quarta-feira, 23 de julho de 2014

INDÚSTRIAS DE BENS DURÁVEIS

A indústria de bens duráveis  se refere ao setor responsável pela produção de mercadorias de longa duração, tangíveis e de valor considerável pela necessidade de seu uso pelos consumidores, sendo o produto descartado após um longo período de tempo ou longo processo de deterioração. Essa indústria produz, por exemplo automóveis e eletroeletrônicos.
Produz bens tangíveis e duradouros, diferente do setor de bens semi-duráveis responsável pela produção de roupas, calçados, celulares, entre outros. A indústria de bens duráveis é um dos setores estratégicos para o crescimento econômico de um país.
 Em 2010, as projeções positivas para o setor de bens duráveis ajudou a impulsionar a indústria da transformação, segundo análises da FGV (Fundação Getúlio Vargas). A intenção de elevar o investimento na Indústria da Transformação era de 55% em 2011, como planejamento para atender ao crescimento da indústria de bens duráveis.
 O setor mais impulsionado foi o de material de transportes, parte da cadeira da indústria automotiva, muito incentivada pela equipe econômica do Governo Federal por meio dos cortes do IPI sobre a produção de automóveis no país adotados nos últimos tempos.  Em 2010, já era planejada altas nas estimativas de investimentos e de pessoal na indústria de bens duráveis brasileira.
 Desde então, com mais material de produção, equipamentos e pessoal, o setor estaria preparado para aumentar a produtividade, atender à crescente demanda e tentar vencer a concorrência dos produtos importados, principalmente, da China.
 Com maior capacidade produtiva, o setor ganha em competitividade, incluindo, principalmente, os aspectos de qualidade e custos. Porém, em 2011, esse setor no Brasil foi atingido pela crise financeira mundial eclodida em 2008, deixando um clima de incertezas sobre 2012.
 Porém, com a manutenção de cortes tributários, como a isenção de IPI, o setor conseguiu recuperação em 2012, obtendo o melhor resultado entre os quatro setores indústrias existentes no país. Em junho do mesmo ano, o setor obteve alta de 4,8%, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), após duas quedas verificadas em abril (-0,4%) e maio (-2,1%).
Fernando Rebouças.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

TENTATIVAS DE PAZ ENTRE ISRAEL E A PALESTINA

Já houve tentativas de paz entre Israel e Palestina?
Sim, e a mais importante foi realizada há 20 anos, em setembro de 1993, durante um encontro histórico na Casa Branca. O conflito começou no início do século 20, quando judeus começaram a comprar terras na Palestina. Nos anos 1930, 170 mil judeus já viviam na região, e os desentendimentos começaram a surgir. Em 1948, após o fim da 2ª Guerra Mundial, esse grupo formou um novo país, Israel, e o espaço palestino foi ficando cada vez menor - eles passaram a ocupar pedaços estreitos e separados de território, como a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. Isso desencadeou o conflito entre as duas etnias. Em junho de 1967, aconteceu a Guerra dos Seis Dias, o primeiro confronto armado.
Conflito sem sim
Conheça os principais acordos de paz feitos na briga por território
1. 1967
A Guerra dos Seis Dias resultou em várias áreas palestinas ocupadas por tropas israelenses. Uma resolução do Conselho de Segurança da ONU estabeleceu que elas deveriam deixar essas áreas, o que foi cumprido apenas parcialmente. Mesmo assim, surgia o método que ainda hoje guia as tentativas de acordo entre Israel e Palestina: a troca de terra por paz
2. 1993
Após 26 anos de tentativas frustradas, um acordo foi assinado em 13 de setembro de 1993, em Washington. O encontro reuniu o presidente dos EUA Bill Clinton, o líder da Organização para a Libertação da Palestina Yasser Arafat e o premiê israelense Yitzhak Rabin. Um ano depois, Rabin foi assassinado e seu sucessor recuou em vários dos compromissos firmados
3. 2000
O acordo de Camp David, de 2000, foi firmado entre Clinton, Arafat e o então premiê de Israel, Ehud Barak. Israel ofereceu a Faixa de Gaza e parte da Cisjordânia, mas não abriu mão de algumas áreas. Já os palestinos queriam a reversão total das fronteiras antes da guerra de 1967. O novo impasse ajudou a dar início à segunda Intifada, o levante armado palestino
4. 2007
A partir de 2002, um bloco diplomático encabeçado pela ONU tentou convencer os dois lados a dialogar. O resultado foi a Conferência de Annapolis, de 2007, que reuniu o premiê israelense Ehud Olmert e o presidente da OLP Mahmoud Abbas. Mas o grupo palestino Hamas, que tinha acabado de ocupar Gaza, declarou que não apoiaria nenhuma decisão.(Tiago Cordeiro). |



quarta-feira, 16 de julho de 2014

O CENTRO DA TERRA

Uma grande bola de metal! Mais especificamente, uma bola sólida de ferro e níquel. Pode parecer estranho que a quase 5 mil graus Celsius o centro da Terra não seja líquido. "É que a pressão prevalece sobre a temperatura, impedindo a agitação das moléculas", diz a geofísica Yara Marangoni, do Instituto de Astronomia e Geofísica da Universidade de São Paulo (USP).
 Por causa do calor infernal e da pressão esmagadora, nenhuma sonda humana jamais atingiu o centro da Terra. A tentativa que chegou mais "próximo" ocorreu na década de 1970, quando pesquisadores russos abriram no país um buraco que atingiu 12 quilômetros de profundidade - uma ninharia perto dos milhares de quilômetros necessários para alcançar o núcleo.
 Mas nem por isso, as previsões dos geólogos e geofísicos deixam de ser confiáveis. Para saber o que existe abaixo de nossos pés, eles se valem de cálculos e estudos sofisticados. Entre eles, a análise da composição de meteoritos, a relação entre a densidade da Terra e das rochas da sua superfície e experiências laboratoriais que simulam a propagação das ondas sísmicas. A existência de um poderoso campo magnético em volta e dentro da Terra reforça ainda mais as evidências de que há muito metal no centro do planeta.
 Indo mundo abaixo
Planeta é composto de quatro camadas
1. CROSTA
 Entre 6 e 75 km de espessura
 Composta de rochas como arenitos, granitos, basaltos e mármores. A crosta sob os oceanos é menos espessa que sob os continentes
 2. MANTO
 Abaixo da crosta e até 2 891 km de profundidade
 Formada por rochas de consistência viscosa, tem temperatura de 600 ºC (abaixo da crosta) a 3 500 ºC (na divisa com o núcleo). As lavas de vulcões vêm daí
 3. NÚCLEO EXTERNO
 Entre 2 891 e 5 150 km de profundidade
 Liga metálica de ferro e níquel mais um elemento leve, como enxofre ou potássio, na forma líquida. A temperatura varia entre 3 500 ºC e 4 600 ºC
 4. NÚCLEO INTERNO
 Entre 5 150 e 6 371 km de profundidade
 Uma bola metálica sólida, formada por ferro e níquel. A temperatura atinge 4 900 ºC. O calor é tão alto que a radiação das moléculas emitiria luz
Marina Bessa 

terça-feira, 15 de julho de 2014

A MAIOR DENSIDADE DEMOGRÁFICA DO MUNDO

É Santa Cruz del Islote, uma ilhazinha situada no Caribe colombiano. Ali vivem cerca de 1250 habitantes em uma área de 10 mil metros quadrados - pouco mais do que um campo de futebol. Isso quer dizer que a densidade demográfica de lá é de 125 mil pessoas por quilômetro quadrado. Para ter uma base de comparação, a cidade de São Paulo tem uma média de pouco mais de 7 mil pessoas por quilômetro quadrado - ou seja, a ilhota colombiana é quase 18 vezes mais densa do que a capital paulista. O lugar é tão apertado que, para caber mais gente, a igreja, o cemitério e o campo de futebol da comunidade ficam na ilha vizinha.A média de pessoas por casa em Santa Cruz del Islote é de 13 pessoas e a praça central tem míseros 4 metros quadrados - só cabe mesmo a tal cruz que dá nome ao vilarejo. Mas o mais curioso foi um acontecimento recente: para aumentar a área de circulação das pessoas, cujos únicos meios de transporte terrestre possíveis são bicicleta e as próprias pernas, o dono de um bar decidiu se desfazer de uma mesa de sinuca; a comunidade agradeceu.Tiago Jokura
 


segunda-feira, 14 de julho de 2014

PLANEJAMENTO URBANO

A maioria das metrópoles brasileiras cresce de forma desordenada; porém, existem leis e planos cujo objetivo é mudar esta situação.
 As Políticas Públicas Urbanas, até as décadas de 1960 e 1970, eram reações, por parte do governo federal, ao ‘êxodo rural’ que o País vinha sofrendo. Estas políticas eram, em sua maioria, voltadas para a infraestrutura urbana, a saber: habitação e saneamento. Na década de 1970, foram elaboradas políticas de ordenamento urbano, por parte do Governo Federal, a fim de se definir e fomentar o ordenamento nas Regiões Metropolitanas e nas Cidades Médias.
 O planejamento urbano é uma importante ação contra o crescimento urbano desordenado.
Em 1988, uma nova Constituição foi elaborada e definiu o município como um ente federativo, além de promover a descentralização da receita tributária. Assim, o Federalismo começava a se delinear no País, à medida que se descentralizava o poder estatal. Dessa forma, a partir de 1988, começou a ocorrer um repasse de renda; do Governo Federal para os Estaduais e estes repassam aos Municípios. Além disso, com a nova Constituição, os municípios ganharam o poder de legislar leis próprias, de tributar seus próprios impostos e, por fim, de ordenar o solo urbano.
 Com esses poderes ‘recém-adquiridos’, fez-se necessária a elaboração de um planejamento, que visasse organizar a distribuição espacial urbana, a ocupação do solo, a aplicação de impostos, o zoneamento da cidade, a infraestrutura de serviços públicos (de saúde, educação, abastecimento de água etc.), as áreas verdes e, por fim, a expansão ordenada do espaço urbano.
 Organização do Planejamento Urbano
IBAM
De acordo com o site do instituto na Internet,
“ O Instituto Brasileiro de Administração Municipal foi criado em 1° de outubro de 1952 na cidade do Rio de Janeiro. Sua constituição foi aprovada pelo movimento municipalista brasileiro em decisão tomada no II Congresso Brasileiro de Municípios, realizado na Cidade de São Vicente, Estado de São Paulo. O IBAM é uma organização de natureza não-governamental, sem fins lucrativos, vocacionada para o fortalecimento do governo municipal, sob a ótica de uma sociedade democrática, cujos objetivos abrangem o estudo, a pesquisa e a busca de solução dos problemas municipais e urbanos, no quadro do desenvolvimento regional e nacional. O Instituto é reconhecido como uma instituição de utilidade pública pelo Governo Federal e pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro. Também é reconhecido como uma instituição de fins filantrópicos pelo Conselho Nacional de Serviço Social. Os compromissos estratégicos do IBAM, traduzidos em ações cotidianas, decorrem de uma atenção permanente às mudanças e tendências sociais, políticas e econômicas, no mundo e no Brasil, bem como da flexibilidade nas formas de atuação e da capacidade de inovar tecnologicamente. O IBAM reafirma sua missão de promover o Município como esfera autônoma de Governo, fortalecendo sua capacidade de formular políticas, prestar serviços e fomentar o desenvolvimento local, objetivando uma sociedade democrática e valorizando a cidadania.”
 O processo do planejamento dos Municípios, como qualquer processo governamental, carece de uma sistemática, a fim de se minimizarem ‘acidentes de percurso’ e de se cumprir um dado cronograma ou conjunto de metas essenciais ao planejamento.
 Um dos principais passos para o planejamento é a institucionalização do processo planejador. Por meio desse, estabelece-se uma rotina de trabalho que delineie e execute as ações de governo, de maneira cooperativa às demais esferas governamentais (estadual e federal). A primeira atitude a ser tomada é a definição objetiva das atribuições da administração urbana; das ações que se realizará diretamente e de outras que serão postas em prática levando em conta a cooperação com as esferas federal e/ou estadual.
 O segundo passo importante é ‘tomar as rédeas’ do processo de planejamento. Há que se priorizar as metas estabelecidas anteriormente pelos planos, jamais favorecendo este ou aquele grupo ou empresa ou organização, em detrimento do plano inicial. Outro importante passo é sistematizar o planejamento, a fim de que os diversos órgãos do governo e instituições da sociedade se integrem para atingir os objetivos do planejamento. Quanto maior e mais desenvolvido o município, mais complexa se torna a sistemática do planejamento, o que pode demandar apoio técnico e logístico.
 Assim, para municípios de médio a grande porte, é recomendável a criação de um órgão de planejamento e coordenação, que deverá coordenar o processo de planejamento, assim como assimilar novas tecnologias, captar informações e até angariar recursos financeiros para as ações da Administração Municipal.
 De acordo com o IBAM (Instituto Brasileiro de Administração Municipal), a equipe do órgão de planejamento deve ser constituída por um conjunto de profissionais e especialistas de diversas áreas, “cuja dimensão e composição serão determinadas pela amplitude das ações do órgão”. O grupo deverá ser familiarizado com a prática do planejamento urbano e com as áreas de atuação da Administração Municipal.
 Por fim, o órgão de planejamento deve procurar sempre trabalhar cooperando com as demais secretarias e setores da Prefeitura. A metodologia do planejamento é sua principal responsabilidade e deve ser transmitida a todos os setores da Prefeitura, fomentando a tomada de decisões e estudando todas as probabilidades (de sucesso ou fracasso), os recursos (disponíveis e a serem angariados), oportunidades (de parceria, por exemplo), riscos e limitações.
 Instrumentos do Planejamento urbano
 Ainda segundo o IBAM, a elaboração de planos é essencial para que se comece a efetuar o processo de planejamento do Município. Assim, a administração local (conjuntamente com o órgão de planejamento, quando houver) deve criar planos para que tudo corra da maneira mais correta e eficiente possível. O plano plurianual de investimentos e o plano diretor são obrigatórios por lei para “todas as sedes municipais com mais de 20 mil habitantes”. Porém, outros planos (vide box) fazem-se necessários, devido à complexidade de alguns municípios, notadamente os de maior porte. Assim, a Lei Orgânica Municipal e a Constituição Estadual podem também estabelecer a obrigatoriedade de outros planos, como o plano de ação governamental.
 Planejamento para cidades pequenas
 O processo de planejamento urbano não é exclusivo ao ambiente metropolitano. Mesmo que a Constituição Federal obrigue municípios com mais de 20 mil habitantes a elaborarem um plano diretor, assim como um plano plurianual de investimentos, isso de maneira alguma quer dizer que ambientes urbanos com população inferior aos 20 mil não possa (ou não seja recomendado a estes) efetuar o processo de planejamento urbano. As pequenas (e médias) cidades também necessitam de um plano de metas e diretrizes a serem perseguidos (e porventura alcançados).
 Nessas cidades, o plano diretor deve incluir o detalhamento de leis urbanísticas, a fim de enviar propostas efetivas para o desenvolvimento urbano, procurando simplificar o processo de planejamento. Em tais municípios, o órgão de planejamento pode ser constituído, minimamente, pelo prefeito e seus auxiliares diretos, munidos de um roteiro de trabalho que pressuponha e permita a consulta à população sobre as melhorias a serem perseguidas.

