reduzidos à servidão na terra que pertenceu a seus ancestrais, os 85 mil bosquímanos nativos do sul da África tentam recuperar sua posição e seu orgulho.
Um bosquímano besunta as pernas com sangue de antílope num ritual presenciado pelos visitantes da Intu Afrika, uma reserva de caça comercial na Namíbia. Muitos tentam sobreviver do turismo. “A mitologia é um de seus poucos trunfos”, diz o antropólogo James Suzman.Tenhamos pena dos primeiros habitantes do sul da África. Pena do povo sem nome, pois quem é único não precisa distinguir-se dos outros. Pena dessa gente cujo domínio exclusivo chegou a se estender do Zambeze ao cabo da Boa Esperança, do Atlântico ao Índico. Os tsuanas – seus vizinhos no Kalahari, aonde chegaram há 1,2 mil anos – os chamam de basarwa, “os que nada possuem”. Para os cóis, seus primos pastores, eles são os san, “forasteiros ou vagabundos”. Esse povo tem um passado antigo, mas quase nenhum registro histórico – a não ser por uma gloriosa exceção: figuras de antílopes e elefantes, de dançarinos e caçadores pintadas na pedra, algumas surpreendentemente vívidas mesmo tendo ficado expostas à chuva e ao sol durante três milênios. As pinturas mais recentes mostram navios e cavaleiros. Depois nada mais.Os colonos europeus que aportaram no sul da África há 350 anos os chamaram simplesmente debushmen, “homens da mata” ou bosquímanos, em português. Considerando-os “indomáveis” e uma ameaça para o gado, foram tratados como seres desprezíveis e exterminados em grande número. Em um estudo antropológico realizado no século 19, J.C. Prichard resumiu a dramática situação dessa gente: “Em nenhuma outra parte do mundo encontra-se a natureza humana em situação de tanto desamparo e tanta miséria”.Anunciados como “os anões primitivos da África”, grupos de bosquímanos eram exibidos pela Inglaterra nas feiras de monstruosidades que eram comuns na época vitoriana. Para os primeiros antropólogos, eles não passavam de “fósseis vivos”, o elo perdido da evolução, ou seja, nem chegavam a ser propriamente humanos. Para alguns estudiosos, as extraordinárias línguas dos bosquímanos, com seus estalidos tonais, assemelhavam-se não à linguagem humana, e sim às vozes dos animais, “ao cacarejar das galinhas e ao grugulejar dos perus”.Logo os bosquímanos foram marginalizados, lançados ao patamar mais baixo do brutal sistema de castas vigente no sul da África. Muitos foram escravizados na prática pelos bantos pastoris; outros trabalhavam por um prato de comida nas fazendas dos brancos.Hoje restam perto de 85 mil bosquímanos, à beira da extinção cultural. A maioria vive nas regiões mais remotas do deserto de Kalahari, em Botsuana, Namíbia, Angola, África do Sul, Zimbábue e Zâmbia. Estão entre os povos aborígines mais estudados do planeta. Tanto interesse deve-se à idéia de que constituem um de nossos derradeiros vínculos com uma existência baseada na caça e na coleta, um estilo de vida universal até cerca de 10 mil anos atrás, quando o homem ainda não havia domesticado animais nem aprendido a cultivar a terra. Numa época em que a sobrevivência humana dependia diretamente da natureza.Já faz algum tempo que os bosquímanos perderam seu esplêndido isolamento de caçadores e coletores. Para alguns antropólogos, a transformação final dos bosquímanos do Kalahari acompanhou a difusão de poços d’água na década de 50. Uma das principais vantagens desse povo era sua capacidade de sobreviver em regiões áridas, sem água na superfície. Graças à destreza para localizar melões e tubérculos suculentos e também ao sistema de enterrar ovos de avestruz repletos de água e devidamente lacrados na estação das chuvas para recuperá-los durante as secas, eles conseguiram sobreviver em áreas consideradas inabitáveis por outros povos. Agora esse talento deixou de ter utilidade. Os poços permitiram que a região fosse ocupada pelos cóis e pelos bantos pastoris e os bosquímanos acabaram sendo desalojados.
 Dos cerca de 25 grupos remanescentes, o mais próximo da chamada sociedade bosquímana autêntica encontra-se no distrito de Nyae Nyae, no nordeste da Namíbia. Seus membros são os ícones dos conservacionistas, vivendo em perfeita harmonia com a natureza e romantizados no filme Os Deuses Devem Estar Loucos. Esses bosquímanos são conhecidos como os ju/’hoansi, “o verdadeiro povo”, e contam com cerca de 1,6 mil indivíduos. A barra depois de “ju” é um dos quatro sinais (/, //, ! e € ) usados para indicar os distintos estalidos das línguas bosquímanas.
