quinta-feira, 3 de julho de 2014

O REINO DOS CORAIS

A grande barreira de Corais na Austrália: um espetáculo da vida submersa na maior estrutura construída por organismos vivos.
O feixe de luz da minha lanterna refletia o brilho prateado de dois grandes olhos de felino, e suas pupilas pareciam mais negras do que as trevas por onde deslizavam. Só havia um problema: gatos não rondam a 12 metros de profundidade no mar de Coral. Eram tubarões. Eu não sabia dizer de que tipo, mas alguns daqueles corpos indistintos pareciam ser bem maiores do que o meu. Para complicar, o ar de meu tanque de oxigênio acabou e tive de voltar à superfície longe do barco. Fui obrigado a atravessar, a nado, enormes ondas negras no rumo da distante luz da embarcação. A sensação era de estar preso num daqueles sonhos em que precisamos nos mover muito mais rápido do que conseguimos. Um pesadelo real.Prometi que muito tempo se passaria antes de eu voltar a mergulhar na Grande Barreira da Austrália. Dias depois, porém, descobri que promessas desse tipo não devem ser feitas ali. Pois lá estava eu, mais uma vez, a 15 metros da superfície, encarando outros olhos de felino. Eram de um gracioso e sarapintado tubarão Hemiscyllium ocellatum, que nadava perto de dois belos peixes-leão com nadadeiras abertas como asas emplumadas. Acima deles, uma vistosa coluna de coral erguia-se retorcida até bem perto da superfície, iluminada apenas pelas lâmpadas do barco e pela luz da lua cheia.A condição do mergulho era – mais uma vez – sublime. A luz suave enfatizava as formas de vida que crescem praticamente livres dos efeitos da gravidade. Flutuar junto delas, sem sentir o peso do corpo, me fez sentir como numa excursão a outro planeta – mas, mais uma vez, logo notei meu engano. A cena submarina era a própria essência do nosso planeta, que, afinal, deve seu consagrado tom de azul aos oceanos. Além do mais, uma única parede de coral contém um conjunto representativo da vida na Terra mais amplo do que um continente inteiro. Enfim, o fundo do mar só parece ser um outro mundo para aqueles que, como eu e você, nasceram acima da linha da maré.Os recifes coralinos formam-se quando colônias de plantas e animais marinhos tropicais com esqueleto de calcário crescem sobrepostos às gerações anteriores. Eles compõem os ambientes naturais visualmente mais diversificados que um ser humano pode conhecer, e a Grande Barreira de Corais é o maior conjunto coralino do mundo. A vasta e rasa plataforma continental do nordeste da Austrália proporciona uma base perfeita para o crescimento desse complexo de corais, que avança até 260 quilômetros mar adentro e tem mais de 2 mil quilômetros de extensão. No total, a Grande Barreira ocupa uma área de 350 mil quilômetros quadrados – um território um pouco maior do que o estado do Maranhão.