Há, assim, que se pensar e se articular soluções para um melhor aproveitamento do espaço urbano, dos recursos disponíveis e, quiçá, ‘inventar’ soluções e propostas para um melhor ordenamento do espaço urbano.
Outros planos
Conheça as variedades de categorias de planejamento urbano
 Plano Plurianual de Investimentos
 Determina e identifica financeiramente, ao longo do mandato político da administração local, os gastos anuais necessários para a concretização das obras e projetos estabelecidos no plano de ação governamental ou no plano diretor.
 Ele permite a elaboração adequada do orçamento anual (outro instrumento de planejamento urbano). O orçamento anual deve traduzir em linguagem financeira todas as ações e despesas que a Administração desenvolverá durante o processo de planejamento.
 Plano de Ação Governamental
 É o plano que deve dispor cada novo administrador municipal (prefeito), ao início do mandato, com as diretrizes e metas a serem tomadas e perseguidas durante seu mandato político. É um instrumento de planejamento de médio prazo, que – é crucial que – leve em conta os objetivos do plano diretor e os recursos (financeiros, em sua maioria) disponíveis para sua execução.
 Assim, ele deve dispor de alguns elementos. Um primeiro elemento, básico, é a identificação dos principais problemas urbanos (do município, da cidade). Outro elemento importante à ação governamental é a definição de diretrizes e metas de Governo. Deve ainda estimar o custo dos investimentos e dos desembolsos correntes e determinar as fontes de financiamento àquelas metas e diretrizes: receitas próprias, empréstimos (FMI, BID, BIRD, etc.) e transferências automáticas (decorrente dos impostos urbanos ou de repasses estaduais e/ou federais) e voluntárias (repasses das outras esferas de governo mediante convênios).
 Plano Diretor
 Consoante à Constituição Federal, a política de desenvolvimento urbano obrigatoriamente deve ser executada pelo Poder Público Municipal. Neste processo, as outras esferas governamentais (governo estadual e federal) podem e devem supervisionar esse processo. Exigido pela Constituição (como já foi dito antes) para municípios de mais de 20 mil habitantes, o plano diretor é o instrumento da política de desenvolvimento urbana. Seu principal objetivo é atuar no processo de desenvolvimento local, permitindo uma maior compreensão dos fatores políticos, econômicos e financeiros e territoriais circunscritos ao município.
 Outros objetivos do plano diretor são: servir de referência à ação de governo, esteja vinculado a qualquer processo de planejamento preexistente ou anterior; recrutar a participação pública (na forma de conselhos, comitês ou comissões representativas), seja na elaboração do plano, seja em sua implementação, ou no seu acompanhamento; por fim, o plano diretor deve se estender a todo o espaço municipal seja ele habitado ou não, sem, de maneira alguma, negligenciar áreas em benefício de outras.
 É preciso também que o plano diretor não ignore o contexto regional no qual o município está inserido (por exemplo, no caso de São Paulo, a RMSP). Por meio do plano diretor, define-se:
 - O zoneamento e o uso do solo urbano;
- A gestão tributária;
- A gestão urbana;
- A gestão pública (social);
- A gestão ambiental;
- A gestão educacional;
- A expansão, sustentável, do espaço urbano.
 Divulgação
O plano diretor é um instrumento importante para que se garanta função social da propriedade urbana.
 Cronograma de execução de obras públicas
O planejamento deve sempre contabilizar a possibilidade de erros e atrasos em obras públicas. Um caso recente que ficou notório foi a abertura da cratera da Linha Amarela do Metrô de São Paulo, no canteiro de obras da futura Estação Pinheiros. O erro, ocorrido em 16 de janeiro de 2007, deixou 230 moradores sem casa e se constituiu na maior tragédia da história do transporte metropolitano brasileiro, ao fazer sete vítimas fatais e inúmeros feridos.
 Problemas
 Problemas no processo de planejamento podem ocorrer e devem ser contabilizados e considerados. Cronogramas de execução de obras públicas que tinham todos os elementos para darem certo e serem aplicados de forma eficaz depararam-se com o fracasso, pois não foi feita uma devida análise de riscos. Alguns problemas que podem ocorrer durante o processo de planejamento, constituindo-se em barreiras ao mesmo são:
 A localização do principal órgão de planejamento na estrutura hierárquica: Se ao órgão planejador não for dada a devida importância e o poder devido para planejar, há um grande chance de o planejamento proposto ser ‘editado’ e não sair como deve;
 Conflitos de jurisdição, resistência, desconfiança e outros tipos de reação que dificultam o processo: Se, por parte do setor privado da sociedade, não houver cooperação ou investimento, o processo de planejamento é dificultado; da mesma forma, se um plano esbarra na legislação do município, encontrando barreiras judiciais para sua implementação, ele fica debilitado;
 O campo de competência do órgão planejador e as inter-relações com outras unidades: Se não houver um diálogo do órgão planejador com outros órgãos (por ex: SABESP, CETESB, etc.) e secretarias (por ex: LIMPURB, Secretaria de Educação, Secretaria da Saúde, de Obras Públicas etc.) aumenta a chance de serem vetados alguns planos;
 Por fim, falta de apoio, participação e desaprovação por parte da população: Obras de médio e grande porte podem ser paralisadas ou cessadas devido à pressão da população; a participação pública no planejamento urbano é essencial, manifestando os desejos e opiniões públicos.
 Todos os problemas apontados devem ser contabilizados numa análise de riscos, para que sejam devidamente calculados a priori da execução do planejamento, a fim de minimizá- los ou solucioná-los.
Marcelo Marcondes

