terça-feira, 8 de julho de 2014

NEPAL EM DÚVIDA

Os signos do ocidente coloca o Nepal em um cruel dilema: É melhor preservar as tradiçõs ou aceitar o desenvolvimento?
 Meu amigo nepalês bishnu pratap shah nunca se esqueceu do dia em que quase agrediu um empregado que, involuntariamente, perdera a sua bola de neve. “Eu tinha 9 anos”, lembra-se Bishnu. “Era a minha primeira bola de neve. Mandei que ele a guardasse para mim, mas, quando voltei, o bobalhão disse que ela havia sumido.”O patético incidente aconteceu em 1944, em Katmandu. Não seria muito diferente, porém, se tivesse ocorrido 500 anos atrás. Pois, há apenas 60 anos, na infância de Bishnu, o Nepal ainda era um reino proibido da Ásia. Governado por primeiros-ministros hereditários, os ranas, o país vivia como na Idade Média. A poligamia e o casamento entre crianças eram legais. E não havia aviões nem estradas unindo o remoto reino ao resto do mundo.Bishnu Pratap Shah tinha uma boa razão para querer guardar sua bola de neve. O gelo eterno do Himalaia reluz o ano todo no distante horizonte acima de Katmandu, mas, nas ruas da capital do país, neva em média uma única vez durante toda a vida de um nepalês. “Eu queria levar a minha bola de neve para casa. Quando ele falou que ela havia desaparecido, acusei-o de tê-la escondido. Ele ficou muito confuso. Disse que não conseguia encontrá-la em lugar nenhum. Naquela época, os nepaleses não sabiam que a neve derretia. Também não sabiam que o mundo é redondo.”Em 1987, Bishnu e eu fizemos uma trilha até sua aldeia natal, Maidi, nas montanhas a oeste de Katmandu. Eu era o primeiro americano a pôr os pés ali. As pessoas, na casa de chá local, tinham ouvido falar de uma coisa muito estranha: enquanto o sol brilhava no Nepal, era noite nos Estados Unidos. E eles queriam saber o motivo disso. Para tentar explicar-lhes, pedi uma laranja e uma lamparina Petromax. O dono da loja acendeu a lamparina. “Esta lamparina é o sol”, eu disse. Levantei a laranja. “E esta é a Terra. Ela não é plana; é redonda e gira.” Fiz um sinal em um dos lados da laranja e outro no lado oposto. “Aqui está o Nepal. E aqui estão os Estados Unidos.” Depois girei a laranja. Enquanto eles observavam o Nepal e os Estados Unidos girarem entre a luz e a escuridão, notei o brilho da compreensão em seus olhos, sobretudo nos das crianças.Em minha última visita ao Nepal, percebi uma nova alegria nos olhos de algumas crianças. Num cybercafé chamado K@mandu, elas observavam excitadas telas coloridas de computador. A julgar pela animação coletiva, aquela era uma experiência da qual todos iriam lembrar-se para sempre – tanto tempo quanto Bishnu e sua bola de neve. “Nenhum nepalês jamais viveu ou viverá uma vida como a minha. Meus pais nasceram na Idade Média. Meu filho pertence ao século 21”, resume Bishnu. “O Nepal atravessou séculos da História durante uma única geração.”Em 1990, uma revolução popular finalmente lançou o Nepal para longe dos seus costumes medievais. E, desde esse despertar primaveril, o país tem sido um laboratório de democracia. Em eleições livres com disputas acirradas, os eleitores podem, e conseguem, depor governos que os desagradam.A corrupção, porém, não foi erradicada. Os nepaleses das altas castas e bem relacionados continuam cada vez mais ricos e com melhor educação do que o resto miserável da população. Uma guerrilha maoísta, limitada mas muito persistente, emergiu em alguns distritos remotos das montanhas, estimulada pela pobreza e pelo fracasso político do Nepal em tentar fazer algo para mudar esse quadro.O Nepal é uma das poucas nações do mundo onde os homens ainda têm uma expectativa de vida maior do que a das mulheres. Ao viajar pelo país, as razões dessa discrepância ficam evidentes. Em Katmandu, famílias inteiras amontoam-se em motocicletas. Pais e filhos usam capacete; mães e filhas, não. A dois dias de caminhada de Katmandu, um homem com roupas ocidentais caminha montanha acima, com um rádio de pilha colado ao ouvido. A mulher e a filha seguem atrás, carregando fardos feito animais de carga. Ele usa sapatos; elas estão descalças.A imagem de Shangri-lá, de idílio eterno, continua pairando sobre o Nepal, apesar de tantas mudanças recentes. A realidade, contudo, é diferente. Com 25 milhões de habitantes, o país é mais pobre do que Bangladesh, constante referência de baixa qualidade de vida. A renda média nepalesa é de apenas 210 dólares por ano, uma das mais baixas do mundo. Diante desse quadro, qual a perspectiva do país? A tecnologia será mais importante do que as antigas tradições? É melhor pensar que o rei é um deus ou acreditar que, depositando um pedaço de papel numa urna de votação, será possível transformar a vida?