 Nyae Nyae fica numa região plana e árida, na fronteira com Botsuana. Servia de “pátria” no estilo do apartheid quando a Namíbia ainda era província da África do Sul. Oito anos depois de sua independência da Namíbia, em 1990, Nyae Nyae passou a ser uma reserva, administrada por um conselho eleito de bosquímanos. Os ju/’hoansis têm sorte de habitar a terra de seus ancestrais ou pelo menos parte dela.
 Uma das cerca de três dezenas de aldeias em Nyae Nyae, Den/ui está localizada no fim de uma estrada de terra irregular em meio ao bushveld, a vegetação rala do Kalahari. As cabanas de palha hoje habitadas pelos bosquímanos pouco se distinguem daquelas erguidas por seus ancestrais para servir de abrigo provisório numa época de existência nômade, quando os grupos familiares estavam sempre se deslocando em busca de caça e coleta. Hoje, porém, a aldeia é permanente, possui uma escola primária de fibra de vidro e um poço artesiano de água fresca.
 Acampamos numa clareira próxima à aldeia e naquela noite fiquei ouvindo os sons de peitos cheios de catarro, a tosse seca dos tuberculosos, o choro inconstante dos bebês competindo com os uivos dos chacais em ronda. É inverno no Kalahari e, quando os galos começam a cantar, o frio penetra nos ossos. Ao sair da barraca, vejo o “coração da manhã” – assim os bosquímanos chamam Júpiter – brilhando no horizonte. A água em minha caneca está congelada.
 Ao entrar na aldeia, encontramos as famílias amontoadas em torno de pequenas fogueiras. Algumas crianças estão de peito nu e os adultos têm, quando muito, um cobertor puído sobre os ombros ossudos e as costelas salientes. Estão tomando seu parco café da manhã: frutos silvestres e chá aguado.
 Sentado num tronco, N!amce, um dos líderes de Den/ui, dedica-se à preparação de flechas. Primeiro aquece e rola o caniço amarelo nas cinzas da fogueira, a fim de obter a forma desejada. Depois besunta a ponta da haste com o betume de uma velha bateria de carro, aquece de novo a flecha e nela enrola um fio feito com tendão de antílope kudu (Tragelaphus strepsiceros). Em seguida, faz um entalhe numa das extremidades, o encaixe da flecha na corda do arco. Na outra ponta insere uma lasca de osso de girafa, que liga a uma pequena cana, na qual fixa a ponta da flecha, um pedaço de arame moldado em forma de triângulo. Por fim, reveste com cuidado os 10 centímetros de arame anteriores à ponta da flecha com o veneno cuidadosamente armazenado num chifre de antílope steenbok (Raphicerus campestris).
 O veneno dos bosquímanos é famoso. Alguns caçadores empregam uma mistura de peçonha de cobra e sumo de cacto; outros preferem essência de escorpião e aranha-armadeira. Aqui, no norte do Kalahari, utilizam o mais letal de todos: as larvas de duas espécies de besouro, Diamphidia e Polyclada, misturadas com resina de árvore. O veneno penetra na corrente sanguínea e provoca paralisia, levando à morte. Atingido por uma boa flechada, um antílope pequeno demora cerca de 24 horas para morrer; um animal grande agoniza por vários dias. E ainda não se conhece nenhum antídoto confiável.
Eram as flechas envenenadas dos bosquímanos que infundiam tanto terror nos primeiros colonos. No início do século 19, o missionário John Campbell descreveu o que aconteceu com um companheiro atingido no ombro por uma dessas flechas: “Seu aspecto nos assustou, estando ele muito inchado, sobretudo na cabeça e no pescoço. Ele contou que sentia o veneno descendo pouco a pouco até os dedos dos pés e depois subindo da mesma forma. Seu semblante era medonho, desfigurado pelo inchaço”. O homem morreu na noite seguinte.
 N!amce faz uma pausa para fumar. Ele soca um filtro de cortiça fibrosa na extremidade de seu cachimbo de metal, pega um punhado de excremento de hírace, um pequeno mamífero hiracóideo, e coloca-o no cachimbo. Então aspira a fumaça acre, exala com satisfação e passa o cachimbo para N€aisa, uma velha com a testa adornada por uma fieira de contas, das quais pende um triângulo de metal que fica balançando sob seu nariz. Ela usa também um clipe de papel na orelha, à guisa de brinco.
 Carregando flechas envenenadas, um grupo de homens sai para caçar. Seguem depressa, olhando para o chão só de vez em quando, quase sem alterar o ritmo da caminhada, para localizar rastros. Meu intérprete bosquímano, /Ai!ae/Aice, me explica como lêem o solo: “Do mesmo jeito como vocês lêem um livro. A mata é nosso livro”. Eles conseguem determinar a idade e o sexo dos animais pelas marcas que deixam. Um jovem caçador se agacha e examina os excrementos de um antílope hartebeest: quanto mais material fibroso, menos eficiente é a digestão e mais velho o animal. Em geral, uma gazela springbok macho é a última do bando, me informa /Ai!ae/Aice; e um órix gemsbok macho dá cabeçadas no tronco das árvores para delimitar seu território.