sexta-feira, 11 de julho de 2014

A VIDA MADE IN SAMOA

A primeira reserva natural dos Estados Unidos no hemisfério sul, o parque de Samoa tenta preservar um arquipélago paradisíaco
       As águas do oceano Pacífico cobrem um terço do planeta. No meio dessa vastidão azul, nos mares da Polinésia, desponta uma pequena ilha conhecida como Ofu. Embora formada por imponentes blocos de rochas vulcânicas, Ofu é recoberta pelo verde intenso de sua exuberante vegetação tropical. Os contornos da ilha são um tanto suavizados pelas brumas que rondam o alto das montanhas, de onde rompem cataratas em direção ao mar.Estou boiando a alguns metros da praia, as pontas dos dedos ancoradas bem de leve na areia. A poucos centímetros da minha máscara de mergulho, cardumes de peixes-gatilho nadam sobre colônias de coral.Mantenho a parte superior da máscara acima da água, observando as gotas de chuva morrendo na superfície do mar. Mais além, palmeiras frondosas se espalham numa praia branca, no ponto onde Ofu se estreita em direção à sua ilha irmã, Olosega. Não há ninguém na praia. Apenas gordos caranguejos abrem cocos caídos com suas garras, para depois se fartarem com a polpa doce.Eu bem poderia ficar assim, horas e horas numa mesma posição, apenas contemplando esse ainda desconhecido paraíso dos trópicos: o Parque Nacional da Samoa Americana, uma das mais espetaculares reservas naturais dos Estados Unidos. Escritas em samoano, tabuletas na entrada do parque recém-criado resumem parte do espírito desse lugar. Nelas está grafado: “Paka o Amerika Samoa” (Parque da Samoa Americana) e “Laufanua Fa‘asaoina” (Terra Preservada). Ouço depois os nativos dizerem que a própria palavra samoa significa “centro sagrado”. O estado selvagem da natureza daqui realmente justifica todas essas referências.Compõem o arquipélago de Samoa 16 ilhas dispostas sobre o azul do Pacífico, 4200 quilômetros distantes das praias do Havaí e 2900 quilômetros além da costa da Nova Zelândia. Essas ilhas longínquas e suas orlas de coral são o topo de uma cadeia de vulcões que se ergueram do leito oceânico, jorrando lava à medida que as placas da crosta terrestre se deslocavam. Diz uma crença samoana que o mundo começou aqui: a partir de uma pedra, o criador Tagaloalagui fez surgir o céu, a terra e o mar. Depois o mesmo deus polinésio criou o primeiro ser humano.As lendas ilustram bem o passado cercado de mistérios, os tempos a que remontaria a origem dos ilhéus. Os elos lingüísticos e os artefatos arqueológicos já encontrados sugerem que a primeira cultura polinésia pode ter se desenvolvido aqui, cerca de 3 mil anos atrás. Nos séculos seguintes, navegadores, viajando em barcos de quilha dupla carregados de porcos, cães e frutas, difundiram essa cultura pelo Pacífico, colonizando locais distantes como o Havaí e a ilha de Páscoa.Os estrangeiros começaram a chegar – e ficar – na segunda metade do século 19, época em que algumas ilhas a oeste do arquipélago caíram sob domínio de colonizadores alemães e, depois, de neozelandeses. Em 1962 essas primeiras ilhas ocupadas se tornaram uma nação independente, a Samoa Ocidental, hoje conhecida apenas como Samoa. Já os Estados Unidos tomaram posse da metade oriental do arquipélago em 1900. A maior ilha desse trecho é Tutuila – a Marinha americana manteve ali uma base, no porto de Pago-Pago, até 1951. Cem quilômetros de mar separam Tutuila de Ofu, Olosega e Ta‘¯u, três ilhas conhecidas em conjunto como Manu‘a. Por muito tempo, Manu‘a foi um poderoso reino independente. E também é considerado o local do nascimento da Polinésia, de acordo com o folclore samoano.Tutuila e Manu‘a formam a Samoa Americana, onde vivem hoje cerca de 64 mil pessoas. Um território que tem suas próprias leis, um governador eleito e um representante no Congresso americano.Única reserva natural dos Estados Unidos no hemisfério sul, o Parque Nacional da Samoa Americana foi concebido para proteger não apenas as riquezas naturais, mas também a cultura polinésia dos nativos. Animais e plantas oriundos do sudeste da Ásia são típicos das florestas locais. O recife de coral ao redor das ilhas é mais rico em espécies do que os similares do Pacífico. E os costumes e os conhecimentos que definem o fa‘a Samoa, o modo de vida samoano, estão entre os recursos humanos preciosos de um parque ainda em formação. Criado em 1988, ele recebe por ano menos de 500 turistas estrangeiros. É verdade que já foram abertos em Pago-Pago, a capital do território, um escritório e um centro de visitantes. Mas ainda faltam guias e trilhas demarcadas.
 Como uma mortalha perene, as nuvens cobrem os 966 metros do cume do monte Lata, na ilha de Ta‘¯u, o pico mais alto da Samoa Americana. Chove muito nas encostas desse vulcão e suas matas úmidas e banhadas de sol funcionam como uma estufa, onde resiste uma abundante vegetação. Suando para escalar a montanha, Chris Stein, superintendente do parque, fala comigo num sussurro: “Acho que vamos abrir uma trilha, mas não exatamente aqui. Veja o motivo com seus próprios olhos”. Diante de nós abre-se uma cratera na rocha. No seu interior, morcegos guincham e assobiam, dependurados lá no alto, com asas de quase 1 metro de envergadura. Apesar do nosso cuidado, perturbamos o ninho onde se recolhem durante o dia esses morcegos frutívoros (Pteropus tonganus), conhecidos como “raposas voadoras de pescoço branco”.
 Um outro morcego, o Pteropus samoensis, é mais arisco e ativo durante o dia. Conhecido como “raposa voadora”, ele costuma ser visto sobrevoando a copa das árvores feito um falcão. Os contos folclóricos apresentam esses animais como guardiães e, do ponto de vista ecológico, eles de fato cumprem esse papel. Sendo os únicos mamíferos terrestres nativos de Samoa – além do morcego Emballonura semicaudata –, eles ajudam a conservar as florestas, polinizando e distribuindo sementes por boa parte da vegetação da ilha.
 Os caçadores são uma ameaça para esses enormes morcegos. A situação é ainda mais grave na vizinha ilha de Samoa, onde quase dois terços das florestas primárias foram derrubados para a extração e o comércio de madeira e agricultura. Para piorar, os furacões do oceano Pacífico dizimaram a já reduzida população de Pteropus samoensis, levando-a a um nível perigosamente baixo. O desejo de salvar essas duas importantes espécies foi um fator decisivo para a criação do parque nacional.
 Stein e eu descemos então para o vale, caminhando entre os fiapos de neblina que descem do monte Lata. O piar estridente dos pássaros rabo-de-junco produz um estranho eco contra as paredes de pedra nua. Entrando mais fundo no vale, sentimos o ar parado – de repente, a impressão é a de que voltamos ao começo do mundo. As trepadeiras vão se fechando em torno de nós. Samambaias de 9 metros de altura bloqueiam a luz que vem do alto.
 “É aqui”, brinca Stein, naquele local quente e sombrio, “que nós guardamos nossos tiranossauros.” Sem contar os animais marinhos – como uma tartaruga do tamanho de um baú que eu vi se alimentando de algas numa baía –, os únicos répteis que existem em Samoa são lagartos e lagartixas. As cobras concentram-se apenas na ilha de Ta‘¯u, mas já foram avistadas enguias de água doce deslizando pelo solo da floresta em dias de chuva, às vezes levando na boca um rato capturado há pouco.
 A faixa marinha do Parque da Samoa Americana corresponde a quase 15% do litoral das ilhas, enquanto os trechos terrestres ocupam mais de 16% dos 200 quilômetros quadrados do território. Perguntei-me como tamanha influência americana é possível se o governo não tem em Samoa quase nenhum pedaço de terra? As ilhas pertencem a famílias samoanas e, por lei, não podem ser transferidas a estrangeiros. O governo americano só tem jurisdição sobre as águas territoriais. Para resolver a questão, o Serviço de Parques Nacionais criou um sistema de arrendamento. Assim, conseguiu controlar as áreas marinhas, os lotes ocupados pela administração do território e outros terrenos que formavam oito aldeias diferentes. E definiu os contornos do parque de 4250 hectares.
 "Nosso encontro é sagrado como o encontro de duas nuvens no céu. É como a união das tartarugas marinhas: silencioso e imóvel. Tão sagrado como o primeiro orvalho da manhã...” Estou na aldeia de Vátia, no litoral norte de Tutuila, acompanhando o início da cerimônia do ‘ava. Percebo que as expressões poéticas são valorizadas na linguagem formal samoana. E representam, de certa forma, uma verdadeira forma de arte local.
 Cada aldeia tem seu próprio orador. Suas palavras se entrelaçam como longos fios brilhantes, unindo os ancestrais da família e as forças espirituais. Ele também fala de assuntos cotidianos. Vestindo um pano semelhante a uma saia, conhecido como lavalava, e com o corpo marcado por tatuagens tradicionais, dois chefes e outras figuras importantes da aldeia sentam-se numa grande casa oval, aberta de um lado para a baía e de outro para as imponentes encostas cor de esmeralda. A casa está exposta aos ventos que trazem o aroma de sal mesclado ao perfume de flores. Usando meu lavalava, sento-me junto a Chris Stein e Leota Vaea Ainu‘u – na época o único guarda florestal do parque.
Segundo a lenda, a cerimônia original do ‘ava realizou-se entre o primeiro homem da terra e o Criador, que preparou uma bebida feita de raízes de kava-kava, um tipo de pimenta. Desde então, oferecer a alguém essa bebida adstringente, de cor marrom e levemente entorpecente, é um símbolo de comunhão e boas-vindas. Enquanto os homens comuns de Vátia preparam uma festa ao ar livre, uma jovem com um enfeite de penas na cabeça – a virgem cerimonial – espreme o suco da raiz da kava-kava numa vasilha entalhada. Um homem me serve então esse líquido.
 Levanto a vasilha num gesto de agradecimento e bebo tudo num só gole. Palavras generosas acompanham a troca de presentes – finas fazendas, belas esteiras tecidas. Em seguida, servidas em travessas de folha de bananeira, chegam as iguarias. Não conseguimos dar conta das porções de leitão assado, fruta-pão, mamão papaia, inhame e pudim de coco.
 “Tudo o que Deus nos proporcionou ficamos felizes de compartilhar com os outros”, proclama Tuiasosopo, o orador da cerimônia. Ele não fala apenas daquela abundância de comida. Refere-se também às terras e ao mar que há 12 anos se transformaram numa reserva natural.
 Todos os proprietários das terras incorporadas ao parque recebem uma quantia anual pelo arrendamento e podem continuar a desfrutar dos alimentos silvestres e dos recursos das matas e do mar. A agricultura de subsistência também é permitida, desde que seja limitada às áreas que já eram cultivadas no passado. A pesca não-comercial é legal, assim como a construção dos abrigos tradicionais para os agricultores. O contrato de arrendamento tem duração de 50 anos e é passível de renovação por consentimento mútuo. Durante esse período, qualquer família que fique insatisfeita com o arranjo pode retirar suas terras do parque, desde que o faça com um aviso prévio de um ano.
 Deixo a aldeia de Vátia para explorar outra área do parque, perto do monte ‘Alava. Os céus se abrem e começam a despejar uma chuva grossa como uma cortina. A trilha íngreme e desbastada a golpes de facão se transforma em pura lama. Nunca na minha vida decaí tanto de status e tão depressa – há pouco eu era homenageado num banquete; agora estou todo coberto de barro, escorregando sentado na lama, com uma mão tentando firmar-se no chão e a outra em busca de ramos e galhos para se agarrar. Mas o ar está cálido como sempre e eu me consolo sabendo que foram essas chuvas que formaram a floresta em torno de nós, com suas árvores carregadas de orquídeas e cipós enrodilhados. No solo fértil, o gengibre bravo dá flores de um laranja cor de fogo. Os samoanos usam como xampu a seiva gelatinosa desses botões de flor. Como, na prática, já estou debaixo de um chuveiro natural, decido lavar a cabeça e começo a me ensaboar.
 Meu guia, Siaifoi Fa‘aumu, do Departamento de Recursos Marinhos e Naturais, aponta para um asplênio, uma das 230 espécies de samambaia e suas parentes encontradas em Samoa. No centro de suas largas folhas há uma ave, um filhote de mergulhão. De repente dou mais um passo e, logo abaixo dos meus pés, vejo a montanha despencar num penhasco. Consigo distinguir mergulhões, fragatas e trinta-réis planando, aproveitando os ventos marinhos, de volta de seus locais de pesca. Uns 30 metros abaixo de onde estou as ondas se quebram contra as rochas.
 Nas encostas íngremes da ilha, a floresta permaneceu em boa parte intacta, poupada da destruição causada pela derrubada das árvores e pela agricultura intensiva – atividades que, em Samoa e outras ilhas do Pacífico Sul, foram depositando sedimentos nos recifes de coral em alto-mar.
 O recife de coral ao longo da ilha de Ofu é um intrincado labirinto onde reinam 64 variedades de coral. Conjuntos de espécies antigas, coloridas e de formas variadas, se avultam, enormes como baleias. Decido partir para o mergulho livre, passando pelos canais submarinos entre os corais, fascinado com os peixes-unicórnio, uma enguia listrada e tartarugas-verdes. Um cardume de minúsculos peixes-donzela circula como névoa em torno das colunas do coral Acropora, que lembram estalagmites brotando do tampo de uma mesa.
 Passeando pela praia no dia seguinte, encontrei Mafuta Tili Vo‘a, uma mulher que colhe plantas silvestres para praticar o fofo, a tradicional arte da cura de Samoa. Sua mãe, uma parteira, ensinou-a a usar as plantas medicinais para exorcizar os maus espíritos. Agora é a vez de Mafuta transmitir esses conhecimentos aos filhos. “Às vezes as enfermeiras mandam pacientes da clínica para mim”, conta ela. “Mas não basta apenas conhecer as plantas medicinais. É preciso também sentir que Deus está agindo através de você.”
Mafuta personifica perfeitamente a fusão entre as antigas tradições polinésias e os ensinamentos dos colonizadores cristãos. Os missionários protestantes chegaram às ilhas da Samoa Americana mais de um século atrás. Desde então, as igrejas passaram a desempenhar papel proeminente na vida das aldeias. Tal fato contradiz a imagem que se faz de seus habitantes: a de uma gente desinibida e habituada ao uso de poucas roupas – uma reputação alimentada por apimentadas histórias de marinheiros e reforçada pelo livro de Margaret Mead, Coming of Age in Samoa, que trata da sexualidade dos adolescentes locais.
 Na verdade, muitos dos viajantes estrangeiros que passaram a chegar depois da criação do parque ficam completamente atônitos ao descobrir que em Samoa ainda se considera leviano as mulheres usarem shorts, blusas curtas ou mesmo maiôs de banho. Também não é aconselhável nadar ou divertir-se perto das aldeias aos domingos, um dia sempre reservado para as visitas de família, as festas e os cultos religiosos.
 Todos os dias da semana se encerram com cerca de 15 minutos de oração e reflexão, sob o comando dos mais velhos. Nas aldeias, os sinos dobram e os ilhéus silenciam, até que os únicos sons que restem sejam os das orações, murmuradas ao ar livre e pontuadas pelo trinado dos pássaros, enquanto os últimos raios de sol vão subindo até os penhascos.
 Outra peculiaridade do cristianismo em Samoa é a generosidade irrestrita. Se você demonstrar sede, com certeza alguém vai lhe oferecer um coco verde cheio de água. E, mesmo que não aparente estar faminto, muita gente desconhecida o convidará para almoçar ou jantar em sua casa.
 “No início os turistas ficam desconfiados, achando que os nativos queiram lhes extorquir algo em troca”, diz o superintendente do parque, Chris Stein. Para conhecer melhor a gente samoana, os visitantes são incentivados a hospedar-se em aldeias próximas à reserva, em modestos alojamentos ou nas casas para visitas que a maioria das famílias mantém para os amigos e parentes. Na casa de Ta‘au‘au Utuone, vizinha da curandeira Mafuta, aprendo a fazer um cesto de apanhar peixes usando as raízes altas de uma árvore da floresta trançadas com fibras de coco. Os benefícios financeiros obtidos com os alojamentos e as refeições revertem diretamente para as comunidades locais.
 Mesmo assim, nem americanos nem samoanos desejam transformar o Parque Nacional da Samoa Americana numa atração para as massas. O excesso de visitantes poderia exercer uma pressão perigosa sobre o meio ambiente e destruir a atmosfera tranqüila e discreta das ilhas. “Considero a reserva um instrumento para conservarmos a sabedoria e a cultura de Samoa”, diz o parlamentar Eni Faleomavaega. “Não me interessa um desenvolvimento rápido, que acabará nos matando.” Tauese P.F. Sunia, o governador, acrescenta: “Nossas terras são limitadas, mas a população está explodindo. Precisamos preservar os recursos do arquipélago e, para isso, o parque é a melhor solução”.
 Naturalmente, nem todos compartilham essa opinião. Sentado à sombra de uma palmeira numa praia de Ofu, Toeaina Faufano Autele, representante no corpo legislativo do território, proclama: “Não precisamos que alguém de fora nos diga o que fazer com nossa terra. As pessoas estão começando a perceber que haverá restrições. A administração do parque já disse que, se eu quiser construir, não vou poder retirar pedras da parte da praia que sempre pertenceu a minha família. Ouvi dizer depois que não podemos instalar canos para levar água para outras famílias. Não me importo que os turistas usem minha propriedade. Eles são bem-vindos, pois essa é nossa tradição. Mas, por favor, tirem a minha terra do parque”.
 O guarda florestal Leota, porém, vê no parque mais oportunidades do que problemas. “Os chefes de todas as aldeias vieram conversar conosco”, diz ele. “A maioria concorda com o atual sistema. A razão pela qual a reserva não está aumentando é que não queremos arrendar trechos de terra isolados. É preferível ampliar as áreas já existentes. Mas, para isso, o Congresso precisa rever as fronteiras do parque.”
 No sistema de reservas naturais dos Estados Unidos, o Parque Nacional da Samoa Americana é o primeiro a ter como base o arrendamento de terras. Esse conceito, porém, já está sendo testado em outros lugares. Diversas populações nativas do Alasca, do norte do Canadá e também de outros países receberam o direito de continuar morando nas reservas e delas extrair sua subsistência. Um exemplo é o Parque Nacional Great Basin, inaugurado em 1986 no estado de Nevada, que permite a antigos moradores a criação de carneiros e outras atividades econômicas. Há também vários programas do Serviço Nacional de Parques, menos conhecidos, que ajudam a financiar e coordenar os esforços de diversas agências estatais e grupos particulares voltados para a preservação da natureza.
 Vou refletindo sobre as contribuições do Parque Nacional da Samoa Americana enquanto caminho à beira do mar em Ta‘¯u. A praia é margeada pelas árvores futu, de grosso tronco e grandes flores arroxeadas polinizadas pelos morcegos. Cada flor desabrocha durante apenas um ou dois dias, antes de murchar e cair. Juncando o chão da floresta com seus longos estames, as flores caídas lembram anêmonas-do-mar varridas por uma onda. Os moradores costumavam colher os frutos da árvore futu, macerá-los e atirar essa mistura nas águas rasas para apanhar os peixes entorpecidos pelo veneno.
 O caminho pela floresta atravessa pequenas plantações de inhame, coco e banana. Saio da mata, chego a uma ponta rochosa e me vejo de frente para a arrebentação – quilômetros e quilômetros de vagalhões, vindos diretamente do Pacífico para enrodilhar-se e quebrar contra a lava escura e as praias virgens ao pé das montanhas. Depois de 1 hora de caminhada pela praia, salto de uma pedra coberta de musgo e mergulho numa piscina natural, sob uma cachoeira de 300 metros. Ao voltar à tona, espalhando água à luz do sol, percebo que este é o lugar encantado com que sempre sonhei, mas quase perdera a esperança de encontrar. O sucesso do Parque Nacional talvez perpetue essa minha inocente visão do paraíso nessas ilhas remotas do Pacífico Sul.