Para explorar essa imensidão submarina, o fotógrafo David Doubilet e eu vagamos por 6,5 mil quilômetros a bordo de barcos de mergulho. Passamos tantas horas submersos que comecei a estranhar a terra firme. No dia em que descobri uma rêmora – um peixe acostumado a grudar nos tubarões e nas raias-jamantas – pegando carona em minha perna, comecei a pensar seriamente que talvez fosse hora de retomar a vida na superfície.Embora o nome sugira uma faixa contínua, a Grande Barreira de Corais é, na verdade, uma comunidade de, no mínimo, 2,8 mil recifes diferentes. Apenas alguns são autênticos recifes em barreiras – quebra-mares que se elevam junto à orla da plataforma continental. Nos mares mais calmos que ficam além desse cordão, outros recifes aparecem na forma de círculos irregulares, conhecidos como plataformas coralinas. Estruturas menores, chamadas colunas coralinas, estão dispersas pelas áreas rasas.Os recifes formam-se a partir das praias, mas são encontrados com maior freqüência ao redor das 618 ilhas australianas próximas ao continente. Essas ilhas altas foram montanhas durante a Era Glacial, antes que as geleiras derretessem e elevassem o nível do mar – são verdadeiras, portanto, as lendas aborígines que mencionam gerações antigas caminhando até essas ilhas. Existem ainda cerca de 300 ilhas baixas, as cays, formadas de sedimentos de recife sobre bancos de coral. Quando excrementos de aves marinhas aglutinam os grãos de areia e plantas compactam o solo, essas ilhas desertas tornam-se bosques, enquanto outras, assoladas por tempestades, voltam a se transformar em bancos de areia sem posição fixa.O complexo de recifes e ilhas atua como um anteparo contra o mar revolto. Essa função ambiental estratégica permite a existência de leitos de vegetação marinha nas proximidades dos recifes e de florestas de mangues no litoral. Os mangues, por sua vez, capturam sedimentos, armazenam nutrientes e servem de viveiro para diversos habitantes dos recifes. Adicione aos mangues leitos marinhos entre recifes e outeiros submersos compostos de Halimeda, uma alga verde enrijecida pelo cálcio. Junte todos esses hábitats à água azul-celeste vinda do mar de Coral e à água cor de terra despejada do continente. Misture tudo a correntes, marés diárias e padrões climáticos sazonais: eis a receita do ecossistema da Grande Barreira de Corais.
Esse “planeta” submerso se parece mais com uma longa cadeia de províncias. Quatro seções principais são amplamente conhecidas: a Mackay/Capricorn, situada ao sul, primeira região onde a temperatura da água possibilita o crescimento do coral; a Central; a Cairns; e, por fim, a Extremo Norte, a mais remota e, por estar mais próxima da linha do Equador, a que abriga a maior biodiversidade.
 Nosso primeiro destino foi Eastern Fields, um atol raramente visitado, que fica nas proximidades do golfo de Papua, 320 quilômetros a leste da península australiana do cabo York, próximo à Nova Guiné. Essa região marinha primitiva e intocada é uma parte do Pacífico que, há cerca de 20 milhões de anos, semeou de corais a plataforma continental, depois que a deriva dos continentes deslocou a Austrália para o norte e a introduziu nos trópicos.
 Enquanto eu ajustava o tanque de oxigênio, Duncan Johnstone, um dos mergulhadores profissionais da nossa tripulação, dava uma série de conselhos. Segundo ele, a água tinha visibilidade de cerca de 45 metros e estava cheia de tubarões. O grande tubarão-branco é raro em águas tropicais, mas não é o caso de outro brutamontes, o tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier), que chega a medir 5,6 metros. Johnstone, felizmente, referia-se a espécies mais comuns, que oscilam entre 1,5 e 3 metros de comprimento, como os tubarões-cobre (Carcharhinus brachyurus). “Eles caçam normalmente em pequenos bandos”, continuou Johnstone. “Gostam de chegar perto para observar os mergulhadores. Se puder, simplesmente recue na direção dos recifes. Jamais suba de volta à superfície!”
 O alerta foi providencial. Mergulhando ao largo de corais verdes que lembravam os tubos de um órgão submerso, fui logo abordado pelos tubarões. Quando o bando se afastou, comecei a nadar horizontalmente, a 30 metros de profundidade, na beira de um abismo. Pairei ali por um instante antes de penetrar naquele vazio azul. Embora meu indicador de profundidade mostrasse um nível constante, eu não conseguia evitar a estranha sensação de estar em queda livre. Atuns-do-sul (Thunnus maccoyii) passavam abaixo de mim. Cardumes de peixes do gênero Naso nadavam em torvelinho como correntes visíveis. E formas bem maiores de vida assomavam no ponto onde o azul transformava-se em escuridão absoluta.
 Eu me sentia cada vez mais como uma partícula de plâncton. Então, dei meia-volta e subi devagar. Cruzei com peixes-porcos, peixes-cirurgiões e com nuvens de outros peixes que se alimentavam de tudo: algas, camarões e até os corais que lhes serviam de abrigo. Ao alcançar a linha da âncora do nosso barco, eu já sabia que meu principal desafio ali não seria enfrentar os tubarões, mas sim decifrar a incrível policromia desses recifes australianos.
