sexta-feira, 11 de julho de 2014

A VIDA MADE IN SAMOA

A primeira reserva natural dos Estados Unidos no hemisfério sul, o parque de Samoa tenta preservar um arquipélago paradisíaco
       As águas do oceano Pacífico cobrem um terço do planeta. No meio dessa vastidão azul, nos mares da Polinésia, desponta uma pequena ilha conhecida como Ofu. Embora formada por imponentes blocos de rochas vulcânicas, Ofu é recoberta pelo verde intenso de sua exuberante vegetação tropical. Os contornos da ilha são um tanto suavizados pelas brumas que rondam o alto das montanhas, de onde rompem cataratas em direção ao mar.Estou boiando a alguns metros da praia, as pontas dos dedos ancoradas bem de leve na areia. A poucos centímetros da minha máscara de mergulho, cardumes de peixes-gatilho nadam sobre colônias de coral.Mantenho a parte superior da máscara acima da água, observando as gotas de chuva morrendo na superfície do mar. Mais além, palmeiras frondosas se espalham numa praia branca, no ponto onde Ofu se estreita em direção à sua ilha irmã, Olosega. Não há ninguém na praia. Apenas gordos caranguejos abrem cocos caídos com suas garras, para depois se fartarem com a polpa doce.Eu bem poderia ficar assim, horas e horas numa mesma posição, apenas contemplando esse ainda desconhecido paraíso dos trópicos: o Parque Nacional da Samoa Americana, uma das mais espetaculares reservas naturais dos Estados Unidos. Escritas em samoano, tabuletas na entrada do parque recém-criado resumem parte do espírito desse lugar. Nelas está grafado: “Paka o Amerika Samoa” (Parque da Samoa Americana) e “Laufanua Fa‘asaoina” (Terra Preservada). Ouço depois os nativos dizerem que a própria palavra samoa significa “centro sagrado”. O estado selvagem da natureza daqui realmente justifica todas essas referências.Compõem o arquipélago de Samoa 16 ilhas dispostas sobre o azul do Pacífico, 4200 quilômetros distantes das praias do Havaí e 2900 quilômetros além da costa da Nova Zelândia. Essas ilhas longínquas e suas orlas de coral são o topo de uma cadeia de vulcões que se ergueram do leito oceânico, jorrando lava à medida que as placas da crosta terrestre se deslocavam. Diz uma crença samoana que o mundo começou aqui: a partir de uma pedra, o criador Tagaloalagui fez surgir o céu, a terra e o mar. Depois o mesmo deus polinésio criou o primeiro ser humano.As lendas ilustram bem o passado cercado de mistérios, os tempos a que remontaria a origem dos ilhéus. Os elos lingüísticos e os artefatos arqueológicos já encontrados sugerem que a primeira cultura polinésia pode ter se desenvolvido aqui, cerca de 3 mil anos atrás. Nos séculos seguintes, navegadores, viajando em barcos de quilha dupla carregados de porcos, cães e frutas, difundiram essa cultura pelo Pacífico, colonizando locais distantes como o Havaí e a ilha de Páscoa.Os estrangeiros começaram a chegar – e ficar – na segunda metade do século 19, época em que algumas ilhas a oeste do arquipélago caíram sob domínio de colonizadores alemães e, depois, de neozelandeses. Em 1962 essas primeiras ilhas ocupadas se tornaram uma nação independente, a Samoa Ocidental, hoje conhecida apenas como Samoa. Já os Estados Unidos tomaram posse da metade oriental do arquipélago em 1900. A maior ilha desse trecho é Tutuila – a Marinha americana manteve ali uma base, no porto de Pago-Pago, até 1951. Cem quilômetros de mar separam Tutuila de Ofu, Olosega e Ta‘¯u, três ilhas conhecidas em conjunto como Manu‘a. Por muito tempo, Manu‘a foi um poderoso reino independente. E também é considerado o local do nascimento da Polinésia, de acordo com o folclore samoano.Tutuila e Manu‘a formam a Samoa Americana, onde vivem hoje cerca de 64 mil pessoas. Um território que tem suas próprias leis, um governador eleito e um representante no Congresso americano.Única reserva natural dos Estados Unidos no hemisfério sul, o Parque Nacional da Samoa Americana foi concebido para proteger não apenas as riquezas naturais, mas também a cultura polinésia dos nativos. Animais e plantas oriundos do sudeste da Ásia são típicos das florestas locais. O recife de coral ao redor das ilhas é mais rico em espécies do que os similares do Pacífico. E os costumes e os conhecimentos que definem o fa‘a Samoa, o modo de vida samoano, estão entre os recursos humanos preciosos de um parque ainda em formação. Criado em 1988, ele recebe por ano menos de 500 turistas estrangeiros. É verdade que já foram abertos em Pago-Pago, a capital do território, um escritório e um centro de visitantes. Mas ainda faltam guias e trilhas demarcadas.