 Os bosquímanos calculam o momento em que um rastro foi produzido em função do tempo que os cupins levam para reconstruir um ninho pisoteado, ou que uma haste de capim leva para retomar sua posição habitual ou, ainda, pelo tempo que uma aranha necessita para reparar sua teia. E, quando atingem o animal com uma flecha, não correm de imediato em seu encalço. Em vez disso, seguem até o lugar onde o acertaram e memorizam o tipo de rastro que ele deixa. Só então passam a segui-lo pacientemente, até ele tombar morto.
 Graças a essa habilidade como rastreadores, mais do que a qualquer outro talento, ao longo dos anos militares, caçadores e fazendeiros os têm procurado para perseguir guerrilheiros, animais e caçadores ilegais.
 Hoje os caçadores voltam de mãos vazias. A caça foi exterminada em Nyae Nyae. Em 1877, em um único dia, o caçador africânder Hendrik van Zyl e sua eficiente tropa de “atiradores” bosquímanos abateram aqui mais de 100 elefantes. Os pastores hereros, de língua banto, e os fazendeiros brancos eliminavam os antílopes, pois estes disputavam as pastagens com o gado. Atualmente, a caça ocupa lugar modesto na dieta dos bosquímanos. Ela varia muito de acordo com as circunstâncias, mas, segundo recente levantamento feito numa aldeia de Nyae Nyae, respondia por menos de 20% do consumo semanal. Os alimentos não perecíveis distribuídos pelo governo em épocas de seca representam cerca de 40%, e outros 35% são adquiridos com dinheiro de aposentadorias, venda de artesanato e salários. O restante provém de hortas e coleta.
 Alguns dias depois, com o sol aquecendo a manhã gelada, junto-me a um grupo de mulheres da aldeia que vai coletar nozes de mongongo, um fruto do tamanho da avelã e rico em proteínas. Envoltas em mantos de pele de antílope hartebeest bordados com círculos de contas e carregando os filhos nas costas, as mulheres partem mata adentro. Algumas usam sandálias toscas feitas de pneu, mas a maioria está descalça. Muitas exibem no rosto intrincadas tatuagens, pequenos traços azuis paralelos irradiando de cada olho. Elas atravessam o mar de capim. Logo estão vasculhando as folhagens e cutucando o chão com varetas. N€aisa discorre sobre o uso dos vários espécimes da flora e da fauna que vai recolhendo numa sacola de estopa. A raiz de uma árvore é boa para quem tosse sangue. Outra cura febre ou gripe. “E esta é a planta da sorte”, diz ela, arrancando uma erva. “Basta queimá-la e pôr a cinza no rosto para que todos os homens se apaixonem pela gente.”
 Os besouros da acácia tampouco escapam: depois de terem as patas arrancadas, também vão para a sacola. N€aisa pega a minúscula carapaça sarapintada de um jabuti que traz presa ao cinto de contas, retira a rolha que a fecha, despeja um pouco de rapé na mão calejada e o aspira.
Por fim chegamos ao bosque de mongongo. Uma pequena manada de elefantes passou por aqui há pouco, pulverizando as árvores com a violência de um tornado. Mesmo assim, quando tomam o caminho de volta, quase 8 horas depois, as mulheres levam as sacolas cheias. Elas ajeitam as crianças nas costas e, afastando-se do sol poente, partem na direção dos finos penachos de fumaça que se elevam da aldeia.
 Uma vez em casa, arrancam as asas dos besouros e os tostam na brasa por alguns segundos. Oferecem-me um punhado deles. Levo um à boca e mordo, apreensivo. Os fluidos internos do besouro inundam-me a língua e trato de engolir o mais rápido possível.
 À noite os bosquímanos da aldeia costumam dançar em torno do fogo e, às vezes, essa dança evolui para um estado de transe, um dos principais elementos de sua espiritualidade. Ao longo dos anos, os missionários converteram alguns bosquímanos ao cristianismo, mas não os de Den/ui. “Aqui somos tradicionalistas”, explica o líder da aldeia. “Podemos falar com quem os cristãos falam. O Deus é o mesmo; só o que muda é a maneira de se comunicar com Ele.”