 Cerca de 2 mil espécies de peixes habitam a Grande Barreira, e novas descobertas ocorrem a cada ano. O mesmo acontece com as estimativas de cerca de 4 mil moluscos e, no mínimo, 350 corais pétreos, os formadores dos recifes.
 Talvez porque já seja muito difícil inventar mais nomes novos, muitos dos peixes têm designações emprestadas de animais terrestres: peixe-morcego, peixe-lagarto, peixe-porco e, num duplo empréstimo, o peixe-coelho-cara-de-raposa (Siganus vulpinus). Aperfeiçoar minha capacidade de reconhecer as espécies só me deixou mais curioso para saber por que havia tantos tipos de peixe. Como tal riqueza biológica é possível se o aspecto azul e cristalino dos mares tropicais reflete a escassez de nutrientes e de plâncton, a base da pirâmide alimentar marinha? A água é tão transparente que, certo dia, eu imaginava estar atrás de um cardume ao longe quando, na verdade, seguia as sombras de atobás-marrons (Sula leucogaster) que voavam sobre mim carregando peixes para seus filhotes num cay próximo.
 O fato de os peixes adultos apresentarem diferentes padrões de nadadeiras, cores e comportamento foi minha primeira pista para o enigma da diversidade à minha volta. Nas proximidades dos recifes Portlock, não consegui identificar o que estava se movendo por trás de uma fenda numa crista de coral. Meu companheiro de mergulho, porém, logo percebeu do que se tratava ao ver uma enorme moréia com pintas pretas (Gymnothorax sp.) emergir para examinar minha nuca. Naquele momento eu estava distraído com um filhote de peixe-papagaio bicolor (Cetoscarus bicolor). As fêmeas adultas dessa espécie são castanho-avermelhadas e os machos, verde-jade e rosa.
Mudanças temporárias de cor aumentam as dificuldades para identificar quem é quem na Grande Barreira. Além disso, uma gama muito ampla dos peixes dos recifes muda de sexo com a idade ou quando alterações no meio social ativam hormônios que produzem características masculinas em detrimento das femininas – ou vice-versa. Quando o macho de um harém de peixes do gênero Pseudanthias desaparece, a fêmea dominante pode, no espaço de algumas horas, começar a agir como macho. E, em poucos dias, tornar-se fisicamente um deles.
 Deitei-me no convés e estava começando a cochilar quando outro peixe caiu sobre mim. Dessa vez foi fácil identificá-lo. Era um peixe-voador que, para escapar de um predador, alçara vôo com suas longas nadadeiras peitorais semelhantes a asas. Sua visita não foi nenhuma novidade a bordo. Pequenas lulas e peixes-rubi estavam sempre caindo sobre a popa. Quando Johnstone estava ali cortando em filés uma garoupa para o jantar, um tubarão-cobre (Carcharhinus brachyurus) atirou-se sobre a popa, debatendo-se furiosamente. Para completar o ambiente, aves marinhas recobriam o chão de excrementos. Pelo visto, estávamos nos integrando ao ecossistema. Não tínhamos avistado nenhum outro barco por centenas de quilômetros. Perfeito. Só nós e o mar.
 Parte do prazer dessas áreas virgens deve-se ao fato de que a Austrália está empenhada para que continue assim. Em 1975, praticamente toda a região dos recifes foi incluída no Parque Nacional Marinho da Grande Barreira de Corais, um dos primeiros santuários do gênero criados no planeta – e, ainda hoje, o maior. Destinado sobretudo a impedir a exploração petrolífera e a mineração nos recifes, o parque permanece aberto para outras atividades. A pesca comercial e esportiva e a captura de peixes ornamentais e de conchas é regulamentada. Alguns trechos, porém, foram isolados como zonas de pesca proibida, bancos de pesquisa ou reservas para espécies ameaçadas – caso dos dugongos, mamíferos marinhos aparentados dos peixes-bois brasileiros.