 Douglas H. Chadwick (Revista National Geographic, edição 03, julho de 2000).

terça-feira, 8 de julho de 2014

NEPAL EM DÚVIDA

Os signos do ocidente coloca o Nepal em um cruel dilema: É melhor preservar as tradiçõs ou aceitar o desenvolvimento?
 Meu amigo nepalês bishnu pratap shah nunca se esqueceu do dia em que quase agrediu um empregado que, involuntariamente, perdera a sua bola de neve. “Eu tinha 9 anos”, lembra-se Bishnu. “Era a minha primeira bola de neve. Mandei que ele a guardasse para mim, mas, quando voltei, o bobalhão disse que ela havia sumido.”O patético incidente aconteceu em 1944, em Katmandu. Não seria muito diferente, porém, se tivesse ocorrido 500 anos atrás. Pois, há apenas 60 anos, na infância de Bishnu, o Nepal ainda era um reino proibido da Ásia. Governado por primeiros-ministros hereditários, os ranas, o país vivia como na Idade Média. A poligamia e o casamento entre crianças eram legais. E não havia aviões nem estradas unindo o remoto reino ao resto do mundo.Bishnu Pratap Shah tinha uma boa razão para querer guardar sua bola de neve. O gelo eterno do Himalaia reluz o ano todo no distante horizonte acima de Katmandu, mas, nas ruas da capital do país, neva em média uma única vez durante toda a vida de um nepalês. “Eu queria levar a minha bola de neve para casa. Quando ele falou que ela havia desaparecido, acusei-o de tê-la escondido. Ele ficou muito confuso. Disse que não conseguia encontrá-la em lugar nenhum. Naquela época, os nepaleses não sabiam que a neve derretia. Também não sabiam que o mundo é redondo.”Em 1987, Bishnu e eu fizemos uma trilha até sua aldeia natal, Maidi, nas montanhas a oeste de Katmandu. Eu era o primeiro americano a pôr os pés ali. As pessoas, na casa de chá local, tinham ouvido falar de uma coisa muito estranha: enquanto o sol brilhava no Nepal, era noite nos Estados Unidos. E eles queriam saber o motivo disso. Para tentar explicar-lhes, pedi uma laranja e uma lamparina Petromax. O dono da loja acendeu a lamparina. “Esta lamparina é o sol”, eu disse. Levantei a laranja. “E esta é a Terra. Ela não é plana; é redonda e gira.” Fiz um sinal em um dos lados da laranja e outro no lado oposto. “Aqui está o Nepal. E aqui estão os Estados Unidos.” Depois girei a laranja. Enquanto eles observavam o Nepal e os Estados Unidos girarem entre a luz e a escuridão, notei o brilho da compreensão em seus olhos, sobretudo nos das crianças.Em minha última visita ao Nepal, percebi uma nova alegria nos olhos de algumas crianças. Num cybercafé chamado K@mandu, elas observavam excitadas telas coloridas de computador. A julgar pela animação coletiva, aquela era uma experiência da qual todos iriam lembrar-se para sempre – tanto tempo quanto Bishnu e sua bola de neve. “Nenhum nepalês jamais viveu ou viverá uma vida como a minha. Meus pais nasceram na Idade Média. Meu filho pertence ao século 21”, resume Bishnu. “O Nepal atravessou séculos da História durante uma única geração.”Em 1990, uma revolução popular finalmente lançou o Nepal para longe dos seus costumes medievais. E, desde esse despertar primaveril, o país tem sido um laboratório de democracia. Em eleições livres com disputas acirradas, os eleitores podem, e conseguem, depor governos que os desagradam.A corrupção, porém, não foi erradicada. Os nepaleses das altas castas e bem relacionados continuam cada vez mais ricos e com melhor educação do que o resto miserável da população. Uma guerrilha maoísta, limitada mas muito persistente, emergiu em alguns distritos remotos das montanhas, estimulada pela pobreza e pelo fracasso político do Nepal em tentar fazer algo para mudar esse quadro.O Nepal é uma das poucas nações do mundo onde os homens ainda têm uma expectativa de vida maior do que a das mulheres. Ao viajar pelo país, as razões dessa discrepância ficam evidentes. Em Katmandu, famílias inteiras amontoam-se em motocicletas. Pais e filhos usam capacete; mães e filhas, não. A dois dias de caminhada de Katmandu, um homem com roupas ocidentais caminha montanha acima, com um rádio de pilha colado ao ouvido. A mulher e a filha seguem atrás, carregando fardos feito animais de carga. Ele usa sapatos; elas estão descalças.A imagem de Shangri-lá, de idílio eterno, continua pairando sobre o Nepal, apesar de tantas mudanças recentes. A realidade, contudo, é diferente. Com 25 milhões de habitantes, o país é mais pobre do que Bangladesh, constante referência de baixa qualidade de vida. A renda média nepalesa é de apenas 210 dólares por ano, uma das mais baixas do mundo. Diante desse quadro, qual a perspectiva do país? A tecnologia será mais importante do que as antigas tradições? É melhor pensar que o rei é um deus ou acreditar que, depositando um pedaço de papel numa urna de votação, será possível transformar a vida?
 No Nepal romântico que conheci nos anos 60, perguntas assim não faziam, na prática, o menor sentido. Nessa época, o país que atravessei a pé – às vezes a cavalo ou de elefante – não era muito diferente do mundo do rei Prithvi Narayan Shah, o déspota gurkha que em 1769 criou o Nepal ao conquistar o vale de Katmandu e anexá-lo a seus domínios nas montanhas. Nas aldeias que visitei, as espingardas de pederneira eram a tecnologia mais avançada e as pessoas acreditavam que a varíola era uma doença causada pela deusa Kali.
 Um dos raros sinais da civilização eram as vozes distantes que brotavam dos rádios transistores. Os aldeões do interior chamavam os satélites orbitais que cruzavam o céu escuro de gumnewalli (andarilhos), da mesma forma que os gregos antigos usavam a palavra planetes (peregrinos) para descrever as muitas estrelas em movimento. Como o nepali é uma língua indo-européia, fiquei feliz ao constatar que, do ponto de vista lingüístico, os nepaleses e eu pertencíamos à mesma família.
 O Nepal globalizado do presente tem MTV, CNN, e-mail. O desenvolvimento – bikas, na língua nepali – trouxe também outras mudanças, mais sutis. “Preciso ficar o tempo todo monitorando o teor de açúcar no meu sangue”, reclama Bishnu, enquanto passeamos de carro por Katmandu. Quando nos conhecemos, Bishnu tinha 28 anos e eu, 22. Agora, no apogeu de seus 60 anos, ele já teve uma vida mais longa que a de seus pais. O caso de Bishnu resume o que, nos anos 60, chamávamos de “dilemas do desenvolvimento”. Embora a medicina moderna tenha salvo milhões de pessoas – inclusive ele – de doenças que matavam muitos nepaleses antes dos 40 anos, o progresso desencadeou novas epidemias. Efeitos colaterais. Em corpos acostumados a escalar montanhas, profissões sedentárias e mudanças alimentares podem descontrolar os níveis de insulina.
 Em Katmandu espalham-se sinais de uma vida de contrastes que simplesmente seriam impensáveis pouco tempo atrás. Há objetos de plástico no lixo – eu e Bishnu nos lembramos do tempo em que o plástico era algo tão raro no Nepal que jamais seria jogado fora. Também há peixes de criadouros à venda, e espinafre, maçãs. Katmandu tem hoje uma poluição que provoca catarro nos pulmões mais resistentes. O trânsito tem quilométricos congestionamentos – de carros, riquixás, animais. Por outro lado, também me alegro com os problemas que desapareceram. O lábio leporino é agora curado por cirurgia. E bastou acrescentar iodo ao sal para eliminar o bócio.
 Com o turismo, já é possível contemplar as paisagens nepalesas de novos ângulos. A bordo de um balão, por exemplo. Decolamos de um local próximo à cidade de Bhaktapur, no leste do vale de Katmandu, num ponto onde a visão do Himalaia envolve os pobres mortais estrangeiros num sonho de pureza eterna – o Nepal dos folhetos turísticos. No sopé das montanhas, porém, onde vivem os nepaleses de carne e osso, formam-se densas nuvens de poluição que ilustram a transformação do antigo vale agrícola num caldeirão urbano.
 Assim como ameaça Bishnu com a diabetes tipo II, o progresso nepalês quase quebrou o meu pescoço. Ao sobrevoarmos uma plantação de batatas, um dos cabos de aço do balão enroscou-se no meu pescoço. Para evitar o choque com um cabo de energia elétrica, tivemos de fazer uma aterrissagem forçada. Os aldeões juntaram-se ao redor, fascinados pelo espetáculo de estrangeiros caindo do céu.
 Enquanto limpo o sangue em meu pescoço, Bishnu descreve o episódio da primeira vez em que viu forasteiros na mesma situação. Foi pouco tempo depois de ele ter “perdido” sua bola de neve. “Milhares de pessoas, numa espécie de transe, correram para um pasto perto de Pashupatinath, o mais importante santuário hindu do Nepal. Os olhos do povo varriam o céu com uma atenção inédita. Jamais tínhamos visto um avião”, lembra-se Bishnu.
 A vida de Bishnu, de fato, ilustra a história recente do Nepal. Seus pais nunca voaram ou assistiram televisão. Mas hoje são comuns os jatos no aeroporto de Katmandu e, para os filhos de Bishnu, voar é um evento tão banal quanto um programa da MTV. Bishnu é, ao mesmo tempo, o garoto que não sabia que bolas de neve derretem e o homem com um endereço eletrônico. Assim, sua descrição daquele primeiro avião sintetiza a dimensão da transição nepalesa. Foram pessoas e máquinas, e não deuses e mágicas, que mudaram o Nepal. Para o bem ou para o mal. Para sempre.
 O Nepal subverteu as concepções acadêmicas de desenvolvimento. As coisas modernas foram introduzidas como que vindas do nada, numa ordem estranha. Nos chuvosos desfiladeiros do planalto do Himalaia e nas terras baixas do sul, os aviões foram notícia antes dos tratores, dos telefones e das estradas. A primeira aeronave desceu no Nepal em 1949, mas só sete anos depois uma estrada ligaria Katmandu ao mundo exterior. Na remota região oeste do Nepal, que conheci nos anos 60, as pessoas escutavam os Beatles em gravadores a pilha antes mesmo de terem visto iluminação elétrica. Os helicópteros adejavam em suas vidas antes de os primeiros caminhões chegarem lá.
 Menos de um ano depois daquela primeira aterrissagem, a autocracia Rana foi deposta com a ajuda de um avião. Na prática, os primeiros-ministros ranas haviam mantido os reis do Nepal como prisioneiros, usando a condição divina do rei para legitimar seu próprio poder. Mas os reis hindus e alguns meros mortais nepaleses conseguiram, literalmente, voar para longe. Em novembro de 1950, o rei Tribhuvan escapou do Nepal como um pássaro fugiria para a liberdade. Voltou apenas com a condição de que, segundo suas próprias palavras, “o governo do nosso povo seja, daqui por diante, conduzido de acordo com uma constituição democrática”. Hoje, o aeroporto internacional de Katmandu leva o seu nome.
 Filho e sucessor de Tribhuvan, o rei Mahendra governou entre 1955 e 1972. E alimentou contrastes em seu reinado. Dificultou a democracia ao mesmo tempo que abriu o espírito dos nepaleses para idéias estranhas, introduzidas no país por gente de origens e atividades diversas – de viajantes estrangeiros a epidemiologistas. E, em outro aspecto, também o rei Mahendra viveu em parte na Idade Média e em parte no futuro. Ele e sua mulher, a rainha Ratna, talvez tenham sido o primeiro casal nepalês a fazer uso do controle de natalidade. Antes deles, as pílulas anticoncepcionais eram compradas por diplomatas no exterior. Agora, pílulas e camisinhas são encontradas em todo o Nepal.
 O rei Birendra, filho de Mahendra e atual soberano do país, herdou o trono de seu pai numa época em que cada vez mais nepaleses mostravam-se pouco dispostos a aceitar o velho paternalismo do reino. Até então, os protestos populares eram sufocados. Mas, durante a revolução popular do Nepal, na primavera de 1990, o rei Birendra teve de enfrentar a escolha entre aceitar mudanças fundamentais ou ser varrido por elas. Piloto de helicóptero e maníaco por vídeos de ação e aventuras, Birendra aceitou as transformações. E assim, como Bishnu e muitos de seus súditos, atravessou três eras distintas. Foi monarca absoluto e hoje é monarca constitucional.