 Como uma mortalha perene, as nuvens cobrem os 966 metros do cume do monte Lata, na ilha de Ta‘¯u, o pico mais alto da Samoa Americana. Chove muito nas encostas desse vulcão e suas matas úmidas e banhadas de sol funcionam como uma estufa, onde resiste uma abundante vegetação. Suando para escalar a montanha, Chris Stein, superintendente do parque, fala comigo num sussurro: “Acho que vamos abrir uma trilha, mas não exatamente aqui. Veja o motivo com seus próprios olhos”. Diante de nós abre-se uma cratera na rocha. No seu interior, morcegos guincham e assobiam, dependurados lá no alto, com asas de quase 1 metro de envergadura. Apesar do nosso cuidado, perturbamos o ninho onde se recolhem durante o dia esses morcegos frutívoros (Pteropus tonganus), conhecidos como “raposas voadoras de pescoço branco”.
 Um outro morcego, o Pteropus samoensis, é mais arisco e ativo durante o dia. Conhecido como “raposa voadora”, ele costuma ser visto sobrevoando a copa das árvores feito um falcão. Os contos folclóricos apresentam esses animais como guardiães e, do ponto de vista ecológico, eles de fato cumprem esse papel. Sendo os únicos mamíferos terrestres nativos de Samoa – além do morcego Emballonura semicaudata –, eles ajudam a conservar as florestas, polinizando e distribuindo sementes por boa parte da vegetação da ilha.
 Os caçadores são uma ameaça para esses enormes morcegos. A situação é ainda mais grave na vizinha ilha de Samoa, onde quase dois terços das florestas primárias foram derrubados para a extração e o comércio de madeira e agricultura. Para piorar, os furacões do oceano Pacífico dizimaram a já reduzida população de Pteropus samoensis, levando-a a um nível perigosamente baixo. O desejo de salvar essas duas importantes espécies foi um fator decisivo para a criação do parque nacional.
 Stein e eu descemos então para o vale, caminhando entre os fiapos de neblina que descem do monte Lata. O piar estridente dos pássaros rabo-de-junco produz um estranho eco contra as paredes de pedra nua. Entrando mais fundo no vale, sentimos o ar parado – de repente, a impressão é a de que voltamos ao começo do mundo. As trepadeiras vão se fechando em torno de nós. Samambaias de 9 metros de altura bloqueiam a luz que vem do alto.
 “É aqui”, brinca Stein, naquele local quente e sombrio, “que nós guardamos nossos tiranossauros.” Sem contar os animais marinhos – como uma tartaruga do tamanho de um baú que eu vi se alimentando de algas numa baía –, os únicos répteis que existem em Samoa são lagartos e lagartixas. As cobras concentram-se apenas na ilha de Ta‘¯u, mas já foram avistadas enguias de água doce deslizando pelo solo da floresta em dias de chuva, às vezes levando na boca um rato capturado há pouco.
 A faixa marinha do Parque da Samoa Americana corresponde a quase 15% do litoral das ilhas, enquanto os trechos terrestres ocupam mais de 16% dos 200 quilômetros quadrados do território. Perguntei-me como tamanha influência americana é possível se o governo não tem em Samoa quase nenhum pedaço de terra? As ilhas pertencem a famílias samoanas e, por lei, não podem ser transferidas a estrangeiros. O governo americano só tem jurisdição sobre as águas territoriais. Para resolver a questão, o Serviço de Parques Nacionais criou um sistema de arrendamento. Assim, conseguiu controlar as áreas marinhas, os lotes ocupados pela administração do território e outros terrenos que formavam oito aldeias diferentes. E definiu os contornos do parque de 4250 hectares.