 Das sete espécies de tartarugas marinhas do planeta, seis são vistas na região da Grande Barreira. A menos ameaçada de todas é a de carapaça achatada, a Natator depressus, que nada apenas em águas australianas. As fêmeas das tartarugas-verdes (Chelonia mydas) viajam 2,6 mil quilômetros desde a Indonésia e a Nova Caledônia para depositar seus ovos em locais como a ilha Raine, um cay na seção Extremo Norte da barreira. Do barco notávamos como milhares delas transformavam a paisagem da praia todas as noites, sacudindo as nadadeiras e espalhando areia para todo lado.
 Durante um mergulho nas encostas de coral sobre as quais a ilha Raine se assenta, as tartarugas passaram tão perto de nós que pudemos distinguir marcas de dentes de tubarão em seu casco. Outras, pesando até 180 quilos, descansavam em cavernas nas paredes dos recifes. Todas as vezes que espiei dentro de um daqueles nichos escuros vi também grandes olhos de peixes das famílias Apogonidae e Holocentridae ou de outras espécies noturnas. Foi mais uma pista para que eu entendesse a extraordinária riqueza biológica da região.
 Os recifes coralinos estão crivados de cavernas e fendas. Essa microtopografia multiplica substancialmente a área total da superfície do recife e a variedade de nichos disponíveis. É ali que os animais do turno da noite passam o dia, que os diurnos se escondem à noite e que uma diversidade de ascídias, corais macios e esponjas, desprovidos de esqueleto rígido, mora em tempo integral. Para outras criaturas marinhas, as fendas mais estreitas substituem a proteção de conchas, espinhos ou substâncias químicas de gosto ruim. Muitas delas são capazes de cavar seus próprios túneis, incluindo algumas algas e esponjas que aparentam não ser rijas o bastante para essa árdua tarefa.
 A caminho do sul da Grande Barreira, nos aproximamos de terra firme e avistamos o cabo Weymouth no horizonte. No recife Ferguson, desci até o fundo para pousar em um trecho arenoso e descobri que um tubarão Triaenodon obesus tivera a mesma idéia – e estava a 3 metros de mim. Saí de fininho. O tubarão nem se mexeu, mas em 1 minuto aquele hábitat de aparência erma encheu-se de dezenas de enguias que brotaram da areia, emergindo de suas tocas assim que se extinguiu a comoção causada pela minha chegada.
 Também os peixes-papagaio Bolbometopon muricatum parecem adorar esse lugar. A espécie, a maior das 29 de peixes-papagaio da região, chega a pesar mais de 45 quilos e devora até 4,5 toneladas de coral por ano. Depois de arrancar nacos do coral com os dentes, o peixe os mastiga com um segundo conjunto de potentes mandíbulas no fundo da garganta. Quando um deles defecou, uma cortina de pasta de coral caiu sobre mim. Meu único consolo, naquela insólita situação, foi imaginar que muitas das deslumbrantes praias coralinas arenosas vizinhas dali nasceram do esterco desses peixes tão exóticos.
 Em mergulhos muito longos, os mares tropicais também consomem todo o calor do nosso corpo. Quando eu sentia um pouco de frio no fundo, só me restava voltar à superfície, aquecida pelo sol à temperatura da água da minha banheira. Ao flutuar sobre a areia na área mais rasa, a claridade doeu-me nos olhos e percebi quão evidente era o fenômeno que favorecia a abundância de vida nos recifes: energia solar ilimitada. Tal como em terra firme, a cadeia alimentar marinha depende da capacidade das plantas de converter a energia solar em nutrientes e material de construção.
 Outro segredo da fecundidade da Grande Barreira é que boa parte das plantas vive no interior de animais. Confundidos no passado com plantas de cores vivas, os corais, na verdade, são carnívoros aparentados com as anêmonas e as medusas. Como elas, os corais usam tentáculos dotados de ferrões para capturar presas microscópicas. Eles também podem atrair alimentos com seu revestimento mucoso e absorver nutrientes pela epiderme. Mesmo assim, quase todo o seu alimento provem de algas castanho-douradas que eles abrigam em seus tecidos. São milhões delas a cada 6 centímetros quadrados. As enzimas do coral levam as algas a liberar carboidratos. Em troca, as algas obtêm nitrogênio das substâncias excretadas pelo coral e, de quebra, um lar.