 O papel de Bishnu também mudou. Quando nos conhecemos, ele era um jovem burocrata no governo do rei Mahendra, um sistema autocrático concebido para impedir que a média da população elegesse seus representantes políticos. Nessa época, o poder fluía absolutamente de cima para baixo. A palavra do rei, e não a vontade do povo, era soberana. Hoje Bishnu é o chefe da comissão eleitoral independente do Nepal. Sua tarefa é garantir que a voz de todos os nepaleses seja ouvida, não importa o quão pobres ou humildes sejam eles. “Meu problema é como conseguir tinta indelével para os 12 milhões de eleitores do país. A maior parte dos eleitores é analfabeta, e não podemos usar a assinatura para saber quem está trapaceando. Temos de manchar suas mãos. É assim que impedimos as fraudes”, ele explica.
 Até pouco tempo atrás, levaríamos semanas para chegar ao distrito de Bardia, no sudoeste do Nepal. Agora a viagem dura apenas um dia de carro, a partir da sede do governo nacional, em Katmandu. Bardia fica no tarai, uma floresta de transição entre a planície do Ganges e a cordilheira do Himalaia. Antes, a região era chamada jungli (selvagem, indômita), por ser uma vasta área onde a malária proliferava sem controle. Mas hoje, em Bardia, pode-se caminhar por horas e horas sem avistar nenhum sinal da selva original. Em vez das árvores, passamos por campos amarelos de mostarda em flor e encontramos bandos de crianças saltitantes em uniformes escolares azuis e brancos. Bardia tornou-se uma espécie de refúgio ensolarado para onde os povos das montanhas vão em busca de uma vida nova e melhor.
 Na última vez em que estive por lá, nos anos 60, Gulariya, a nova capital de Bardia, não passava de um aglomerado de choupanas de palha no meio da selva. Hoje, o antigo povoado tem o tumulto e a sujeira de uma florescente cidade-mercado. Camelôs apregoam fitas cassete, xampus e até sabonetes. Lembro-me de que, na minha primeira visita a Gulariya, uma multidão curiosa formava-se ao redor dos privilegiados que ousavam tomar banho em público com um sabonete. No tarai, como nas montanhas, os nepaleses estão vivendo experiências que, em muitos casos, nada têm a ver com velhos estereótipos de tribos e castas.
Décadas atrás, diante da falta de opções, homens cobiçavam uma vaga entre os mercenários gurkhas que eram recrutados pelos exércitos britânico ou indiano. As nepalesas pobres, por sua vez, povoavam os bordéis da Índia. Na hierarquia do país, o poder concentrava-se nas mãos do alto escalão de brâmanes e xátrias – membros das castas dos sacerdotes e dos guerreiros, como Bishnu –, e dos newars do vale de Katmandu.
 A vida eclética de Sundar Kumar Thapa, um homem da tribo magar, ilustra bem essa mudança radical de valores. Sundar é naturalista e gosta de praticar rafting nos rios de corredeiras agitadas que descem do Himalaia. Tornou-se um astro popular. “Já ganhei 15 medalhas em competições internacionais. Meu sonho é liderar a equipe do Nepal nas Olimpíadas”, diz. “E, como artista, tenho muitas músicas gravadas.” Peço a ele que toque uma de suas fitas. Com voz firme de tenor, ele entoa canções tradicionais com arranjos modernizados, numa mescla interessante de estilos musicais.
 A colonização do distrito de Bardia por montanheses como Sundar foi possível por causa de três grandes mudanças: a construção de estradas, a campanha para a eliminação do mosquito transmissor da malária e o desflorestamento. O mosquito, indiretamente, era o protetor mais eficaz da selva – e do elefante, do tigre e de outros animais. Como impedia a ocupação humana, o inseto serviu de guarda contra a derrubada das árvores e a erosão dos morros.
 Quando visitei o tarai em 1966, já havia o plano de tentar acabar com a malária e desenvolver a região. A doença tropical, na verdade, nunca foi erradicada totalmente. Mas o controle sobre ela permitiu que os agricultores das montanhas colonizassem as planícies. Enquanto isso, os países que davam ajuda financeira ao Nepal lançaram o maior projeto de obras públicas da história do país: uma rodovia que unisse, de leste a oeste, todo o território nepalês. Ano após ano, as equipes de construção das estradas avançaram cada vez mais por áreas selvagens. A cada estação seca, a rodovia Leste–Oeste chegava mais perto de Bardia.
 Aos olhos do mundo, o Nepal representava um sonho de pureza. O isolamento, a beleza de suas paisagens e a cultura tradicional cobriam o país com uma aura de paraíso isolado de todos os problemas terrenos. O exemplo da região de Bardia, antes tão remota, revela que agora não há mais como fugir dos dilemas da humanidade. O papel do Nepal, assim como o de seus habitantes, sofreu uma inversão. Não mais isento das complicações universais, o país tornou-se uma encruzilhada na qual se chocam duas tendências contraditórias. Uma delas é a procura por uma vida melhor com base na exploração dos recursos terrestres. A outra é o fato de que, se não passarmos a tirar menos e dar mais em troca, nós próprios iremos nos tornar uma espécie ameaçada.
 Os nepaleses procuram saber se há meios de conciliar essas realidades conflitantes, comuns em tantas outras sociedades do mundo. No Parque Nacional Real de Bardia, os ambientalistas tentam restabelecer um equilíbrio natural há muito desaparecido. Em 1986, os rinocerontes foram reintroduzidos no tarai ocidental, depois de serem levados para lá de caminhão do último hábitat que lhes restara, em Chitwan, a 300 quilômetros de distância.
 No nascer do sol, enquanto evapora a névoa dourada, Sundar e eu observarmos emocionados, sentados no alto das costas de um elefante, os rinocerontes revolvendo seu solo de origem. Mais uma vez, porém, o que começou como uma aventura quase acabou com um desfecho fatal. Zangado, um elefante macho começa a investir contra nós, acuando-nos contra a saliência de um rochedo acima do rio Karnali. Toda vez que o elefante se prepara para investir, Pardesi, nosso mahout (guia), espera o momento apropriado e o golpeia entre os olhos com um pedaço de pau. Ao mesmo tempo, cobre o enorme animal de impropérios em nepali. “Ele rouba nossa comida; ele destrói nossas cercas”, cochicha Paresi, com gotas de suor brilhando no pescoço. “Ele é badmas, ruim.”
 Depois de escaparmos dessa nova enrascada, fico me perguntando o que afinal estaria acontecendo nessa viagem ao Nepal. Por que tantas coisas estão dando errado? Concluo que a resposta é: bikas, desenvolvimento. Torres de alta tensão em Katmandu – um perigo para os balões de ar quente. E, aqui no tarai, estradas que levam colonos às terras dos elefantes – há pouco tempo, a selva era quase intocada.
 Apesar do intenso corte de árvores no tarai, o Nepal deve ter hoje mais florestas do que há uma geração. Milhões de árvores novas cobrem as colinas ao redor de Katmandu, que foram desmatadas durante o período Rana. Esse detalhe refuta a idéia de que os problemas ambientais do país começaram com o final de seu isolamento. A responsabilidade pelas florestas foi descentralizada nos últimos anos. Com isso, até no tarai os sinais de conservação são promissores. “Na época em que a selva era controlada pelo governo, ela não era de ninguém. Agora que ela nos pertence, cuidamos para que ninguém derrube as árvores”, conta-me um líder comunitário de Gulariya.
Um outro exemplo dessa nova mentalidade está em Bhaktapur, a terceira maior cidade do vale de Katmandu. Bhaktapur está repleta de maravilhas artísticas e arquitetônicas – como o pagode de cinco andares da cidade, o mais alto no Nepal. São tantos outros prédios históricos importantes que a Organização das Nações Unidas (ONU) incluiu a cidade entre os locais designados como Patrimônio da Humanidade. A degradação ambiental, porém, vinha deteriorando pouco a pouco esses tesouros. Por isso, o conselho municipal adotou uma estratégia para reverter a decadência – ao contrário de Katmandu, onde o crescimento descontrolado resultou em poluição atmosférica e ruas barulhentas e congestionadas. Em Bhaktapur, os motores de combustão interna foram banidos do centro histórico da cidade. E as velhas casas de estuque e madeira estão sendo preservadas, em vez de serem derrubadas para dar lugar a prédios vulgares de concreto.
 Também presenciei na cidade um episódio ocasional que me emocionou profundamente. Perto do pagode, ouvi o estalido de vidro chocando-se com vidro e, depois, uma animada conversa de garotos na praça Durbar. Eles jogavam bola de gude. O barulho agradável de crianças brincando na rua, felizes, livres da agitação e do perigo de caminhões em trânsito, me trouxe a lembrança do Nepal que eu conhecera no passado. A pureza da cena evocou algo da inocência que, com o tempo, desaparece de cada um de nós. Infelizmente.
 Inúmeras vezes, ao considerar todas as questões ambíguas que pairam sobre o Nepal, penso no carteiro que conheci há mais de 30 anos, quando Bishnu e eu viajávamos pelas colinas ao norte de Surkhet. Lembro-me da destreza de seus pés ao caminhar e de um longo tridente de ferro que lhe servia de cajado, arma e símbolo de sua função. Eu arfava para subir uma montanha – que os nepaleses chamam de colina, mesmo que tenha 3500 metros de altura! – quando ele nos ultrapassou com uma naturalidade absurda, como se a trilha íngreme e perigosa fosse plana. Envergava um topi, o boné nepalês, e largos calções militares gurkhas de cor cáqui. Trazia a mala de carteiro jogada às costas. Era pouco provável que soubesse ler as cartas que estava carregando, mas não havia dúvida, pelo caráter gravado em sua fisionomia, que se podia confiar a ele um envelope contendo 1 milhão de dólares. Sob seus cuidados, qualquer encomenda chegaria com segurança ao destino, não importando quantas semanas ou meses ele levasse até lá.
 Por causa de lembranças como essa, às vezes sinto que o país que conheci durante todos esses anos deve ser invisível. O Nepal de minha lembrança não é, nem de longe, a terra de sherpas que ajudam corretores da bolsa americana a escalar o monte Everest – a um custo de 60 mil dólares por cabeça. O Nepal que conheço é exatamente o que Bishnu disse: um reino de contrastes, que passou da Idade Média para o terceiro milênio no espaço de uma única geração. E agora é um país do Terceiro Mundo, pobre, onde as coisas não parecem bem resolvidas.
 Os nepaleses vivem num mundo em que não há mais como voltar atrás. O grande problema na vida ali deixou de ser a falta de contato com o mundo exterior. Em vez disso, os nepaleses – assim como todos nós, americanos ou brasileiros – descobriram-se diante dos dilemas elementares dos tempos modernos. Abertura para o mundo exterior, mas a que preço social e ambiental? Liberdade, mas para fazer o quê?
 Antes que fique rotulado no futuro apenas como um paraíso perdido, o Nepal tem algumas opções. Plantar bastante alimento no tarai. Reflorestar as montanhas. Despoluir Katmandu. Uma dose saudável de turismo e comércio de seus belos tecidos. Algumas usinas hidrelétricas e alguns computadores. Poder para o povo, sempre que possível. Muito menos corrupção. E, acima de tudo, educação.
 No fundo, o Nepal do carteiro jamais voltará. A população não quer esse passado de volta. Mas eu ainda vejo o lugar do mesmo jeito que vislumbrei aquele homem caminhando montanha acima. Seu tridente era o emblema de um Nepal que, embora não tenha desaparecido completamente, continua recuando, cada vez mais alto, nas brumas do Himalaia.
T. D. Allman (National Geographic, edição 007).

