terça-feira, 27 de maio de 2014

NILO AZUL

Uma expedição percorre pela primeira vez, numa viagem ininterrupta, toda a extensão do Nilo azul, na Etiópia
 Do topo do monte Gishe, a 3200 metros, Marigeta Birhane Tsige, um velho sacerdote da Igreja Ortodoxa, admira a mina d’água que, para muitos etíopes, é a nascente de um dos grandes rios da África, o Nilo Azul, ou Abay Wenz, o “Grande Rio”.
A água brota em pequenas lagoas cercadas por um denso matagal e campos de relva. Os etíopes contemplam o cenário com respeito ancestral. Ao redor da fonte, moradores de aldeias vizinhas esperam a vez de encher suas cabaças, garrafas, cantis e garrafões de plástico com as águas sagradas da fonte do Nilo. “Todos vêm buscar o poder do rio”, diz Marigeta (nome que significa “instrutor santo”). “Com a promessa de sacrificar um carneiro ou uma novilha, pode-se pedir ao espírito da nascente para curar mil males diferentes ou abençoar um lavrador com uma colheita generosa.”Marigeta explica que, ainda que o Nilo Azul aflore à superfície pela primeira vez aqui, no topo do monte Gishe, a verdadeira nascente, sua origem absoluta, fica no pé da montanha. “O Gishe paira sobre o lago Tana, de onde realmente escorre o Abay”, conta o sacerdote. A partir da nascente, a água desce pelo rio chamado de Pequeno Abay até chegar ao maior lago da Etiópia. Outros riachos também desembocam ali. Então, no lado sudeste do lago, a água do Tana vaza e despenca pelas cachoeiras de Tis Isat (“Fumaça de Fogo”). Começa então o verdadeiro caminho do Nilo Azul pela Etiópia.Marigeta Birhane já acompanhou boa parte do curso sinuoso do rio pelo interior do país. Os etíopes entendem que essa jornada abrangente dá ao Nilo Azul seus poderes especiais. “Ele corre ao redor de toda a Etiópia, como um pastor protegendo os rebanhos”, ilustra Marigeta. “Os italianos bombardearam nosso país em 1935, mas nunca nos derrotaram. Eles tinham as bombas, mas nós contávamos com uma arma muito mais forte: o poder do Abay.”Durante mais de um mês, nossa equipe seguiu a rota do Nilo Azul pelo país africano. Antes de visitar sua nascente, no monte Gishe, havíamos percorrido um trecho a pé e de barco ao longo do rio, desde as cachoeiras de Tis Isat até a fronteira com o Sudão, numa viagem de mais de 800 quilômetros. Durante esse longo trajeto, o Nilo desce quase 1,2 mil metros e, num certo trecho, já escavou um cânion de 25 a 30 quilômetros de largura, tão vasto e profundo quanto o Grand Canyon americano.Nossa expedição foi a primeira a percorrer, numa viagem ininterrupta, toda a extensão do Nilo Azul na Etiópia. Constatamos que a reputação do rio varia muito. Em alguns lugares, ele é amado e odiado, reverenciado e temido, tratado como um santo e desprezado como o pior dos pecadores. Suas águas levam embora a preciosa camada fértil da superfície do solo e passam velozes pelo país, sem deixar uma só gota armazenada. O rio é ainda infestado de crocodilos, hipopótamos e mosquitos portadores de malária. Profundo como um fosso, divide o país em dois. Ao mesmo tempo, suas águas são consideradas, tanto pelos cristãos ortodoxos como pelos animistas, um abrigo de entidades poderosas. Alguns são pequenos demônios, mas há também um grande espírito cultuado quase como um deus pelos etíopes. “Não deixem de dar um pedaço de pão ao Abay”, foi o conselho de uma mulher com uma cruz azul tatuada na testa, assim que iniciamos nossa caminhada pelo desfiladeiro superior do Nilo Azul, a sudeste do lago Tana. “Na água existem djins, espíritos maus que podem agarrar vocês.”Sua advertência não nos pareceu tão implausível. Logo abaixo das cachoeiras de Tis Isat, o Nilo Azul abre caminho por um estreito cânion de rocha vulcânica negra. Estávamos no início de