 Um número surpreendente de outros animais também cria algas em seu interior. As parcerias têm um papel importante num recife. A maior família de peixes marinhos é a dos gobídeos, com mais de 2 mil espécies no mundo todo. Muitas das espécies tropicais de gobídeos compartilham tocas com o camarão, que mantém a habitação limpa enquanto os peixes agem como sentinelas, alertando quando há perigo. Mas as parcerias nem sempre indicam que os imperativos da barriga cheia foram revogados. Durante um mergulho, vi uma barracuda abrir a boca para um budião, peixe que poderia remover os parasitas alojados na sua boca e nas suas guelras. Na hora, contudo, resolveu abocanhá-lo para saciar sua fome.
 Cerca de 280 quilômetros ao sul do recife Ferguson entramos na seção Cairns e desembarcamos na ilha Lizard. Depois de três semanas navegando, o chão parecia balançar tanto que eu mal consegui parar em pé. Mesmo assim, a perspectiva de caminhar mais do que os 22 metros de comprimento do nosso barco era tão animadora que segui cambaleando até o mirante de Cook, o topo de granito da ilha, 359 metros acima do nível do mar. Em 1770, durante uma expedição para a descoberta do suposto continente da Terra Australis, o capitão inglês James Cook galgou essa elevação em busca de uma saída para o que estava começando a lhe parecer uma interminável barreira de recifes. O célebre navegador já tivera o casco do navio perfurado por corais. Por volta de 1900, a Grande Barreira já havia destroçado 1,2 mil embarcações. Nós mesmos havíamos feito algumas excursões cheias de sobressaltos a áreas até hoje classificadas como “inexploradas”.
 O mirante de Cook estava envolto em nuvens durante minha visita. Pombos Ducula bicolor arrulhavam nos eucaliptos e lagartos-couraçados (Varanus panoptes) de 1,2 metro arrastavam-se fazendo farfalhar o mato. Apesar da lembrança de Cook, o lugar, um tanto sinistro, lembrava não o período da colonização européia, mas o “tempo do sonho”, a era mística vislumbrada pelos pioneiros aborígines, que no passado celebravam seus ritos de iniciação masculina no topo do monte.
 Na Estação de Pesquisas da ilha Lizard, procurei por Bob Podolski, um biólogo marinho da Universidade da Carolina do Norte. Ele fora à ilha para estudar os ofiuróides, parentes das estrelas-do-mar cujos longos braços quebram-se com facilidade. Enquanto o braço que se desprendeu fica se contorcendo, distraindo o que quer que o tenha atacado, o resto do ofiuróide pode escapar. O membro perdido logo se reconstitui. “Um ofiuróide adulto origina mais de 1 milhão de larvas durante sua vida, mas, apesar disso, conseguirá gerar um único indivíduo, e se tiver sorte”, explica Podolsky sobre a difícil reprodução das estrelas marinhas.
 Três dias depois, desembarcamos nos recifes Hastings, perto da cidade portuária de Cairns. Barcos recém-atracados despejavam mergulhadores equipados de cilindros de ar comprimido ou snorkel. O lugar parecia desgastado, com os recifes macerados por pés-de-pato e por mãos que se agarraram para permitir uma observação melhor. E também era assolado por muitas coroas-de-espinhos (Acanthaster planci), enormes estrelas-do-mar que possuem ferrões venenosos e se alimentam de corais vivos.
 Enquanto eu flutuava contemplando alguns Sphaeramia nematoptera – para ter uma idéia de como eles são, imagine peixinhos gorduchos vestidos de palhaço –, um mergulhador aproximou-se e enterrou um arpão numa das estrelas-do-mar. Descobri logo que não se tratava de nenhuma agressão ao ambiente. Explosões periódicas na população das Acanthaster planci podem acabar com a cor e a vida dos recifes. Enquanto os cientistas discutem se isso é um evento natural ou resultado de atividades humanas – como a pesca excessiva dos peixes que se alimentam de jovens estrelas-do-mar –, os promotores de excursões contratam caçadores submarinos para remover espécimes adultos dos locais visitados por turistas.