 No Nepal romântico que conheci nos anos 60, perguntas assim não faziam, na prática, o menor sentido. Nessa época, o país que atravessei a pé – às vezes a cavalo ou de elefante – não era muito diferente do mundo do rei Prithvi Narayan Shah, o déspota gurkha que em 1769 criou o Nepal ao conquistar o vale de Katmandu e anexá-lo a seus domínios nas montanhas. Nas aldeias que visitei, as espingardas de pederneira eram a tecnologia mais avançada e as pessoas acreditavam que a varíola era uma doença causada pela deusa Kali.
 Um dos raros sinais da civilização eram as vozes distantes que brotavam dos rádios transistores. Os aldeões do interior chamavam os satélites orbitais que cruzavam o céu escuro de gumnewalli (andarilhos), da mesma forma que os gregos antigos usavam a palavra planetes (peregrinos) para descrever as muitas estrelas em movimento. Como o nepali é uma língua indo-européia, fiquei feliz ao constatar que, do ponto de vista lingüístico, os nepaleses e eu pertencíamos à mesma família.
 O Nepal globalizado do presente tem MTV, CNN, e-mail. O desenvolvimento – bikas, na língua nepali – trouxe também outras mudanças, mais sutis. “Preciso ficar o tempo todo monitorando o teor de açúcar no meu sangue”, reclama Bishnu, enquanto passeamos de carro por Katmandu. Quando nos conhecemos, Bishnu tinha 28 anos e eu, 22. Agora, no apogeu de seus 60 anos, ele já teve uma vida mais longa que a de seus pais. O caso de Bishnu resume o que, nos anos 60, chamávamos de “dilemas do desenvolvimento”. Embora a medicina moderna tenha salvo milhões de pessoas – inclusive ele – de doenças que matavam muitos nepaleses antes dos 40 anos, o progresso desencadeou novas epidemias. Efeitos colaterais. Em corpos acostumados a escalar montanhas, profissões sedentárias e mudanças alimentares podem descontrolar os níveis de insulina.
 Em Katmandu espalham-se sinais de uma vida de contrastes que simplesmente seriam impensáveis pouco tempo atrás. Há objetos de plástico no lixo – eu e Bishnu nos lembramos do tempo em que o plástico era algo tão raro no Nepal que jamais seria jogado fora. Também há peixes de criadouros à venda, e espinafre, maçãs. Katmandu tem hoje uma poluição que provoca catarro nos pulmões mais resistentes. O trânsito tem quilométricos congestionamentos – de carros, riquixás, animais. Por outro lado, também me alegro com os problemas que desapareceram. O lábio leporino é agora curado por cirurgia. E bastou acrescentar iodo ao sal para eliminar o bócio.
 Com o turismo, já é possível contemplar as paisagens nepalesas de novos ângulos. A bordo de um balão, por exemplo. Decolamos de um local próximo à cidade de Bhaktapur, no leste do vale de Katmandu, num ponto onde a visão do Himalaia envolve os pobres mortais estrangeiros num sonho de pureza eterna – o Nepal dos folhetos turísticos. No sopé das montanhas, porém, onde vivem os nepaleses de carne e osso, formam-se densas nuvens de poluição que ilustram a transformação do antigo vale agrícola num caldeirão urbano.