 Sentadas ao redor da fogueira, as mulheres e as crianças batem palmas enquanto os homens dançam em volta das chamas, batendo os pés no chão poeirento, as coxas vibrando sob as perneiras de couro. Pouco a pouco, vai crescendo o ritmo das palmas e da cantilena sem palavras. A cerimônia, chamada “dança da girafa”, é conduzida pelo xamã local, um velho com uma tiara de contas e pena de avestruz na cabeca e uma bolsa de couro ocre sobre a virilha. Enquanto circunda a fogueira, ele acaba caindo em transe. Os bosquímanos acreditam que, nesse estado de consciência alterado, é possível curar enfermidades e entrar em contato com os mortos ou com parentes ausentes.
 A mãe de uma menina doente pede ao xamã que descubra a causa do mal. O xamã segura a mulher pelos ombros e pressiona a própria testa contra a dela para extrair seus pensamentos. Outros aldeões esfregam san, um perfume feito com raízes da planta Hemizygia bracteosa, no corpo do xamã e também lançam ao fogo punhados que explodem numa chuva de estrelinhas.
 De repente, o xamã afasta-se do tremeluzente círculo de fogo e, apesar de sua provável idade avançada, trepa numa árvore próxima onde, encarapitado num galho, põe-se a cacarejar e a rugir para a multidão. Minutos depois, salta para o chão, o rosto cortado e sangrando por causa dos espinhos da árvore. Então retoma a dança, num ritmo frenético, ao mesmo tempo que lança gritos para o frio e impassível firmamento.
 “O problema todo começou com a gazela”, anuncia o xamã, falando em nome de um ancestral falecido. “A que foi achada morta perto da aldeia. Vocês comeram a carne, mas jogaram fora as tripas, o bucho e os cascos. Foi um desperdício. O espírito se zangou e por isso vai matar a menina. É preciso comer tudo, tudo!” Em geral os transes aliviam as tensões e reforçam a solidariedade, mas essa advertência relativa ao desperdício é incomum – raramente os espíritos pregam moral. O xamã garante ao espírito irado que tal erro não se repetirá. E com isso desaba na fria poeira vermelha, seus membros tremendo de maneira incontrolável. O líder e outros aldeões o afagam até cessarem os tremores.
 A cultura dos bosquímanos tem suscitado grande interesse não só no campo da antropologia, mas também no do etnoturismo, que, segundo alguns, poderia constituir a melhor maneira de preservar resquícios de sua tradição cultural. Organizações como a Wimsa, o Grupo de Trabalho das Minorias Indígenas no Sul da África, vêm tentando negociar acordos entre os bosquímanos e os operadores de turismo de modo a evitar que os nativos sejam explorados como no passado. No entanto, empreendimentos como a Intu Afrika reduzem as chances de os bosquímanos preservarem seus costumes, ainda que mantenham vivo o orgulho da sua herança cultural. É uma reserva de caça comercial situada no sudeste da Namíbia, de propriedade de brancos, na qual foi instalada uma comunidade nativa nos moldes tradicionais. Os turistas que chegam à Intu Afrika em peruas lotadas são recebidos por cerca de 40 bosquímanos !xóõ.
Hoje de manhã, um bosquímano chamado Alex explica ao público como se monta uma armadilha para avestruz. Sua vestimenta se resume a um manto de camurça sobre a tanga, ao passo que os turistas acumulam malhas sobrepostas para se defender do frio. Os bosquímanos têm talento para imitar animais selvagens, e Alex representa com perfeição a avestruz que se aproxima da isca, fica com a cabeça presa na armadilha, debate-se desesperadamente para libertar-se e por fim consegue, mas à custa da própria degola.
 Na verdade, Alex e seus colegas já não vivem da captura de avestruzes, e sim de salários, gorjetas e venda de suvenires. De tantas em tantas semanas, um guarda-florestal abate um antílope para eles. No dia seguinte junto-me a Klein (“pequeno”, em africâner) David e outros quatro bosquímanos para rastrear gazelas gemsbok. Hilton Holm, o gerente do hotel, nos segue num jipe Land Rover, munido de seu rifle. Enquanto seus companheiros avançam correndo pelas dunas, Klein David conta que a maior parte deles mora no Corredor 17, uma pequena orla de terra junto à fronteira de Botsuana que se tornou uma espécie de área de despejo onde se amontoam os bosquímanos que trabalham nas fazendas dos brancos e dos hereros.
 “Lá não sobrou nenhum animal selvagem”, lamenta Klein David. “Nem mesmo lebre. Havia muita caça quando meu avô era menino. Mas os fazendeiros das vizinhanças cercaram a terra, de modo que estamos enjaulados. Quem entra em propriedade alheia corre o risco de ser preso. A vida que a gente levava se acabou e não tem volta.” E continua: “Meu nome bosquímano é Tchi!xo. Quer dizer ‘desafortunado’. Recebi este nome porque meu pai era ruim de pontaria, sempre errava o alvo. Mas hoje em dia deixamos de usar nossos nomes bosquímanos. Os missionários vieram e nos deram outros nomes, que eles podiam pronunciar com facilidade. Também não estávamos acostumados com sobrenomes, mas agora precisamos tê-los para preencher formulários. Assim, meu sobrenome é Xamseb. Significa ‘leão’ na língua dos cóis. Tchi!xo Xamseb quer dizer Leão Desafortunado”.