Apenas 3,5 milhões de pessoas vivem em todo o estado de Queensland, mas a cidade de Cairns recebe quase 800 mil visitantes estrangeiros por ano. A maioria, obviamente, chega para conhecer a Grande Barreira. E se surpreende ao descobrir que os suntuosos recifes em águas cristalinas mostrados nos cartazes turísticos situam-se, na verdade, a 40 quilômetros ou mais da costa. A bordo de um dos velozes catamarãs que transportam até 300 passageiros de uma vez, notei muitos tripulantes do barco munidos de luvas de borracha e prontos para lidar com saquinhos de vômito – o passeio tem também os seus reveses. A embarcação atracou numa plataforma enorme nos recifes Agincourt. Alguns grupos foram mergulhar com guias ou nadar com snorkels, mas eu preferi sobrevoar de helicóptero os baixios azul-turquesa. Depois, a bordo de um semi-submarino envidraçado, sentei-me ao lado de uma vovó alemã para observar paredes de coral e me refresquei na área demarcada com cordas para o mergulho com snorkel.
 Depois da região de Cairns, a área mais visitada da Grande Barreira são as ilhas do grupo Whitsunday, que ficam na seção Central. Esse arquipélago é muito procurado por viajantes estrangeiros e por australianos em férias, sobretudo velejadores. Como as ilhas espalham-se perto do continente, a região não tem águas muito cristalinas. Mesmo assim, quando mergulhei a 9 metros de profundidade ao largo da ilha Hook, encontrei uma viçosa mistura de corais. Entre eles havia uma variedade ainda maior de corais, pepinos-do-mar de cores vivas e muitos outros peixes que eu desconhecia completamente.
 Não consegui, por exemplo, identificar o peixinho amarelo que cismava em subir na manga do traje da minha parceira de mergulho, Amanda Parr. Ela e um grupo de moradores locais estavam substituindo as bóias de sinalização incrustadas de vegetação marinha. As bóias servem para guiar os navegantes até os ancoradouros flutuantes, que foram instalados ali para amenizar os danos provocados pelas âncoras dos barcos nos recifes das ilhas. Ao lado de Parr, instrutora de mergulho, estava Tony Fontes, treinador de instrutores de mergulho, e Elmer Ten Haren, supervisor das atividades de mergulho em uma empresa de turismo. Essas pessoas ganham a vida na água. Mas ali estavam elas, mais uma vez, mergulhando em seu dia de folga – e de graça. Quando perguntei o motivo, Ten Haren limitou-se a dizer: “Porque isso precisa ser feito”.
 Na verdade, nem o Departamento de Parques de Queensland nem a administração do Parque Marinho da Grande Barreira de Corais contam com mão-de-obra suficiente para realizar todas as tarefas necessárias na vasta reserva sob seu encargo. “É aí que nós entramos”, explica Fontes, co-fundador de um grupo voluntário que se autodenomina Ordem dos Heróis do Coral Submerso. “Usamos nossa habilidade de mergulhadores para fazer a manutenção das bóias, retirar lixo dos recifes, ajudar em projetos de pesquisa e, principalmente, educar o público. Queremos mostrar às pessoas como o coral se sente quando elas o cortam arrastando uma âncora.”
 Eu preparava uma lista com as principais formas de vida dos recifes e resolvi acrescentar o nome desses mergulhadores no item “heróis genuínos”. Esse relatório informal da diversidade local, maior a cada momento, levou-me até a Universidade James Cook, em Townsville, a principal cidade litorânea ao longo da seção Central da Grande Barreira. Eu queria uma opinião profissional, menos deslumbrada, sobre a razão de a vida nos recifes ser aquele imenso desfile de formas e matizes. Por que, afinal, existem ali 20 espécies parecidas de peixe-borboleta (família Chaetodontidae), em vez de apenas duas ou três?