 Assim como ameaça Bishnu com a diabetes tipo II, o progresso nepalês quase quebrou o meu pescoço. Ao sobrevoarmos uma plantação de batatas, um dos cabos de aço do balão enroscou-se no meu pescoço. Para evitar o choque com um cabo de energia elétrica, tivemos de fazer uma aterrissagem forçada. Os aldeões juntaram-se ao redor, fascinados pelo espetáculo de estrangeiros caindo do céu.
 Enquanto limpo o sangue em meu pescoço, Bishnu descreve o episódio da primeira vez em que viu forasteiros na mesma situação. Foi pouco tempo depois de ele ter “perdido” sua bola de neve. “Milhares de pessoas, numa espécie de transe, correram para um pasto perto de Pashupatinath, o mais importante santuário hindu do Nepal. Os olhos do povo varriam o céu com uma atenção inédita. Jamais tínhamos visto um avião”, lembra-se Bishnu.
 A vida de Bishnu, de fato, ilustra a história recente do Nepal. Seus pais nunca voaram ou assistiram televisão. Mas hoje são comuns os jatos no aeroporto de Katmandu e, para os filhos de Bishnu, voar é um evento tão banal quanto um programa da MTV. Bishnu é, ao mesmo tempo, o garoto que não sabia que bolas de neve derretem e o homem com um endereço eletrônico. Assim, sua descrição daquele primeiro avião sintetiza a dimensão da transição nepalesa. Foram pessoas e máquinas, e não deuses e mágicas, que mudaram o Nepal. Para o bem ou para o mal. Para sempre.
 O Nepal subverteu as concepções acadêmicas de desenvolvimento. As coisas modernas foram introduzidas como que vindas do nada, numa ordem estranha. Nos chuvosos desfiladeiros do planalto do Himalaia e nas terras baixas do sul, os aviões foram notícia antes dos tratores, dos telefones e das estradas. A primeira aeronave desceu no Nepal em 1949, mas só sete anos depois uma estrada ligaria Katmandu ao mundo exterior. Na remota região oeste do Nepal, que conheci nos anos 60, as pessoas escutavam os Beatles em gravadores a pilha antes mesmo de terem visto iluminação elétrica. Os helicópteros adejavam em suas vidas antes de os primeiros caminhões chegarem lá.
 Menos de um ano depois daquela primeira aterrissagem, a autocracia Rana foi deposta com a ajuda de um avião. Na prática, os primeiros-ministros ranas haviam mantido os reis do Nepal como prisioneiros, usando a condição divina do rei para legitimar seu próprio poder. Mas os reis hindus e alguns meros mortais nepaleses conseguiram, literalmente, voar para longe. Em novembro de 1950, o rei Tribhuvan escapou do Nepal como um pássaro fugiria para a liberdade. Voltou apenas com a condição de que, segundo suas próprias palavras, “o governo do nosso povo seja, daqui por diante, conduzido de acordo com uma constituição democrática”. Hoje, o aeroporto internacional de Katmandu leva o seu nome.
 Filho e sucessor de Tribhuvan, o rei Mahendra governou entre 1955 e 1972. E alimentou contrastes em seu reinado. Dificultou a democracia ao mesmo tempo que abriu o espírito dos nepaleses para idéias estranhas, introduzidas no país por gente de origens e atividades diversas – de viajantes estrangeiros a epidemiologistas. E, em outro aspecto, também o rei Mahendra viveu em parte na Idade Média e em parte no futuro. Ele e sua mulher, a rainha Ratna, talvez tenham sido o primeiro casal nepalês a fazer uso do controle de natalidade. Antes deles, as pílulas anticoncepcionais eram compradas por diplomatas no exterior. Agora, pílulas e camisinhas são encontradas em todo o Nepal.