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O REINO DOS CORAIS

A grande barreira de Corais na Austrália: um espetáculo da vida submersa na maior estrutura construída por organismos vivos.
O feixe de luz da minha lanterna refletia o brilho prateado de dois grandes olhos de felino, e suas pupilas pareciam mais negras do que as trevas por onde deslizavam. Só havia um problema: gatos não rondam a 12 metros de profundidade no mar de Coral. Eram tubarões. Eu não sabia dizer de que tipo, mas alguns daqueles corpos indistintos pareciam ser bem maiores do que o meu. Para complicar, o ar de meu tanque de oxigênio acabou e tive de voltar à superfície longe do barco. Fui obrigado a atravessar, a nado, enormes ondas negras no rumo da distante luz da embarcação. A sensação era de estar preso num daqueles sonhos em que precisamos nos mover muito mais rápido do que conseguimos. Um pesadelo real.Prometi que muito tempo se passaria antes de eu voltar a mergulhar na Grande Barreira da Austrália. Dias depois, porém, descobri que promessas desse tipo não devem ser feitas ali. Pois lá estava eu, mais uma vez, a 15 metros da superfície, encarando outros olhos de felino. Eram de um gracioso e sarapintado tubarão Hemiscyllium ocellatum, que nadava perto de dois belos peixes-leão com nadadeiras abertas como asas emplumadas. Acima deles, uma vistosa coluna de coral erguia-se retorcida até bem perto da superfície, iluminada apenas pelas lâmpadas do barco e pela luz da lua cheia.A condição do mergulho era – mais uma vez – sublime. A luz suave enfatizava as formas de vida que crescem praticamente livres dos efeitos da gravidade. Flutuar junto delas, sem sentir o peso do corpo, me fez sentir como numa excursão a outro planeta – mas, mais uma vez, logo notei meu engano. A cena submarina era a própria essência do nosso planeta, que, afinal, deve seu consagrado tom de azul aos oceanos. Além do mais, uma única parede de coral contém um conjunto representativo da vida na Terra mais amplo do que um continente inteiro. Enfim, o fundo do mar só parece ser um outro mundo para aqueles que, como eu e você, nasceram acima da linha da maré.Os recifes coralinos formam-se quando colônias de plantas e animais marinhos tropicais com esqueleto de calcário crescem sobrepostos às gerações anteriores. Eles compõem os ambientes naturais visualmente mais diversificados que um ser humano pode conhecer, e a Grande Barreira de Corais é o maior conjunto coralino do mundo. A vasta e rasa plataforma continental do nordeste da Austrália proporciona uma base perfeita para o crescimento desse complexo de corais, que avança até 260 quilômetros mar adentro e tem mais de 2 mil quilômetros de extensão. No total, a Grande Barreira ocupa uma área de 350 mil quilômetros quadrados – um território um pouco maior do que o estado do Maranhão.
Para explorar essa imensidão submarina, o fotógrafo David Doubilet e eu vagamos por 6,5 mil quilômetros a bordo de barcos de mergulho. Passamos tantas horas submersos que comecei a estranhar a terra firme. No dia em que descobri uma rêmora – um peixe acostumado a grudar nos tubarões e nas raias-jamantas – pegando carona em minha perna, comecei a pensar seriamente que talvez fosse hora de retomar a vida na superfície.Embora o nome sugira uma faixa contínua, a Grande Barreira de Corais é, na verdade, uma comunidade de, no mínimo, 2,8 mil recifes diferentes. Apenas alguns são autênticos recifes em barreiras – quebra-mares que se elevam junto à orla da plataforma continental. Nos mares mais calmos que ficam além desse cordão, outros recifes aparecem na forma de círculos irregulares, conhecidos como plataformas coralinas. Estruturas menores, chamadas colunas coralinas, estão dispersas pelas áreas rasas.Os recifes formam-se a partir das praias, mas são encontrados com maior freqüência ao redor das 618 ilhas australianas próximas ao continente. Essas ilhas altas foram montanhas durante a Era Glacial, antes que as geleiras derretessem e elevassem o nível do mar – são verdadeiras, portanto, as lendas aborígines que mencionam gerações antigas caminhando até essas ilhas. Existem ainda cerca de 300 ilhas baixas, as cays, formadas de sedimentos de recife sobre bancos de coral. Quando excrementos de aves marinhas aglutinam os grãos de areia e plantas compactam o solo, essas ilhas desertas tornam-se bosques, enquanto outras, assoladas por tempestades, voltam a se transformar em bancos de areia sem posição fixa.O complexo de recifes e ilhas atua como um anteparo contra o mar revolto. Essa função ambiental estratégica permite a existência de leitos de vegetação marinha nas proximidades dos recifes e de florestas de mangues no litoral. Os mangues, por sua vez, capturam sedimentos, armazenam nutrientes e servem de viveiro para diversos habitantes dos recifes. Adicione aos mangues leitos marinhos entre recifes e outeiros submersos compostos de Halimeda, uma alga verde enrijecida pelo cálcio. Junte todos esses hábitats à água azul-celeste vinda do mar de Coral e à água cor de terra despejada do continente. Misture tudo a correntes, marés diárias e padrões climáticos sazonais: eis a receita do ecossistema da Grande Barreira de Corais.
Esse “planeta” submerso se parece mais com uma longa cadeia de províncias. Quatro seções principais são amplamente conhecidas: a Mackay/Capricorn, situada ao sul, primeira região onde a temperatura da água possibilita o crescimento do coral; a Central; a Cairns; e, por fim, a Extremo Norte, a mais remota e, por estar mais próxima da linha do Equador, a que abriga a maior biodiversidade.
 Nosso primeiro destino foi Eastern Fields, um atol raramente visitado, que fica nas proximidades do golfo de Papua, 320 quilômetros a leste da península australiana do cabo York, próximo à Nova Guiné. Essa região marinha primitiva e intocada é uma parte do Pacífico que, há cerca de 20 milhões de anos, semeou de corais a plataforma continental, depois que a deriva dos continentes deslocou a Austrália para o norte e a introduziu nos trópicos.
 Enquanto eu ajustava o tanque de oxigênio, Duncan Johnstone, um dos mergulhadores profissionais da nossa tripulação, dava uma série de conselhos. Segundo ele, a água tinha visibilidade de cerca de 45 metros e estava cheia de tubarões. O grande tubarão-branco é raro em águas tropicais, mas não é o caso de outro brutamontes, o tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier), que chega a medir 5,6 metros. Johnstone, felizmente, referia-se a espécies mais comuns, que oscilam entre 1,5 e 3 metros de comprimento, como os tubarões-cobre (Carcharhinus brachyurus). “Eles caçam normalmente em pequenos bandos”, continuou Johnstone. “Gostam de chegar perto para observar os mergulhadores. Se puder, simplesmente recue na direção dos recifes. Jamais suba de volta à superfície!”
 O alerta foi providencial. Mergulhando ao largo de corais verdes que lembravam os tubos de um órgão submerso, fui logo abordado pelos tubarões. Quando o bando se afastou, comecei a nadar horizontalmente, a 30 metros de profundidade, na beira de um abismo. Pairei ali por um instante antes de penetrar naquele vazio azul. Embora meu indicador de profundidade mostrasse um nível constante, eu não conseguia evitar a estranha sensação de estar em queda livre. Atuns-do-sul (Thunnus maccoyii) passavam abaixo de mim. Cardumes de peixes do gênero Naso nadavam em torvelinho como correntes visíveis. E formas bem maiores de vida assomavam no ponto onde o azul transformava-se em escuridão absoluta.
 Eu me sentia cada vez mais como uma partícula de plâncton. Então, dei meia-volta e subi devagar. Cruzei com peixes-porcos, peixes-cirurgiões e com nuvens de outros peixes que se alimentavam de tudo: algas, camarões e até os corais que lhes serviam de abrigo. Ao alcançar a linha da âncora do nosso barco, eu já sabia que meu principal desafio ali não seria enfrentar os tubarões, mas sim decifrar a incrível policromia desses recifes australianos.
 Cerca de 2 mil espécies de peixes habitam a Grande Barreira, e novas descobertas ocorrem a cada ano. O mesmo acontece com as estimativas de cerca de 4 mil moluscos e, no mínimo, 350 corais pétreos, os formadores dos recifes.
 Talvez porque já seja muito difícil inventar mais nomes novos, muitos dos peixes têm designações emprestadas de animais terrestres: peixe-morcego, peixe-lagarto, peixe-porco e, num duplo empréstimo, o peixe-coelho-cara-de-raposa (Siganus vulpinus). Aperfeiçoar minha capacidade de reconhecer as espécies só me deixou mais curioso para saber por que havia tantos tipos de peixe. Como tal riqueza biológica é possível se o aspecto azul e cristalino dos mares tropicais reflete a escassez de nutrientes e de plâncton, a base da pirâmide alimentar marinha? A água é tão transparente que, certo dia, eu imaginava estar atrás de um cardume ao longe quando, na verdade, seguia as sombras de atobás-marrons (Sula leucogaster) que voavam sobre mim carregando peixes para seus filhotes num cay próximo.
 O fato de os peixes adultos apresentarem diferentes padrões de nadadeiras, cores e comportamento foi minha primeira pista para o enigma da diversidade à minha volta. Nas proximidades dos recifes Portlock, não consegui identificar o que estava se movendo por trás de uma fenda numa crista de coral. Meu companheiro de mergulho, porém, logo percebeu do que se tratava ao ver uma enorme moréia com pintas pretas (Gymnothorax sp.) emergir para examinar minha nuca. Naquele momento eu estava distraído com um filhote de peixe-papagaio bicolor (Cetoscarus bicolor). As fêmeas adultas dessa espécie são castanho-avermelhadas e os machos, verde-jade e rosa.
Mudanças temporárias de cor aumentam as dificuldades para identificar quem é quem na Grande Barreira. Além disso, uma gama muito ampla dos peixes dos recifes muda de sexo com a idade ou quando alterações no meio social ativam hormônios que produzem características masculinas em detrimento das femininas – ou vice-versa. Quando o macho de um harém de peixes do gênero Pseudanthias desaparece, a fêmea dominante pode, no espaço de algumas horas, começar a agir como macho. E, em poucos dias, tornar-se fisicamente um deles.
 Deitei-me no convés e estava começando a cochilar quando outro peixe caiu sobre mim. Dessa vez foi fácil identificá-lo. Era um peixe-voador que, para escapar de um predador, alçara vôo com suas longas nadadeiras peitorais semelhantes a asas. Sua visita não foi nenhuma novidade a bordo. Pequenas lulas e peixes-rubi estavam sempre caindo sobre a popa. Quando Johnstone estava ali cortando em filés uma garoupa para o jantar, um tubarão-cobre (Carcharhinus brachyurus) atirou-se sobre a popa, debatendo-se furiosamente. Para completar o ambiente, aves marinhas recobriam o chão de excrementos. Pelo visto, estávamos nos integrando ao ecossistema. Não tínhamos avistado nenhum outro barco por centenas de quilômetros. Perfeito. Só nós e o mar.
 Parte do prazer dessas áreas virgens deve-se ao fato de que a Austrália está empenhada para que continue assim. Em 1975, praticamente toda a região dos recifes foi incluída no Parque Nacional Marinho da Grande Barreira de Corais, um dos primeiros santuários do gênero criados no planeta – e, ainda hoje, o maior. Destinado sobretudo a impedir a exploração petrolífera e a mineração nos recifes, o parque permanece aberto para outras atividades. A pesca comercial e esportiva e a captura de peixes ornamentais e de conchas é regulamentada. Alguns trechos, porém, foram isolados como zonas de pesca proibida, bancos de pesquisa ou reservas para espécies ameaçadas – caso dos dugongos, mamíferos marinhos aparentados dos peixes-bois brasileiros.
 Das sete espécies de tartarugas marinhas do planeta, seis são vistas na região da Grande Barreira. A menos ameaçada de todas é a de carapaça achatada, a Natator depressus, que nada apenas em águas australianas. As fêmeas das tartarugas-verdes (Chelonia mydas) viajam 2,6 mil quilômetros desde a Indonésia e a Nova Caledônia para depositar seus ovos em locais como a ilha Raine, um cay na seção Extremo Norte da barreira. Do barco notávamos como milhares delas transformavam a paisagem da praia todas as noites, sacudindo as nadadeiras e espalhando areia para todo lado.