 Ao estudar os cerca de 10 mil bosquímanos que realizam trabalhos temporários nas fazendas próximas ao Corredor 17, o antropólogo James Suzman desmentiu a idéia de que esse povo vagava por um imenso território, deslocando-se para regiões mais remotas quando perdia suas terras. Em vez disso, Suzman descobriu que, sempre que possível, os bosquímanos permaneciam nos locais que conheciam bem, áreas que em geral não passavam de 25 a 50 quilômetros quadrados. “Mesmo hoje, empregados ou não, eles permanecem na fazenda de um branco ou de um herero, por pior que seja o tratamento”, acrescenta, “porque esse é seu território original e não têm outro local para ir.”
 Ao contrário do Corredor 17, a Intu Afrika é bem provida de caça, e Holm não demora muito para abater uma gazela gemsbok. Os bosquímanos logo o esquartejam e acondicionam as partes em sacos feitos do próprio intestino do animal. E se besuntam com o sangue “para homenagear o espírito da gazela”, explica Klein David.
 Atravessamos um reluzente depósito de sal para voltar ao local onde os bosquímanos vivem, distante dos olhos curiosos dos turistas da Intu Afrika. Aqui, numa aldeia chamada Twilight, como a fazenda do branco onde se situa, Klein David e os outros habitam um amontoado de casas de alvenaria arruinadas e cercadas de lixo, rodas velhas e bicicletas desmanteladas. “As casas eram boas quando as construímos”, diz Holm. “Mas eles arrebentaram tudo. Não estão acostumados a morar em construção de alvenaria.”
 Após deixar a intu afrika, cruzo a fronteira e entro em Botsuana, onde se encontra a maior população remanescente de bosquímanos, por volta de 47,5 mil indivíduos.
 A maioria sobrevive prestando serviços nas fazendas, mas alguns poucos conseguiram se manter em seu território ancestral, no que é hoje a Reserva de Caça do Kalahari Central. Trata-se de um lugar árido e agourento cujo solo permanece seco durante a maior parte do ano. Em 1961, quando se criou essa reserva de caça – a terceira da África em tamanho –, o funcionário colonial George B. Silberbauer concluiu que ela podia servir a um duplo propósito: proteger tanto a fauna como os bosquímanos locais, desde que estes utilizassem apenas métodos tradicionais de caça. Entretanto, achando que os dois objetivos colidiam cada vez mais, o governo de Botsuana adotou a controversa política de encorajar os bosquímanos a partir. Agora, face a repercussões internacionais adversas, está reconsiderando essa medida.
 Molapo, um dos últimos povoados bosquímanos da Reserva de Caça do Kalahari Central, abriga uma população decrescente de //gana, hoje reduzida a aproximadamente 150 pessoas. Alguns migraram para o assentamento governamental de New Xade, fora da reserva, atraídos pela promessa de escolas, clínicas, água potável e uma indenização de cinco vacas ou 15 cabras para cada indivíduo. Descubro, com surpresa, que não sou o único estrangeiro por aqui. Há mais de dez anos o japonês Kazunobu Ikeya, pesquisador do Museu Nacional de Etnologia de Osaka, vem estudando periodicamente esta comunidade de bosquímanos. Ao chegar, encontro-o filmando um morador local que, de machado em punho, golpeia a que é praticamente a única árvore da região, mais alta que uma pessoa. Todo o resto já foi abatido para servir de lenha.
 “Ele está cortando um pedaço de madeira para fazer uma mbira”, diz Ikeya, focalizando o tronco. Esse instrumento musical consiste em tiras de metal de diversos comprimentos – as teclas – presas a uma base de madeira. O pesquisador aponta para uma velha cicatriz no tronco – evidência, explica, da última mbira extraída dali. Eis um bom exemplo de como os bosquímanos cuidam da preservação natural, mantendo essa árvore viva para usá-la outras vezes. Agora, porém, as vigorosas machadadas estão prestes a derrubar a árvore da música, que, de fato vem abaixo mal Ikeya acaba de falar. Parece que a atual necessidade de lenha é mais urgente que a demanda futura por mbiras.
 Embora more na terra de seus ancestrais, a gente de Molapo não leva mais a vida dos lendários bosquímanos do passado, que tão bem se adaptaram às condições do deserto. Não extrai água de plantas suculentas, e sim de um grande tanque de plástico numa plataforma elevada. Todos os meses um caminhão-pipa do governo chega de Mothomelo para reabastecer o tanque. Essa população também cria cabras e jumentos. Caça a cavalo, com lanças e cães, e não a pé com arco e flecha. E reforça a alimentação com mantimentos enviados pelo governo.