 O rei Birendra, filho de Mahendra e atual soberano do país, herdou o trono de seu pai numa época em que cada vez mais nepaleses mostravam-se pouco dispostos a aceitar o velho paternalismo do reino. Até então, os protestos populares eram sufocados. Mas, durante a revolução popular do Nepal, na primavera de 1990, o rei Birendra teve de enfrentar a escolha entre aceitar mudanças fundamentais ou ser varrido por elas. Piloto de helicóptero e maníaco por vídeos de ação e aventuras, Birendra aceitou as transformações. E assim, como Bishnu e muitos de seus súditos, atravessou três eras distintas. Foi monarca absoluto e hoje é monarca constitucional.
 O papel de Bishnu também mudou. Quando nos conhecemos, ele era um jovem burocrata no governo do rei Mahendra, um sistema autocrático concebido para impedir que a média da população elegesse seus representantes políticos. Nessa época, o poder fluía absolutamente de cima para baixo. A palavra do rei, e não a vontade do povo, era soberana. Hoje Bishnu é o chefe da comissão eleitoral independente do Nepal. Sua tarefa é garantir que a voz de todos os nepaleses seja ouvida, não importa o quão pobres ou humildes sejam eles. “Meu problema é como conseguir tinta indelével para os 12 milhões de eleitores do país. A maior parte dos eleitores é analfabeta, e não podemos usar a assinatura para saber quem está trapaceando. Temos de manchar suas mãos. É assim que impedimos as fraudes”, ele explica.
 Até pouco tempo atrás, levaríamos semanas para chegar ao distrito de Bardia, no sudoeste do Nepal. Agora a viagem dura apenas um dia de carro, a partir da sede do governo nacional, em Katmandu. Bardia fica no tarai, uma floresta de transição entre a planície do Ganges e a cordilheira do Himalaia. Antes, a região era chamada jungli (selvagem, indômita), por ser uma vasta área onde a malária proliferava sem controle. Mas hoje, em Bardia, pode-se caminhar por horas e horas sem avistar nenhum sinal da selva original. Em vez das árvores, passamos por campos amarelos de mostarda em flor e encontramos bandos de crianças saltitantes em uniformes escolares azuis e brancos. Bardia tornou-se uma espécie de refúgio ensolarado para onde os povos das montanhas vão em busca de uma vida nova e melhor.
 Na última vez em que estive por lá, nos anos 60, Gulariya, a nova capital de Bardia, não passava de um aglomerado de choupanas de palha no meio da selva. Hoje, o antigo povoado tem o tumulto e a sujeira de uma florescente cidade-mercado. Camelôs apregoam fitas cassete, xampus e até sabonetes. Lembro-me de que, na minha primeira visita a Gulariya, uma multidão curiosa formava-se ao redor dos privilegiados que ousavam tomar banho em público com um sabonete. No tarai, como nas montanhas, os nepaleses estão vivendo experiências que, em muitos casos, nada têm a ver com velhos estereótipos de tribos e castas.
Décadas atrás, diante da falta de opções, homens cobiçavam uma vaga entre os mercenários gurkhas que eram recrutados pelos exércitos britânico ou indiano. As nepalesas pobres, por sua vez, povoavam os bordéis da Índia. Na hierarquia do país, o poder concentrava-se nas mãos do alto escalão de brâmanes e xátrias – membros das castas dos sacerdotes e dos guerreiros, como Bishnu –, e dos newars do vale de Katmandu.
 A vida eclética de Sundar Kumar Thapa, um homem da tribo magar, ilustra bem essa mudança radical de valores. Sundar é naturalista e gosta de praticar rafting nos rios de corredeiras agitadas que descem do Himalaia. Tornou-se um astro popular. “Já ganhei 15 medalhas em competições internacionais. Meu sonho é liderar a equipe do Nepal nas Olimpíadas”, diz. “E, como artista, tenho muitas músicas gravadas.” Peço a ele que toque uma de suas fitas. Com voz firme de tenor, ele entoa canções tradicionais com arranjos modernizados, numa mescla interessante de estilos musicais.
 A colonização do distrito de Bardia por montanheses como Sundar foi possível por causa de três grandes mudanças: a construção de estradas, a campanha para a eliminação do mosquito transmissor da malária e o desflorestamento. O mosquito, indiretamente, era o protetor mais eficaz da selva – e do elefante, do tigre e de outros animais. Como impedia a ocupação humana, o inseto serviu de guarda contra a derrubada das árvores e a erosão dos morros.