 Durante um mergulho nas encostas de coral sobre as quais a ilha Raine se assenta, as tartarugas passaram tão perto de nós que pudemos distinguir marcas de dentes de tubarão em seu casco. Outras, pesando até 180 quilos, descansavam em cavernas nas paredes dos recifes. Todas as vezes que espiei dentro de um daqueles nichos escuros vi também grandes olhos de peixes das famílias Apogonidae e Holocentridae ou de outras espécies noturnas. Foi mais uma pista para que eu entendesse a extraordinária riqueza biológica da região.
 Os recifes coralinos estão crivados de cavernas e fendas. Essa microtopografia multiplica substancialmente a área total da superfície do recife e a variedade de nichos disponíveis. É ali que os animais do turno da noite passam o dia, que os diurnos se escondem à noite e que uma diversidade de ascídias, corais macios e esponjas, desprovidos de esqueleto rígido, mora em tempo integral. Para outras criaturas marinhas, as fendas mais estreitas substituem a proteção de conchas, espinhos ou substâncias químicas de gosto ruim. Muitas delas são capazes de cavar seus próprios túneis, incluindo algumas algas e esponjas que aparentam não ser rijas o bastante para essa árdua tarefa.
 A caminho do sul da Grande Barreira, nos aproximamos de terra firme e avistamos o cabo Weymouth no horizonte. No recife Ferguson, desci até o fundo para pousar em um trecho arenoso e descobri que um tubarão Triaenodon obesus tivera a mesma idéia – e estava a 3 metros de mim. Saí de fininho. O tubarão nem se mexeu, mas em 1 minuto aquele hábitat de aparência erma encheu-se de dezenas de enguias que brotaram da areia, emergindo de suas tocas assim que se extinguiu a comoção causada pela minha chegada.
 Também os peixes-papagaio Bolbometopon muricatum parecem adorar esse lugar. A espécie, a maior das 29 de peixes-papagaio da região, chega a pesar mais de 45 quilos e devora até 4,5 toneladas de coral por ano. Depois de arrancar nacos do coral com os dentes, o peixe os mastiga com um segundo conjunto de potentes mandíbulas no fundo da garganta. Quando um deles defecou, uma cortina de pasta de coral caiu sobre mim. Meu único consolo, naquela insólita situação, foi imaginar que muitas das deslumbrantes praias coralinas arenosas vizinhas dali nasceram do esterco desses peixes tão exóticos.
 Em mergulhos muito longos, os mares tropicais também consomem todo o calor do nosso corpo. Quando eu sentia um pouco de frio no fundo, só me restava voltar à superfície, aquecida pelo sol à temperatura da água da minha banheira. Ao flutuar sobre a areia na área mais rasa, a claridade doeu-me nos olhos e percebi quão evidente era o fenômeno que favorecia a abundância de vida nos recifes: energia solar ilimitada. Tal como em terra firme, a cadeia alimentar marinha depende da capacidade das plantas de converter a energia solar em nutrientes e material de construção.
 Outro segredo da fecundidade da Grande Barreira é que boa parte das plantas vive no interior de animais. Confundidos no passado com plantas de cores vivas, os corais, na verdade, são carnívoros aparentados com as anêmonas e as medusas. Como elas, os corais usam tentáculos dotados de ferrões para capturar presas microscópicas. Eles também podem atrair alimentos com seu revestimento mucoso e absorver nutrientes pela epiderme. Mesmo assim, quase todo o seu alimento provem de algas castanho-douradas que eles abrigam em seus tecidos. São milhões delas a cada 6 centímetros quadrados. As enzimas do coral levam as algas a liberar carboidratos. Em troca, as algas obtêm nitrogênio das substâncias excretadas pelo coral e, de quebra, um lar.
 Um número surpreendente de outros animais também cria algas em seu interior. As parcerias têm um papel importante num recife. A maior família de peixes marinhos é a dos gobídeos, com mais de 2 mil espécies no mundo todo. Muitas das espécies tropicais de gobídeos compartilham tocas com o camarão, que mantém a habitação limpa enquanto os peixes agem como sentinelas, alertando quando há perigo. Mas as parcerias nem sempre indicam que os imperativos da barriga cheia foram revogados. Durante um mergulho, vi uma barracuda abrir a boca para um budião, peixe que poderia remover os parasitas alojados na sua boca e nas suas guelras. Na hora, contudo, resolveu abocanhá-lo para saciar sua fome.
 Cerca de 280 quilômetros ao sul do recife Ferguson entramos na seção Cairns e desembarcamos na ilha Lizard. Depois de três semanas navegando, o chão parecia balançar tanto que eu mal consegui parar em pé. Mesmo assim, a perspectiva de caminhar mais do que os 22 metros de comprimento do nosso barco era tão animadora que segui cambaleando até o mirante de Cook, o topo de granito da ilha, 359 metros acima do nível do mar. Em 1770, durante uma expedição para a descoberta do suposto continente da Terra Australis, o capitão inglês James Cook galgou essa elevação em busca de uma saída para o que estava começando a lhe parecer uma interminável barreira de recifes. O célebre navegador já tivera o casco do navio perfurado por corais. Por volta de 1900, a Grande Barreira já havia destroçado 1,2 mil embarcações. Nós mesmos havíamos feito algumas excursões cheias de sobressaltos a áreas até hoje classificadas como “inexploradas”.
 O mirante de Cook estava envolto em nuvens durante minha visita. Pombos Ducula bicolor arrulhavam nos eucaliptos e lagartos-couraçados (Varanus panoptes) de 1,2 metro arrastavam-se fazendo farfalhar o mato. Apesar da lembrança de Cook, o lugar, um tanto sinistro, lembrava não o período da colonização européia, mas o “tempo do sonho”, a era mística vislumbrada pelos pioneiros aborígines, que no passado celebravam seus ritos de iniciação masculina no topo do monte.
 Na Estação de Pesquisas da ilha Lizard, procurei por Bob Podolski, um biólogo marinho da Universidade da Carolina do Norte. Ele fora à ilha para estudar os ofiuróides, parentes das estrelas-do-mar cujos longos braços quebram-se com facilidade. Enquanto o braço que se desprendeu fica se contorcendo, distraindo o que quer que o tenha atacado, o resto do ofiuróide pode escapar. O membro perdido logo se reconstitui. “Um ofiuróide adulto origina mais de 1 milhão de larvas durante sua vida, mas, apesar disso, conseguirá gerar um único indivíduo, e se tiver sorte”, explica Podolsky sobre a difícil reprodução das estrelas marinhas.
 Três dias depois, desembarcamos nos recifes Hastings, perto da cidade portuária de Cairns. Barcos recém-atracados despejavam mergulhadores equipados de cilindros de ar comprimido ou snorkel. O lugar parecia desgastado, com os recifes macerados por pés-de-pato e por mãos que se agarraram para permitir uma observação melhor. E também era assolado por muitas coroas-de-espinhos (Acanthaster planci), enormes estrelas-do-mar que possuem ferrões venenosos e se alimentam de corais vivos.
 Enquanto eu flutuava contemplando alguns Sphaeramia nematoptera – para ter uma idéia de como eles são, imagine peixinhos gorduchos vestidos de palhaço –, um mergulhador aproximou-se e enterrou um arpão numa das estrelas-do-mar. Descobri logo que não se tratava de nenhuma agressão ao ambiente. Explosões periódicas na população das Acanthaster planci podem acabar com a cor e a vida dos recifes. Enquanto os cientistas discutem se isso é um evento natural ou resultado de atividades humanas – como a pesca excessiva dos peixes que se alimentam de jovens estrelas-do-mar –, os promotores de excursões contratam caçadores submarinos para remover espécimes adultos dos locais visitados por turistas.
Apenas 3,5 milhões de pessoas vivem em todo o estado de Queensland, mas a cidade de Cairns recebe quase 800 mil visitantes estrangeiros por ano. A maioria, obviamente, chega para conhecer a Grande Barreira. E se surpreende ao descobrir que os suntuosos recifes em águas cristalinas mostrados nos cartazes turísticos situam-se, na verdade, a 40 quilômetros ou mais da costa. A bordo de um dos velozes catamarãs que transportam até 300 passageiros de uma vez, notei muitos tripulantes do barco munidos de luvas de borracha e prontos para lidar com saquinhos de vômito – o passeio tem também os seus reveses. A embarcação atracou numa plataforma enorme nos recifes Agincourt. Alguns grupos foram mergulhar com guias ou nadar com snorkels, mas eu preferi sobrevoar de helicóptero os baixios azul-turquesa. Depois, a bordo de um semi-submarino envidraçado, sentei-me ao lado de uma vovó alemã para observar paredes de coral e me refresquei na área demarcada com cordas para o mergulho com snorkel.
 Depois da região de Cairns, a área mais visitada da Grande Barreira são as ilhas do grupo Whitsunday, que ficam na seção Central. Esse arquipélago é muito procurado por viajantes estrangeiros e por australianos em férias, sobretudo velejadores. Como as ilhas espalham-se perto do continente, a região não tem águas muito cristalinas. Mesmo assim, quando mergulhei a 9 metros de profundidade ao largo da ilha Hook, encontrei uma viçosa mistura de corais. Entre eles havia uma variedade ainda maior de corais, pepinos-do-mar de cores vivas e muitos outros peixes que eu desconhecia completamente.
 Não consegui, por exemplo, identificar o peixinho amarelo que cismava em subir na manga do traje da minha parceira de mergulho, Amanda Parr. Ela e um grupo de moradores locais estavam substituindo as bóias de sinalização incrustadas de vegetação marinha. As bóias servem para guiar os navegantes até os ancoradouros flutuantes, que foram instalados ali para amenizar os danos provocados pelas âncoras dos barcos nos recifes das ilhas. Ao lado de Parr, instrutora de mergulho, estava Tony Fontes, treinador de instrutores de mergulho, e Elmer Ten Haren, supervisor das atividades de mergulho em uma empresa de turismo. Essas pessoas ganham a vida na água. Mas ali estavam elas, mais uma vez, mergulhando em seu dia de folga – e de graça. Quando perguntei o motivo, Ten Haren limitou-se a dizer: “Porque isso precisa ser feito”.
 Na verdade, nem o Departamento de Parques de Queensland nem a administração do Parque Marinho da Grande Barreira de Corais contam com mão-de-obra suficiente para realizar todas as tarefas necessárias na vasta reserva sob seu encargo. “É aí que nós entramos”, explica Fontes, co-fundador de um grupo voluntário que se autodenomina Ordem dos Heróis do Coral Submerso. “Usamos nossa habilidade de mergulhadores para fazer a manutenção das bóias, retirar lixo dos recifes, ajudar em projetos de pesquisa e, principalmente, educar o público. Queremos mostrar às pessoas como o coral se sente quando elas o cortam arrastando uma âncora.”
 Eu preparava uma lista com as principais formas de vida dos recifes e resolvi acrescentar o nome desses mergulhadores no item “heróis genuínos”. Esse relatório informal da diversidade local, maior a cada momento, levou-me até a Universidade James Cook, em Townsville, a principal cidade litorânea ao longo da seção Central da Grande Barreira. Eu queria uma opinião profissional, menos deslumbrada, sobre a razão de a vida nos recifes ser aquele imenso desfile de formas e matizes. Por que, afinal, existem ali 20 espécies parecidas de peixe-borboleta (família Chaetodontidae), em vez de apenas duas ou três?
 “Na verdade, nós não temos a menor idéia. Mas posso afirmar que boa parte da diversidade entre os grupos de peixes tropicais resulta de acidentes históricos. É provável que, nas eras glaciais, quando o nível do mar baixou, as bacias oceânicas tenham ficado isoladas e suas populações seguido linhas evolutivas separadas, que hoje consideramos espécies distintas. Depois, quando o mar tornou a subir, muitas migraram para a Austrália e passaram a habitar lado a lado”, explica David Bellwood, um importante ecologista marinho. “Para mim, a melhor decisão ‘administrativa’ que a Austrália já tomou foi colocar seus recifes bem longe da praia e ao longo da costa setentrional do continente, que ainda é bem pouco habitada”, completa Bellwood, com bom humor.