 "Nosso encontro é sagrado como o encontro de duas nuvens no céu. É como a união das tartarugas marinhas: silencioso e imóvel. Tão sagrado como o primeiro orvalho da manhã...” Estou na aldeia de Vátia, no litoral norte de Tutuila, acompanhando o início da cerimônia do ‘ava. Percebo que as expressões poéticas são valorizadas na linguagem formal samoana. E representam, de certa forma, uma verdadeira forma de arte local.
 Cada aldeia tem seu próprio orador. Suas palavras se entrelaçam como longos fios brilhantes, unindo os ancestrais da família e as forças espirituais. Ele também fala de assuntos cotidianos. Vestindo um pano semelhante a uma saia, conhecido como lavalava, e com o corpo marcado por tatuagens tradicionais, dois chefes e outras figuras importantes da aldeia sentam-se numa grande casa oval, aberta de um lado para a baía e de outro para as imponentes encostas cor de esmeralda. A casa está exposta aos ventos que trazem o aroma de sal mesclado ao perfume de flores. Usando meu lavalava, sento-me junto a Chris Stein e Leota Vaea Ainu‘u – na época o único guarda florestal do parque.
Segundo a lenda, a cerimônia original do ‘ava realizou-se entre o primeiro homem da terra e o Criador, que preparou uma bebida feita de raízes de kava-kava, um tipo de pimenta. Desde então, oferecer a alguém essa bebida adstringente, de cor marrom e levemente entorpecente, é um símbolo de comunhão e boas-vindas. Enquanto os homens comuns de Vátia preparam uma festa ao ar livre, uma jovem com um enfeite de penas na cabeça – a virgem cerimonial – espreme o suco da raiz da kava-kava numa vasilha entalhada. Um homem me serve então esse líquido.
 Levanto a vasilha num gesto de agradecimento e bebo tudo num só gole. Palavras generosas acompanham a troca de presentes – finas fazendas, belas esteiras tecidas. Em seguida, servidas em travessas de folha de bananeira, chegam as iguarias. Não conseguimos dar conta das porções de leitão assado, fruta-pão, mamão papaia, inhame e pudim de coco.
 “Tudo o que Deus nos proporcionou ficamos felizes de compartilhar com os outros”, proclama Tuiasosopo, o orador da cerimônia. Ele não fala apenas daquela abundância de comida. Refere-se também às terras e ao mar que há 12 anos se transformaram numa reserva natural.
 Todos os proprietários das terras incorporadas ao parque recebem uma quantia anual pelo arrendamento e podem continuar a desfrutar dos alimentos silvestres e dos recursos das matas e do mar. A agricultura de subsistência também é permitida, desde que seja limitada às áreas que já eram cultivadas no passado. A pesca não-comercial é legal, assim como a construção dos abrigos tradicionais para os agricultores. O contrato de arrendamento tem duração de 50 anos e é passível de renovação por consentimento mútuo. Durante esse período, qualquer família que fique insatisfeita com o arranjo pode retirar suas terras do parque, desde que o faça com um aviso prévio de um ano.
 Deixo a aldeia de Vátia para explorar outra área do parque, perto do monte ‘Alava. Os céus se abrem e começam a despejar uma chuva grossa como uma cortina. A trilha íngreme e desbastada a golpes de facão se transforma em pura lama. Nunca na minha vida decaí tanto de status e tão depressa – há pouco eu era homenageado num banquete; agora estou todo coberto de barro, escorregando sentado na lama, com uma mão tentando firmar-se no chão e a outra em busca de ramos e galhos para se agarrar. Mas o ar está cálido como sempre e eu me consolo sabendo que foram essas chuvas que formaram a floresta em torno de nós, com suas árvores carregadas de orquídeas e cipós enrodilhados. No solo fértil, o gengibre bravo dá flores de um laranja cor de fogo. Os samoanos usam como xampu a seiva gelatinosa desses botões de flor. Como, na prática, já estou debaixo de um chuveiro natural, decido lavar a cabeça e começo a me ensaboar.