 Quando visitei o tarai em 1966, já havia o plano de tentar acabar com a malária e desenvolver a região. A doença tropical, na verdade, nunca foi erradicada totalmente. Mas o controle sobre ela permitiu que os agricultores das montanhas colonizassem as planícies. Enquanto isso, os países que davam ajuda financeira ao Nepal lançaram o maior projeto de obras públicas da história do país: uma rodovia que unisse, de leste a oeste, todo o território nepalês. Ano após ano, as equipes de construção das estradas avançaram cada vez mais por áreas selvagens. A cada estação seca, a rodovia Leste–Oeste chegava mais perto de Bardia.
 Aos olhos do mundo, o Nepal representava um sonho de pureza. O isolamento, a beleza de suas paisagens e a cultura tradicional cobriam o país com uma aura de paraíso isolado de todos os problemas terrenos. O exemplo da região de Bardia, antes tão remota, revela que agora não há mais como fugir dos dilemas da humanidade. O papel do Nepal, assim como o de seus habitantes, sofreu uma inversão. Não mais isento das complicações universais, o país tornou-se uma encruzilhada na qual se chocam duas tendências contraditórias. Uma delas é a procura por uma vida melhor com base na exploração dos recursos terrestres. A outra é o fato de que, se não passarmos a tirar menos e dar mais em troca, nós próprios iremos nos tornar uma espécie ameaçada.
 Os nepaleses procuram saber se há meios de conciliar essas realidades conflitantes, comuns em tantas outras sociedades do mundo. No Parque Nacional Real de Bardia, os ambientalistas tentam restabelecer um equilíbrio natural há muito desaparecido. Em 1986, os rinocerontes foram reintroduzidos no tarai ocidental, depois de serem levados para lá de caminhão do último hábitat que lhes restara, em Chitwan, a 300 quilômetros de distância.
 No nascer do sol, enquanto evapora a névoa dourada, Sundar e eu observarmos emocionados, sentados no alto das costas de um elefante, os rinocerontes revolvendo seu solo de origem. Mais uma vez, porém, o que começou como uma aventura quase acabou com um desfecho fatal. Zangado, um elefante macho começa a investir contra nós, acuando-nos contra a saliência de um rochedo acima do rio Karnali. Toda vez que o elefante se prepara para investir, Pardesi, nosso mahout (guia), espera o momento apropriado e o golpeia entre os olhos com um pedaço de pau. Ao mesmo tempo, cobre o enorme animal de impropérios em nepali. “Ele rouba nossa comida; ele destrói nossas cercas”, cochicha Paresi, com gotas de suor brilhando no pescoço. “Ele é badmas, ruim.”
 Depois de escaparmos dessa nova enrascada, fico me perguntando o que afinal estaria acontecendo nessa viagem ao Nepal. Por que tantas coisas estão dando errado? Concluo que a resposta é: bikas, desenvolvimento. Torres de alta tensão em Katmandu – um perigo para os balões de ar quente. E, aqui no tarai, estradas que levam colonos às terras dos elefantes – há pouco tempo, a selva era quase intocada.
 Apesar do intenso corte de árvores no tarai, o Nepal deve ter hoje mais florestas do que há uma geração. Milhões de árvores novas cobrem as colinas ao redor de Katmandu, que foram desmatadas durante o período Rana. Esse detalhe refuta a idéia de que os problemas ambientais do país começaram com o final de seu isolamento. A responsabilidade pelas florestas foi descentralizada nos últimos anos. Com isso, até no tarai os sinais de conservação são promissores. “Na época em que a selva era controlada pelo governo, ela não era de ninguém. Agora que ela nos pertence, cuidamos para que ninguém derrube as árvores”, conta-me um líder comunitário de Gulariya.