setembro, no fim da estação das chuvas, e o rio, muito cheio, corria veloz, com suas águas pesadas de tantos sedimentos. Longe de ser azul, o Nilo era turvo, de um marrom barrento, e jorrava raivoso. As ondas que formava batiam contra as rochas do caminho. Imaginei aquelas vagas horríveis arrastando um de nós para o fundo. Por isso, com a melhor das intenções, atirei às águas o resto do meu tablete de cereais, esperando que os espíritos gostassem de granola tanto quanto de pão.Havia outros djins, outros perigos associados ao rio. Para os etíopes, o Nilo Azul não é apenas um rio mágico – ele também tem enorme importância estratégica. Seu caminho de 900 quilômetros pelas regiões montanhosas do centro do país já foi usado como linha de defesa e bloqueio. Como, até o século 20, apenas duas pequenas pontes de alvenaria permitiam a travessia do Nilo, os reis e príncipes em guerra podiam retirar-se para o topo das montanhas, cada qual de um lado do rio, e sentir-se em total segurança – como se tivessem erguido atrás de si uma ponte levadiça. Hoje pode-se atravessar o Nilo Azul por três pontes mais modernas, de concreto e aço, ambas com duas pistas, que garantem uma restrita ligação entre as duas metades do país. Mas, alguns meses antes da nossa chegada, um conflito fronteiriço entre a Etiópia e a Eritréia havia irrompido no norte do país – e agora todas essas pontes estavam muito bem protegidas. Só podíamos viajar porque o governo etíope nos concedera uma autorização especial para passar com nossos barcos por baixo de duas delas.Mas várias outras preocupações rondavam nosso grupo: as famigeradas gangues de bandidos, os shiftas, que se escondem no desfiladeiro e já haviam atacado expedições anteriores; crocodilos do tamanho de pequenos dinossauros e com um temperamento igualmente feroz; o calor sufocante; as doenças tropicais; as corredeiras desconhecidas. E também havia as tribos das regiões mais baixas, cujos membros têm o “amistoso” costume de atirar suas lanças antes de fazer qualquer pergunta. Contra tudo isso contávamos apenas com nossa sorte – e com a oferenda que atirei para o Nilo Azul
.O núcleo do nosso grupo era formado por dez pessoas, incluindo três barqueiros, um paramédico e um intérprete. Com nossos guias e carregadores, os burros e seus condutores, e muitos outros agregados de diversas funções, parecíamos mais uma caravana de mercadores do que uma força expedicionária. Nem sempre ficava claro quem estava no comando. E também nunca se sabia onde era o começo ou o fim da equipe. Mas, apesar da bagunça aparente, era sempre fácil acompanhar a trilha de argila negra, pisoteada por dezenas de milhares de pés descalços de lavradores etíopes.Uma caravana de dezenas de pessoas que seguiam para Bahir Dar, às margens do lago Tana, passou por nós. A cidade estava a um dia de caminhada de suas aldeias e plantações, situadas nos planaltos e montanhas acima do desfiladeiro do Nilo Azul. Todos olhavam fixamente para nossa pele branca, quase sem acreditar no que viam. De fato, muitos nativos nunca haviam visto ferenjocch (estrangeiros brancos), assim como nunca estrangeiros brancos tinham excursionado pelo interior do país. Por isso, nós também os fitávamos com curiosidade. Esses etíopes das montanhas são da etnia amhara, povo que dominou o país durante o reinado do lendário imperador Hailé Selassié. Altos e esguios, com os zigomas salientes, os dentes uniformes e grandes olhos negros, eles irradiavam uma beleza exótica com seus mantos, turbantes e vestidos brancos de ricos bordados. As mulheres traziam no pescoço cruzes de prata ou de madeira, um sinal de sua devoção à Igreja Ortodoxa. Por outro lado, a maioria dos homens portava armas automáticas – fuzis Kalashnikov e G3.