 Meu guia, Siaifoi Fa‘aumu, do Departamento de Recursos Marinhos e Naturais, aponta para um asplênio, uma das 230 espécies de samambaia e suas parentes encontradas em Samoa. No centro de suas largas folhas há uma ave, um filhote de mergulhão. De repente dou mais um passo e, logo abaixo dos meus pés, vejo a montanha despencar num penhasco. Consigo distinguir mergulhões, fragatas e trinta-réis planando, aproveitando os ventos marinhos, de volta de seus locais de pesca. Uns 30 metros abaixo de onde estou as ondas se quebram contra as rochas.
 Nas encostas íngremes da ilha, a floresta permaneceu em boa parte intacta, poupada da destruição causada pela derrubada das árvores e pela agricultura intensiva – atividades que, em Samoa e outras ilhas do Pacífico Sul, foram depositando sedimentos nos recifes de coral em alto-mar.
 O recife de coral ao longo da ilha de Ofu é um intrincado labirinto onde reinam 64 variedades de coral. Conjuntos de espécies antigas, coloridas e de formas variadas, se avultam, enormes como baleias. Decido partir para o mergulho livre, passando pelos canais submarinos entre os corais, fascinado com os peixes-unicórnio, uma enguia listrada e tartarugas-verdes. Um cardume de minúsculos peixes-donzela circula como névoa em torno das colunas do coral Acropora, que lembram estalagmites brotando do tampo de uma mesa.
 Passeando pela praia no dia seguinte, encontrei Mafuta Tili Vo‘a, uma mulher que colhe plantas silvestres para praticar o fofo, a tradicional arte da cura de Samoa. Sua mãe, uma parteira, ensinou-a a usar as plantas medicinais para exorcizar os maus espíritos. Agora é a vez de Mafuta transmitir esses conhecimentos aos filhos. “Às vezes as enfermeiras mandam pacientes da clínica para mim”, conta ela. “Mas não basta apenas conhecer as plantas medicinais. É preciso também sentir que Deus está agindo através de você.”
Mafuta personifica perfeitamente a fusão entre as antigas tradições polinésias e os ensinamentos dos colonizadores cristãos. Os missionários protestantes chegaram às ilhas da Samoa Americana mais de um século atrás. Desde então, as igrejas passaram a desempenhar papel proeminente na vida das aldeias. Tal fato contradiz a imagem que se faz de seus habitantes: a de uma gente desinibida e habituada ao uso de poucas roupas – uma reputação alimentada por apimentadas histórias de marinheiros e reforçada pelo livro de Margaret Mead, Coming of Age in Samoa, que trata da sexualidade dos adolescentes locais.
 Na verdade, muitos dos viajantes estrangeiros que passaram a chegar depois da criação do parque ficam completamente atônitos ao descobrir que em Samoa ainda se considera leviano as mulheres usarem shorts, blusas curtas ou mesmo maiôs de banho. Também não é aconselhável nadar ou divertir-se perto das aldeias aos domingos, um dia sempre reservado para as visitas de família, as festas e os cultos religiosos.
 Todos os dias da semana se encerram com cerca de 15 minutos de oração e reflexão, sob o comando dos mais velhos. Nas aldeias, os sinos dobram e os ilhéus silenciam, até que os únicos sons que restem sejam os das orações, murmuradas ao ar livre e pontuadas pelo trinado dos pássaros, enquanto os últimos raios de sol vão subindo até os penhascos.
 Outra peculiaridade do cristianismo em Samoa é a generosidade irrestrita. Se você demonstrar sede, com certeza alguém vai lhe oferecer um coco verde cheio de água. E, mesmo que não aparente estar faminto, muita gente desconhecida o convidará para almoçar ou jantar em sua casa.
 “No início os turistas ficam desconfiados, achando que os nativos queiram lhes extorquir algo em troca”, diz o superintendente do parque, Chris Stein. Para conhecer melhor a gente samoana, os visitantes são incentivados a hospedar-se em aldeias próximas à reserva, em modestos alojamentos ou nas casas para visitas que a maioria das famílias mantém para os amigos e parentes. Na casa de Ta‘au‘au Utuone, vizinha da curandeira Mafuta, aprendo a fazer um cesto de apanhar peixes usando as raízes altas de uma árvore da floresta trançadas com fibras de coco. Os benefícios financeiros obtidos com os alojamentos e as refeições revertem diretamente para as comunidades locais.