Um outro exemplo dessa nova mentalidade está em Bhaktapur, a terceira maior cidade do vale de Katmandu. Bhaktapur está repleta de maravilhas artísticas e arquitetônicas – como o pagode de cinco andares da cidade, o mais alto no Nepal. São tantos outros prédios históricos importantes que a Organização das Nações Unidas (ONU) incluiu a cidade entre os locais designados como Patrimônio da Humanidade. A degradação ambiental, porém, vinha deteriorando pouco a pouco esses tesouros. Por isso, o conselho municipal adotou uma estratégia para reverter a decadência – ao contrário de Katmandu, onde o crescimento descontrolado resultou em poluição atmosférica e ruas barulhentas e congestionadas. Em Bhaktapur, os motores de combustão interna foram banidos do centro histórico da cidade. E as velhas casas de estuque e madeira estão sendo preservadas, em vez de serem derrubadas para dar lugar a prédios vulgares de concreto.
 Também presenciei na cidade um episódio ocasional que me emocionou profundamente. Perto do pagode, ouvi o estalido de vidro chocando-se com vidro e, depois, uma animada conversa de garotos na praça Durbar. Eles jogavam bola de gude. O barulho agradável de crianças brincando na rua, felizes, livres da agitação e do perigo de caminhões em trânsito, me trouxe a lembrança do Nepal que eu conhecera no passado. A pureza da cena evocou algo da inocência que, com o tempo, desaparece de cada um de nós. Infelizmente.
 Inúmeras vezes, ao considerar todas as questões ambíguas que pairam sobre o Nepal, penso no carteiro que conheci há mais de 30 anos, quando Bishnu e eu viajávamos pelas colinas ao norte de Surkhet. Lembro-me da destreza de seus pés ao caminhar e de um longo tridente de ferro que lhe servia de cajado, arma e símbolo de sua função. Eu arfava para subir uma montanha – que os nepaleses chamam de colina, mesmo que tenha 3500 metros de altura! – quando ele nos ultrapassou com uma naturalidade absurda, como se a trilha íngreme e perigosa fosse plana. Envergava um topi, o boné nepalês, e largos calções militares gurkhas de cor cáqui. Trazia a mala de carteiro jogada às costas. Era pouco provável que soubesse ler as cartas que estava carregando, mas não havia dúvida, pelo caráter gravado em sua fisionomia, que se podia confiar a ele um envelope contendo 1 milhão de dólares. Sob seus cuidados, qualquer encomenda chegaria com segurança ao destino, não importando quantas semanas ou meses ele levasse até lá.
 Por causa de lembranças como essa, às vezes sinto que o país que conheci durante todos esses anos deve ser invisível. O Nepal de minha lembrança não é, nem de longe, a terra de sherpas que ajudam corretores da bolsa americana a escalar o monte Everest – a um custo de 60 mil dólares por cabeça. O Nepal que conheço é exatamente o que Bishnu disse: um reino de contrastes, que passou da Idade Média para o terceiro milênio no espaço de uma única geração. E agora é um país do Terceiro Mundo, pobre, onde as coisas não parecem bem resolvidas.
 Os nepaleses vivem num mundo em que não há mais como voltar atrás. O grande problema na vida ali deixou de ser a falta de contato com o mundo exterior. Em vez disso, os nepaleses – assim como todos nós, americanos ou brasileiros – descobriram-se diante dos dilemas elementares dos tempos modernos. Abertura para o mundo exterior, mas a que preço social e ambiental? Liberdade, mas para fazer o quê?
 Antes que fique rotulado no futuro apenas como um paraíso perdido, o Nepal tem algumas opções. Plantar bastante alimento no tarai. Reflorestar as montanhas. Despoluir Katmandu. Uma dose saudável de turismo e comércio de seus belos tecidos. Algumas usinas hidrelétricas e alguns computadores. Poder para o povo, sempre que possível. Muito menos corrupção. E, acima de tudo, educação.
 No fundo, o Nepal do carteiro jamais voltará. A população não quer esse passado de volta. Mas eu ainda vejo o lugar do mesmo jeito que vislumbrei aquele homem caminhando montanha acima. Seu tridente era o emblema de um Nepal que, embora não tenha desaparecido completamente, continua recuando, cada vez mais alto, nas brumas do Himalaia.
T. D. Allman (National Geographic, edição 007).

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