 A maioria dos nossos guias e carregadores também levava armas semelhantes – como eles integram as milícias de defesa de sua aldeia, o governo exige que estejam sempre armados. Um deles, Kes Yeshambel Berhanu, também era sacerdote e trazia ao pescoço, junto com a Kalashnikov, uma grande cruz de bronze. Quase todos os aldeões por quem passávamos reconheciam nosso sacerdote armado. E paravam para lhe pedir a bênção e beijar a sua cruz.
 Nossa trilha descia paralela à margem esquerda do Nilo Azul, tão perto da beira do rio que, às vezes, desaparecia sob uma torrente de lama. Na Etiópia, a primavera chega com o final das chuvas. As terras que atravessávamos estavam com novos brotos de relva, margaridas amarelas e plantações de milho. Ramos de jasmim sobre os galhos das acácias perfumavam o ar. Os pássaros tecelões-de-cabeça-branca (Dinemellia dinemelli), que acompanham os búfalos, viajavam entre os arbustos das margens como grandes abelhas douradas.
 Depois de 25 quilômetros, porém, demos adeus ao Nilo Azul. Nosso novo caminho subia até um planalto cultivado, bem elevado, enquanto o rio despencava num cânion com paredões verticais de basalto negro. A rocha do desfiladeiro brotou de fissuras no solo há cerca de 30 milhões de anos, e hoje recobre camadas de calcário e arenito – em certos trechos, a faixa de basalto chega a ter 2 quilômetros de espessura. A dura pedra vulcânica é a mão que vai conduzindo o Nilo Azul em sua viagem curvilínea e duradoura pela África.
 O rio jorrava com estrondo pelo cânion, quase 1 quilômetro abaixo de nós, quando passamos por grupos de casas circulares cobertas com sapé e cercadas por muros baixos de pedra e moitas de margaridas. Em ambos os lados do desfiladeiro, o terreno se elevava em vastas encostas com terraços. Cada pedacinho de terra plana era recoberto por áreas cultivadas que rebrilhavam ao sol com seus tons verdes e dourados. Em muitos desses campos, pequenos grupos de homens, mulheres e crianças, de cócoras, arrancavam laboriosamente o mato com as mãos, fileira por fileira. Alguns nos olhavam espantados. Outros nos cumprimentavam, inclinando o corpo três ou quatro vezes, com rapidez. Um camponês parou sua junta de bois, largou o arado, correu até a beira do campo e estalou o chicote. Ampliando então a voz com as mãos em concha, anunciou aos gritos nossa chegada, para que a notícia alcançasse seus vizinhos vale abaixo. Outros se aproximaram ansiosos para nos oferecer grossas fatias de injera (pão) ou nos convidar para um café em suas casas.
 “Tenaistellegn!” (Que Deus lhes dê saúde!), gritávamos para todos, como havíamos aprendido com nossos guias. “Endemen adderachehu!” (Bom dia para vocês!) Mesmo assim, alguns tremiam de medo com a nossa presença. Uma jovem adolescente, carregando um jarro de água nas costas, simplesmente caiu em prantos. “Ela nunca tinha visto uma pessoa branca”, explica depois nosso intérprete, Zelalem Abera Woldegiorgis. Rapaz decidido, Zelalem já percorrera todo o país como guia e sabia como acalmar os temores da moça. Pegou sua mão com delicadeza, falou com ela em voz baixa, garantiu que tínhamos boas intenções e explicou que a cor da nossa pele não era uma doença contagiosa. “Nós só conhecíamos ferenjocch em fotografias. Gente com os intestinos, o estômago, o coração saindo para fora”, conta Atele Asseras, chefe da aldeia de Genet Yamaryam. Ele se referia às fotos de soldados italianos mortos feitas durante a ocupação da Etiópia, cerca de 60 anos atrás. “Nunca tínhamos visto um estrangeiro de tão perto.”