Por outro lado, o reino dos corais não está imune às mudanças que vêm ocorrendo nos ecossistemas terrestres. A agricultura e a especulação imobiliária na planície costeira de Queensland tomaram o lugar de muitos trechos alagadiços que funcionavam como filtros naturais da água doce do continente. A ocupação desordenada – aliada ao desmatamento, ao excesso de pastagem e ao mau escoamento de água das cidades, plantações e indústrias – gera um volume maior de sedimentos e nutrientes despejados na direção da Grande Barreira. O coral consegue subsistir em águas surpreendentemente turvas, desde que as marés e as correntes removam os sedimentos com certa periodicidade. Mas os nutrientes em excesso arruínam um recife. Qualquer nível de nitrogênio acima do moderado prejudica o crescimento e a reprodução dos corais. Ao mesmo tempo, fertiliza algas que não dependem da simbiose e podem asfixiar seus vizinhos.
 A perfuração de um coral revela faixas distintas cuja espessura dá a medida do seu crescimento anual – mais ou menos como os anéis de um tronco de árvore. “Nossas amostras indicam que alguns recifes pararam de crescer nos últimos tempos”, informa Jon Brodie, especialista em qualidade da água do parque marinho. “É possível associar esse fato aos níveis mais elevados de nitrogênio na água proveniente dos rios. Mas é importante ressaltar que, quando dizemos que a Grande Barreira corre risco, estamos falando apenas das partes internas dos recifes. As áreas mais remotas e a orla externa ainda estão em boas condições”, completa ele. Os especialistas preocupam-se muito com um aparente aumento no ritmo do branqueamento. Quando a água se aquece muito além do normal, quase sempre os corais perdem suas algas, ficam brancos e morrem.
 Outro perigo são os furacões. Um recife típico na Grande Barreira é atingido por um deles a cada 20 a 50 anos. “Antes de afirmar qualquer coisa sobre a saúde dos recifes, é preciso conhecer sua idade e o modo pelo qual está se recuperando da perturbação mais recente. Temos de nos livrar da idéia de que os recifes devem, em todos os momentos e por toda parte, ter a aparência dos prospectos de turismo, como se fossem sempre jardins submarinos perfeitos”, pensa Terry Done, um graduado cientista do Instituto Australiano de Ciência Marinha.
 Depois de navegar cerca de 150 quilômetros para nordeste a partir do porto de Gladstone, nosso barco atingiu o complexo de recifes Swain, na seção Mackay/Capricorn, o mais amplo cinturão de recifes da Grande Barreira. Assim como o jardim do Éden bíblico, o lugar onde eu estava tinha um problema com serpentes. Havia serpentes-do-mar por toda parte, coleando entre os ramos de coral, à caça de pequenos peixes e enguias. Embora o veneno delas seja mais letal que o de uma naja, essas serpentes normalmente não são tão irascíveis – apenas curiosas.
 Eu, meu filho Russell e David Doubilet fomos obrigados a vestir grossos trajes de borracha, já que a temperatura da água era vários graus mais baixa do que na seção Extremo Norte. Uma serpente-do-mar cor de oliva (Aipysurus laevis), de 1 metro e meio, seguiu Russel por toda parte. A cobertura dos recifes coralinos não era tão densa quanto nas seções anteriores e havia também menos espécies de peixes, embora o lugar ainda fosse um carnaval de barbatanas e escamas. Eu estava tentando distinguir vários tipos de peixe-anjo (família Pomacanthidae) quando uma massa do tamanho de um microônibus escureceu o lugar. Era uma garoupa de mais de 300 quilos! Naquela tarde, jamantas e raias-morcego ainda mais vultosas surgiram “voando” por entre nuvens de plâncton na corrente marinha.
 Dois golfinhos Tursiops truncatus, mãe e filhote, chegaram à noitinha para uma demorada visita ao redor do barco. Mais adiante, outros deles desenhavam arcos com seus saltos entre o mar e o céu cor de papaia. Mas a calma no interior daquele labirinto raso de recifes era enganosa. Navegando em mar aberto na noite seguinte, o barco pegou de través ondas com até 3 metros. Ele estremecia a cada golpe, enquanto o vento arrojava-se a 40 nós na escuridão cada vez mais densa e eu fazia tratos com Deus. O farol assinalando North Reef foi avistado bem depois da meia-noite. “Até que enfim, caramba!”, berra o capitão Norm, animado com a perspectiva de segurança. Durante meses, eu tentara analisar os recifes em seus aspectos geológicos, ecológicos e administrativos. Naquele instante, porém, estava apenas grato, e muito, pelo fato de os recifes existirem.
 Na noite seguinte, adormeci com os choramingos das aves pardelas (Puffinus pacificus) na ilha Heron, na porção sul da Grande Barreira. Ali, dezenas de milhares de aves marinhas reúnem-se todas as noites durante a época de nidificação. Nossa longa jornada estava quase no fim. Depois de atravessar a ilha até uma estação de pesquisa mantida pela Universidade de Queensland, conheci Ove Hoegh-Guldberg, líder de uma equipe de pesquisadores que talvez tenha feito uma descoberta fascinante. “Em baixas profundidades, a luz solar deste lugar pode ser bastante tóxica”, explica ele. “Os corais possuem pigmentos especiais para absorver os raios ultravioleta, e as algas que vivem em simbiose com eles escondem-se na sombra, protegendo-se sob aglomerados desses pigmentos. Mas, inversamente, nas profundidades onde a luz solar mal penetra, as algas abrigam-se bem no interior dos aglomerados de pigmentos. Assim, quando estes irradiam de volta a energia luminosa que acumularam, as algas podem usá-la para a sua fotossíntese.” Essa nova irradiação causa a luminescência dos corais – um fenômeno que David Doubilet havia fotografado antes que se conhecesse exatamente como ou por que ele ocorria.
 Ao sair da estação de pesquisa, caminhando pela praia na maré baixa, deparei com algumas pessoas agachadas e escavando a areia como as crianças que constroem castelos. Eram alunos orientados por Adrian Jones, ecologista marinho da Universidade de Queensland. “Vejo esses charcos como grandes folhas verdes”, explica ele. “Todo tipo de algas microscópicas e bactérias fotossintetizantes vive entre os grãos de areia, e nossas medições indicam que elas produzem tanto oxigênio quanto uma área equivalente de cobertura vegetal numa floresta tropical úmida. Também produzem açúcares complexos que ligam sedimentos e ajudam a manter coesa a estrutura dos recifes.”
 Para Doubilet, que sempre foi um explorador do mar, a invenção do equipamento de mergulho abriu os olhos da humanidade para um reino que guardara seus mistérios desde tempos imemoriais. Afundei os dedos dos pés na areia cálida e úmida e pensei seriamente a respeito. Quantas vezes em minha vida eu caminhara por belas e ensolaradas praias tropicais sem jamais imaginar que também suas areias eram uma fronteira quase desconhecida, repletas de criaturas que sobreviveram diante 1 milhão de chances de perecer?
Tudo na Grande Barreira de Corais, enfim, apresenta-se como uma poderosa revelação. Para compreender de fato a fantasia orgânica e sólida que sustenta um recife coralino, talvez precisemos reunir os mais avançados conhecimentos, tecnologias e teoremas disponíveis. Mas talvez então, com ar de entendidos, acabemos apenas por comentar: “Ora, isso é apenas o que a vida na Terra é capaz de produzir quando se juntam água morna, luz solar e tempo”.Douglas H. Chadwick (Revista National Geographic, ed.09, janeiro de 2001).