 Na ausência do presidente do grupo Povo Original do Kalahari, uma organização que faz campanha pelos direitos dos bosquímanos sobre a Reserva de Caça do Kalahari Central, Kobou, um velho de rosto enrugado, fala em nome do povoado. Sentado com os outros, usa um espesso gorro de esquiador e coturnos sem cadarço.
 “Vez por outra o governo tenta nos convencer a seguir para New Xade”, diz ele. “Nós nos recusamos, porque nossa terra é aqui, e não queremos o dinheiro.” Kobou esclarece que nunca foram ameaçados, porém admite que teriam de se mudar ou morrer caso as autoridades interrompessem o fornecimento de água. “Poderíamos sobreviver com melões silvestres, raízes e fontes naturais, mas só por uns três meses do ano, na época da chuva.”
 Foi na África do Sul que, ajudados por diversas epidemias, os colonos empreenderam ao longo dos anos o maior extermínio de bosquímanos. Na década de 80, acreditava-se que não restava no país nenhum sobrevivente desse povo. Contudo, após o fim do apartheid, foram localizados, quase por acaso, dispersos em fazendas e acampamentos de posseiros em torno de Rietfontein, cerca de 250 remanescentes do grupo €khomani.
 Roger Chennells, advogado do Sasi, o Instituto Bosquímano Sul-Africano, criado em 1996, está aproveitando ao máximo a nova Constituição sul-africana para reivindicar, em favor dos €khomani, um extenso território da província de Cabo-Norte. A área inclui o antigo Parque Nacional de Gemsbok do Kalahari, hoje incorporado ao Parque Transfronteiriço de Kgalagadi. Fui com ele ao povoado de Welkom, onde muitos €khomani estavam reunidos, a pedido de Chennells, para eleger os líderes da comunidade. Todo o processo, conduzido em africâner, foi bastante animado à medida que Chennells explicava-lhes pacientemente o estranho conceito de votação.
 Petrus Vaalbooi, eleito líder, perguntou à platéia: “Se uma leoa der cria, vocês me ajudam a roubar os filhotes?” Essa foi sua maneira de alertá-los para os graves problemas que os aguardavam.
Poucos meses depois, no início de 2000, o governo sul-africano concedeu-lhes oficialmente um território, ao sul da reserva. Eles ainda enfrentam imensos desafios para desenvolver a região por meio do turismo ou da agricultura, porém essa experiência na África do Sul insuflou novo ânimo à luta de todos os bosquímanos para obter o reconhecimento da comunidade e de seu direito à terra.
 A esse pequeno grupo se resumem os bosquímanos nativos da África do Sul, que todavia abriga, num lugar chamado Schmidtsdrift, a maior – e talvez a mais desoladora – comunidade de bosquímanos do planeta. Mais de 4,3 mil indivíduos originários de Angola e da Namíbia encontram-se isolados ali, a 1 hora de carro de Kimberley, a capital da província de Cabo-Norte. Schmidtsdrift é a própria desolação. Aproximadamente de 1,9 mil barracas militares se enfileiram numa encosta descampada, pedregosa e batida pelo vento. Dois grupos bosquímanos, os !xûs e os khwes, que se detestam mutuamente, partilham a encosta cuidadosamente dividida que se estende até a margem do rio Vaal. Desde 1990, o local abriga, em caráter provisório, um batalhão de bosquímanos do Exército sul-africano. Na verdade, o batalhão foi desmobilizado em 1994, após o fim do apartheid, mas os soldados bosquímanos simplesmente se recusaram a debandar porque não tinham para onde ir.
 E, ironicamente, Schmidtsdrift talvez seja a mais abastada das comunidades de bosquímanos. Muitos ex-soldados continuam recebendo pensão e os habitantes contam com duas escolas – de ensino elementar e médio – e uma clínica equipada e em funcionamento. Porém, o consumo generalizado de álcool e maconha, paliativos contra um mundo que tem massacrado esse povo, indica deslocamento e perda. A seção de bebidas é a primeira que se vê quando se entra no armazém do campo. As marcas são as mais baratas, com o maior teor alcoólico, como Diamond Fields Late Harvest, um vinho branco que nem sequer vem em garrafa, e sim numa embalagem de papel-alumínio.
 Na clínica, o médico do Exército me diz que o alcoolismo afeta até crianças de 12 anos e que há muito a tuberculose é a principal causa de mortes. Os bosquímanos ainda recorrem à medicina tradicional quando adoecem e só em caso de insucesso procuram a clínica – em geral tarde demais. Eles desconfiam muito da medicina ocidental e o médico admite que não consegue transpor essa barreira cultural.