 “Na verdade, nós não temos a menor idéia. Mas posso afirmar que boa parte da diversidade entre os grupos de peixes tropicais resulta de acidentes históricos. É provável que, nas eras glaciais, quando o nível do mar baixou, as bacias oceânicas tenham ficado isoladas e suas populações seguido linhas evolutivas separadas, que hoje consideramos espécies distintas. Depois, quando o mar tornou a subir, muitas migraram para a Austrália e passaram a habitar lado a lado”, explica David Bellwood, um importante ecologista marinho. “Para mim, a melhor decisão ‘administrativa’ que a Austrália já tomou foi colocar seus recifes bem longe da praia e ao longo da costa setentrional do continente, que ainda é bem pouco habitada”, completa Bellwood, com bom humor.

Por outro lado, o reino dos corais não está imune às mudanças que vêm ocorrendo nos ecossistemas terrestres. A agricultura e a especulação imobiliária na planície costeira de Queensland tomaram o lugar de muitos trechos alagadiços que funcionavam como filtros naturais da água doce do continente. A ocupação desordenada – aliada ao desmatamento, ao excesso de pastagem e ao mau escoamento de água das cidades, plantações e indústrias – gera um volume maior de sedimentos e nutrientes despejados na direção da Grande Barreira. O coral consegue subsistir em águas surpreendentemente turvas, desde que as marés e as correntes removam os sedimentos com certa periodicidade. Mas os nutrientes em excesso arruínam um recife. Qualquer nível de nitrogênio acima do moderado prejudica o crescimento e a reprodução dos corais. Ao mesmo tempo, fertiliza algas que não dependem da simbiose e podem asfixiar seus vizinhos.
 A perfuração de um coral revela faixas distintas cuja espessura dá a medida do seu crescimento anual – mais ou menos como os anéis de um tronco de árvore. “Nossas amostras indicam que alguns recifes pararam de crescer nos últimos tempos”, informa Jon Brodie, especialista em qualidade da água do parque marinho. “É possível associar esse fato aos níveis mais elevados de nitrogênio na água proveniente dos rios. Mas é importante ressaltar que, quando dizemos que a Grande Barreira corre risco, estamos falando apenas das partes internas dos recifes. As áreas mais remotas e a orla externa ainda estão em boas condições”, completa ele. Os especialistas preocupam-se muito com um aparente aumento no ritmo do branqueamento. Quando a água se aquece muito além do normal, quase sempre os corais perdem suas algas, ficam brancos e morrem.
 Outro perigo são os furacões. Um recife típico na Grande Barreira é atingido por um deles a cada 20 a 50 anos. “Antes de afirmar qualquer coisa sobre a saúde dos recifes, é preciso conhecer sua idade e o modo pelo qual está se recuperando da perturbação mais recente. Temos de nos livrar da idéia de que os recifes devem, em todos os momentos e por toda parte, ter a aparência dos prospectos de turismo, como se fossem sempre jardins submarinos perfeitos”, pensa Terry Done, um graduado cientista do Instituto Australiano de Ciência Marinha.
 Depois de navegar cerca de 150 quilômetros para nordeste a partir do porto de Gladstone, nosso barco atingiu o complexo de recifes Swain, na seção Mackay/Capricorn, o mais amplo cinturão de recifes da Grande Barreira. Assim como o jardim do Éden bíblico, o lugar onde eu estava tinha um problema com serpentes. Havia serpentes-do-mar por toda parte, coleando entre os ramos de coral, à caça de pequenos peixes e enguias. Embora o veneno delas seja mais letal que o de uma naja, essas serpentes normalmente não são tão irascíveis – apenas curiosas.
 Eu, meu filho Russell e David Doubilet fomos obrigados a vestir grossos trajes de borracha, já que a temperatura da água era vários graus mais baixa do que na seção Extremo Norte. Uma serpente-do-mar cor de oliva (Aipysurus laevis), de 1 metro e meio, seguiu Russel por toda parte. A cobertura dos recifes coralinos não era tão densa quanto nas seções anteriores e havia também menos espécies de peixes, embora o lugar ainda fosse um carnaval de barbatanas e escamas. Eu estava tentando distinguir vários tipos de peixe-anjo (família Pomacanthidae) quando uma massa do tamanho de um microônibus escureceu o lugar. Era uma garoupa de mais de 300 quilos! Naquela tarde, jamantas e raias-morcego ainda mais vultosas surgiram “voando” por entre nuvens de plâncton na corrente marinha.