 Mesmo assim, nem americanos nem samoanos desejam transformar o Parque Nacional da Samoa Americana numa atração para as massas. O excesso de visitantes poderia exercer uma pressão perigosa sobre o meio ambiente e destruir a atmosfera tranqüila e discreta das ilhas. “Considero a reserva um instrumento para conservarmos a sabedoria e a cultura de Samoa”, diz o parlamentar Eni Faleomavaega. “Não me interessa um desenvolvimento rápido, que acabará nos matando.” Tauese P.F. Sunia, o governador, acrescenta: “Nossas terras são limitadas, mas a população está explodindo. Precisamos preservar os recursos do arquipélago e, para isso, o parque é a melhor solução”.
 Naturalmente, nem todos compartilham essa opinião. Sentado à sombra de uma palmeira numa praia de Ofu, Toeaina Faufano Autele, representante no corpo legislativo do território, proclama: “Não precisamos que alguém de fora nos diga o que fazer com nossa terra. As pessoas estão começando a perceber que haverá restrições. A administração do parque já disse que, se eu quiser construir, não vou poder retirar pedras da parte da praia que sempre pertenceu a minha família. Ouvi dizer depois que não podemos instalar canos para levar água para outras famílias. Não me importo que os turistas usem minha propriedade. Eles são bem-vindos, pois essa é nossa tradição. Mas, por favor, tirem a minha terra do parque”.
 O guarda florestal Leota, porém, vê no parque mais oportunidades do que problemas. “Os chefes de todas as aldeias vieram conversar conosco”, diz ele. “A maioria concorda com o atual sistema. A razão pela qual a reserva não está aumentando é que não queremos arrendar trechos de terra isolados. É preferível ampliar as áreas já existentes. Mas, para isso, o Congresso precisa rever as fronteiras do parque.”
 No sistema de reservas naturais dos Estados Unidos, o Parque Nacional da Samoa Americana é o primeiro a ter como base o arrendamento de terras. Esse conceito, porém, já está sendo testado em outros lugares. Diversas populações nativas do Alasca, do norte do Canadá e também de outros países receberam o direito de continuar morando nas reservas e delas extrair sua subsistência. Um exemplo é o Parque Nacional Great Basin, inaugurado em 1986 no estado de Nevada, que permite a antigos moradores a criação de carneiros e outras atividades econômicas. Há também vários programas do Serviço Nacional de Parques, menos conhecidos, que ajudam a financiar e coordenar os esforços de diversas agências estatais e grupos particulares voltados para a preservação da natureza.
 Vou refletindo sobre as contribuições do Parque Nacional da Samoa Americana enquanto caminho à beira do mar em Ta‘¯u. A praia é margeada pelas árvores futu, de grosso tronco e grandes flores arroxeadas polinizadas pelos morcegos. Cada flor desabrocha durante apenas um ou dois dias, antes de murchar e cair. Juncando o chão da floresta com seus longos estames, as flores caídas lembram anêmonas-do-mar varridas por uma onda. Os moradores costumavam colher os frutos da árvore futu, macerá-los e atirar essa mistura nas águas rasas para apanhar os peixes entorpecidos pelo veneno.
 O caminho pela floresta atravessa pequenas plantações de inhame, coco e banana. Saio da mata, chego a uma ponta rochosa e me vejo de frente para a arrebentação – quilômetros e quilômetros de vagalhões, vindos diretamente do Pacífico para enrodilhar-se e quebrar contra a lava escura e as praias virgens ao pé das montanhas. Depois de 1 hora de caminhada pela praia, salto de uma pedra coberta de musgo e mergulho numa piscina natural, sob uma cachoeira de 300 metros. Ao voltar à tona, espalhando água à luz do sol, percebo que este é o lugar encantado com que sempre sonhei, mas quase perdera a esperança de encontrar. O sucesso do Parque Nacional talvez perpetue essa minha inocente visão do paraíso nessas ilhas remotas do Pacífico Sul.

 Douglas H. Chadwick (Revista National Geographic, edição 03, julho de 2000).

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