 O lamento de uma sirene anuncia a esperada hora do almoço na escola do campo, e mais de 1,6 mil crianças formam fila para receber uma tigela de sopa grossa e um pedaço de pão. Para muitas essa é a única refeição do dia e o que assegura sua permanência na escola. Quem não assiste às aulas não ganha a sopa.
 Em Schmidtsdrift, o líder do Conselho Tradicional !Xü é o ex-sargento Mario Mahongo, do grupo !Xû. Ele preside a Associação da Propriedade Comunitária !Xû & Khwe, uma organização consultiva que representa os interesses dos !xûs e dos khwes. A associação está planejando a mudança de toda a comunidade para uma fazenda nas redondezas, onde haveria moradias permanentes, construídas pelo governo e por fundações particulares, e mais oportunidades, como a de produzir e vender artesanato tradicional.
 Baixo e de bigode, Mahongo usa óculos escuros com armação de tartaruga, uniforme de camuflagem e coturnos marrons. Um trailer funciona como seu escritório no meio do campo; cartazes inspiradores forram a parede a suas costas. Como muitos homens do campo, ele ingressou na carreira militar por ocasião da guerra de independência de Angola, lutando ao lado dos portugueses.
 “Entre nós e os negros sempre houve muito conflito”, explica. “Eles escravizavam a minha gente. Os portugueses sabiam disso e, quando entraram em choque com os negros, nos procuraram e disseram: ‘Vamos unir forças para atingir um objetivo comum’.”
Depois que os portugueses saíram de Angola, em 1975, a África do Sul recrutou os bosquímanos para combater os guerrilheiros que lutavam pela independência da Namíbia. Quando a história se repetiu e a Namíbia também se tornou independente, os bosquímanos fugiram de novo para a África do Sul, temendo represálias.
 “Gostaríamos de voltar atrás no tempo, para uma época em que não existiam fronteiras nem cercas”, diz Mahongo. “Mas aqui na África do Sul é melhor esquecer isso. Tudo está loteado e cercado. Pelo menos e não. Meu coração está em Angola, mas hoje Angola é um país estrangeiro ára meus filhos. A guerra continua no lugar onde nasci. Grande parte de nossa cultura se perdeu. Como as velhas histórias de nossos países: eles se embrenhavam na mata e, ao voltar, contavam aos outros o que tinham visto. Hoje ninguém mais sai daqui para nada, e, portanto, não temos histórias para contar a nossos filhos. Não temos nada para transmitir a eles. Antigamente fazíamos instrumentos musicais para acompanhar nosso canto. Hoje vamos à cidade, compramos uma fita e ouvimos".
 Batista Salvadore, relações-públicas da associação !Xû & Khwe, leva-me a visitar o campo. Ele é filho de pai português e mãe !Xû. "O governo acha que todos os bosquíanos são iguais e por isso nos pôs juntos.", diz. "Mas aqui vivem duas tribos diferentes mais que os !xus e assediam nossas mulheres. Entre nós há quem ache que eles nem sequer são bosquímanos."
 De fato, os khwes são mais parecidos com os bantos. são mais altos e mais negros e não têm aquela aparência ligeiramente asiática dos !Xûs que combina com o estereótipo ocidental dos bosquímanos.
 Caminho com Salvadore até o rio Vaal. Na outra margem começa outro mundo, um mundo de fazendeiros brancos, terras bem cuidadas, verdejantes campos irrigados de alfafa. Alguns !Xûs se mudatam para a margem do rio e habitam pequenos telheiros. Nadam nus nas águas rasas e pescam bagres com a ajuda de mosquiteiros e tecidos perfurados.
 "Por que vocês saíram do campo principal", pergunto a uma família que nos olha com desconfiança. "A gente detestava o barulho e os bêbados", responde Kanguia Mundinda, uma mulher de meia-idade já encarquilhada. "Precisamos estar sempre mudando; assim é nossa vida".
 Qunado estou deixando Schmidtsdrift, Mahongo vem se despedir de mim. "Tenham pena de nós, pobres bosquímanos", ele me pede. "Pena de nós, que enfrentamos tantos problemas neste mundo. Nós, os bosquímanos, fomos os primeiros habitantes deste lugar. E como é que agora somos os últimos para conseguir qualquer coisa? Quando vêem que somos pacatos, pisam em nós. Precisamos encontrar forças para conquistar nosso lugar neste mundo. Do contrário, não haverá mais nenhum de nós. Vamos acabar desaparecendo todos. Só nossas pinturas hão de ficar, para fazer vocês se lembrarem de nós."
 Mas, assim como o tradicional estilo de vida dos bosquímanos do sul da África se restringe hoje aos museus, o pedido de Mahongo já soa como uma súplica do pasado. Enquanto os remanescentes lutam para se adaptar às mudanças ao seu redor, talvez o máximo que se possa salvar seja o legado de sua memória cultural, sobretudo sua extraordinária intimidade com a natureza.