 Dois golfinhos Tursiops truncatus, mãe e filhote, chegaram à noitinha para uma demorada visita ao redor do barco. Mais adiante, outros deles desenhavam arcos com seus saltos entre o mar e o céu cor de papaia. Mas a calma no interior daquele labirinto raso de recifes era enganosa. Navegando em mar aberto na noite seguinte, o barco pegou de través ondas com até 3 metros. Ele estremecia a cada golpe, enquanto o vento arrojava-se a 40 nós na escuridão cada vez mais densa e eu fazia tratos com Deus. O farol assinalando North Reef foi avistado bem depois da meia-noite. “Até que enfim, caramba!”, berra o capitão Norm, animado com a perspectiva de segurança. Durante meses, eu tentara analisar os recifes em seus aspectos geológicos, ecológicos e administrativos. Naquele instante, porém, estava apenas grato, e muito, pelo fato de os recifes existirem.
 Na noite seguinte, adormeci com os choramingos das aves pardelas (Puffinus pacificus) na ilha Heron, na porção sul da Grande Barreira. Ali, dezenas de milhares de aves marinhas reúnem-se todas as noites durante a época de nidificação. Nossa longa jornada estava quase no fim. Depois de atravessar a ilha até uma estação de pesquisa mantida pela Universidade de Queensland, conheci Ove Hoegh-Guldberg, líder de uma equipe de pesquisadores que talvez tenha feito uma descoberta fascinante. “Em baixas profundidades, a luz solar deste lugar pode ser bastante tóxica”, explica ele. “Os corais possuem pigmentos especiais para absorver os raios ultravioleta, e as algas que vivem em simbiose com eles escondem-se na sombra, protegendo-se sob aglomerados desses pigmentos. Mas, inversamente, nas profundidades onde a luz solar mal penetra, as algas abrigam-se bem no interior dos aglomerados de pigmentos. Assim, quando estes irradiam de volta a energia luminosa que acumularam, as algas podem usá-la para a sua fotossíntese.” Essa nova irradiação causa a luminescência dos corais – um fenômeno que David Doubilet havia fotografado antes que se conhecesse exatamente como ou por que ele ocorria.
 Ao sair da estação de pesquisa, caminhando pela praia na maré baixa, deparei com algumas pessoas agachadas e escavando a areia como as crianças que constroem castelos. Eram alunos orientados por Adrian Jones, ecologista marinho da Universidade de Queensland. “Vejo esses charcos como grandes folhas verdes”, explica ele. “Todo tipo de algas microscópicas e bactérias fotossintetizantes vive entre os grãos de areia, e nossas medições indicam que elas produzem tanto oxigênio quanto uma área equivalente de cobertura vegetal numa floresta tropical úmida. Também produzem açúcares complexos que ligam sedimentos e ajudam a manter coesa a estrutura dos recifes.”
 Para Doubilet, que sempre foi um explorador do mar, a invenção do equipamento de mergulho abriu os olhos da humanidade para um reino que guardara seus mistérios desde tempos imemoriais. Afundei os dedos dos pés na areia cálida e úmida e pensei seriamente a respeito. Quantas vezes em minha vida eu caminhara por belas e ensolaradas praias tropicais sem jamais imaginar que também suas areias eram uma fronteira quase desconhecida, repletas de criaturas que sobreviveram diante 1 milhão de chances de perecer?
Tudo na Grande Barreira de Corais, enfim, apresenta-se como uma poderosa revelação. Para compreender de fato a fantasia orgânica e sólida que sustenta um recife coralino, talvez precisemos reunir os mais avançados conhecimentos, tecnologias e teoremas disponíveis. Mas talvez então, com ar de entendidos, acabemos apenas por comentar: “Ora, isso é apenas o que a vida na Terra é capaz de produzir quando se juntam água morna, luz solar e tempo”.Douglas H. Chadwick (Revista National Geographic, ed.09, janeiro de 2001).

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