Peter Godwin

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

VIDA NOVA NO GELO

As ursas-polares mostram que o mais formidável predador do Ártico pode ser muito charmoso
Na primavera, ursas-polares do Parque Nacional Wapusk, na província canadense de Manitoba, saem da toca com seus filhotes de 3 meses. A fêmea jejuou por até oito meses, mas isso não impede que os filhotes suguem as energias que lhe restaram. Se forem trigêmeos, o mais persistente consegue uma refeição adicional. O nanico desta ninhada está fraco, tendo sido privado pelos irmãos maiores de várias mamadas. As fêmeas são protetoras, mas dão pouca importância às disputas em torno da comida. Fotografo ursos-polares há 11 anos e só uma vez vi o mais fraco de uma ninhada de três sobreviver até o outono.Os gêmeos, o tamanho mais comum de ninhada, parecem viver envoltos em luxo. Uma dupla farta-se de leite gordo. Mesmo de longe ouço os estalidos que fazem ao mamar e, através das lentes, consigo ver bocas meladas emergindo para respirar. Nesse dia ventoso, os ursos são mais inteligentes que eu. Eles descansam debaixo das árvores, enquanto sou obrigado a me agüentar em território desprotegido.
Primeiros passos
Trigêmeos de ursos-polares seguem os passos da mãe em sua primeira viagem ao litoral da baía de Hudson. Os inuits, esquimós do Canadá, dão a essa iniciação o nome de atiqtuq, “ursos descendo para o mar”.Sonolenta, uma fêmea gigante pouco se importa com as tentativas de seu filhote para galgá-la, mas fico emocionado com o espetáculo – e contente porque meus dedos gelados estão ágeis para capturar a série. Vivendo como um urso, mas sem um isolamento térmico tão eficaz quanto o deles, tremo de frio até mesmo em moderados -5oC depois de passar horas imóvel, esperando que façam alguma coisa. A temperatura é amena para a ursa, mas o filhote ainda não tem gordura nem pêlos suficientes para ficar invulnerável aos elementos. Se desgarrar de sua mãe, poderá facilmente morrer de fome ou de frio. Serão necessários mais de dois anos antes de ele se tornar um caçador competente, capaz de sobreviver sozinho.O castigo é rápido para um filhote que se desgarra e sobe um banco de neve sem licença. A ursa o agarra e o imobiliza no chão com um rosnado baixo, apesar dos gritos de protesto do filhote. A mãe mostrava-se mais tolerante antes, quando o mesmo filhote lutava com um irmão, os dois envolvidos pelo abraço dela. A toca diurna é um abrigo familiar temporário. Com suas patas enormes, a ursa retira neve para ali se acomodar. Os ursos fazem freqüentes pausas em sua jornada em direção ao mar, a fim de descansar, brincar e amamentar. Não tenho dúvidas de que esta mãe e exímia caçadora esteja faminta e ansiosa para caçar focas na massa de gelo flutuante, mas ela não apressará seus filhotes na longa caminhada. O pai, como sempre, não está presente nesta cena familiar. Os machos nômades não têm nenhuma função na criação dos filhotes e podem ser perigosos para os ursos jovens. Por isso, as fêmeas com filhotes tendem a evitá-los. O menor dos três – mesmo debilitado – continua no grupo, uma minúscula bola de pêlos parcialmente escondida, ao lado da mãe.Vivendo num mundo de diversões sem fim, os trigêmeos brincam e rolam aos pés de sua protetora. Num dia gélido, uma fêmea envolve seu filhote com calor maternal. Com o vento baixando a temperatura a -50oC, aqueço meu equipamento e meus dedos junto ao motor do veículo. Um rolo de filme despedaça-se como vidro quando tento carregá-lo na máquina. O truque é trabalhar devagar e com cuidado, embora alguns grandes momentos possam ficar sem registro.Nem tudo vai bem no reino dos ursos. Embora a delimitação de parques e a criação de cotas de caça tenham ajudado a proteger os animais das armas de fogo, surgem novas ameaças. Poluentes químicos contaminam a cadeia alimentar e o hábitat natural dos ursos poderá se deteriorar pela mineração e pela extração de petróleo em alto-mar. Tendências recentes de aquecimento da temperatura aceleraram o derretimento das massas de gelo flutuante, reduzindo a caça de focas pelos ursos-polares durante a primavera. Ainda não se pode prever o que será deles e de outros animais selvagens do Ártico. No momento, tudo o que vejo é um nobre sobrevivente na paisagem, protegendo seus filhotes do vento ártico e de outros perigos da vida no gelo.(Norbert Rosing - Dezembro de 2008).