 Agora, porém, a casinha de taipa de Atele estava cheia de ferenjocch, já que cinco de nós aceitamos seu convite para tomar café. Sentamos em bancos baixos de madeira enquanto sua mulher torrava punhados de grãos de café. Uma fragrância deliciosa tomou conta do ar.
 Atele não foi o primeiro etíope a nos falar sobre os italianos. Estava claro que ninguém havia esquecido aquele amargo período da história do país. Mais de uma vez tivemos de apaziguar grupos de homens armados que nos olhavam com suspeita, garantindo-lhes que não fazíamos parte de nenhum exército invasor. “Eu reconheci um de vocês”, continua Atele, indicando o barqueiro, Michael Speaks, que estivera na região em 1996. “Eu o vi passando no barco e pensei que os italianos haviam voltado para nos invadir. Cheguei a enquadrar você na mira do meu rifle”, completa, apontando para a Kalashnikov encostada na parede. “Estava pronto para disparar, mas aí você acenou para mim.” Demos boas risadas e tomamos nosso café – e também decidimos acenar para toda pessoa que encontrássemos.
 Alguns sons são capazes de nos despertar num instante – a pessoa sente que algo está errado antes mesmo de estar completamente acordada. Entre as névoas da minha mente adormecida, ouvi primeiro o tropel dos burros passando pela barraca. Sentei na cama e logo ouvi o grito e a correria dos homens. Veio então o clarão e o disparo de uma Kalashnikov. Um tiro. Depois outro. Mais um. Deitei-me no chão da barraca, com o coração aos pulos. Mais dois tiros ecoaram pela noite. A primeira reação, para todos, foi pensar que estávamos sendo atacados pelos shiftas. Começamos a gritar, cada um de sua barraca, desesperados. “Foi apenas um ladrão de burros”, anuncia Zelalem. O gatuno conseguiu escapar, de mãos vazias.
 Pela manhã, os moradores da aldeia próxima queixaram-se de que nossos homens não haviam matado o ladrão. “Com certeza não é daqui. Entre nós não há bandidos”, juravam. Outro homem, de turbante azul e brinco de pirata na orelha, anunciou: “É mais provável que seja um espírito. Um demônio do Gihon que tomou a forma de um ladrão. É por isso que vocês não conseguiram acertar nenhum tiro”.
 Gihon é mais um nome dado pelos etíopes para o Nilo Azul, e que também tem fortes conotações bíblicas. Para os moradores das aldeias locais situadas à beira do desfiladeiro, o Nilo era um dos quatro rios que jorravam do Jardim do Éden no princípio do mundo. Era o rio que, no livro do Gênesis, é mencionado como “abrangendo toda a terra da Etiópia”. Em suas águas vivia um rei também chamado Gihon. “Há noites em que ele sobe à superfície, com todas as suas luzes”, conta uma mulher com um xale branco no cabelo. “Se nesse momento ele vir alguém, pode atacar. Por isso é preciso olhar para o outro lado.” Também havia pequenos diabos nas profundezas das águas. Seres capazes de mudar de forma, tal como o ladrão de burros.
 Passamos a manhã inteira descendo por uma trilha íngreme que nos levou de volta às margens do Nilo Azul, junto à segunda das duas velhas pontes de alvenaria. Por causa da presença de missionários portugueses na região desde o século 17, seu nome original é Segunda Ponte Portuguesa. Mas, em 1935, os patriotas etíopes destruíram o arco do meio para tentar deter o avanço dos italianos. Por isso, ela é conhecida hoje simplesmente como ponte Quebrada. Continua sendo usada, mas para cruzar o rio os viajantes dependem de uma corda grossa e de homens fortes para serem puxados de um lado a outro do rio.
 Enquanto carregávamos nossos barcos para a jornada até a fronteira do Sudão, percebemos um fluxo constante de moradores atravessando o rio. Suspensos pela corda, eles deslizavam com as pernas balançando sobre as corredeiras. Depois de atravessar, alguns tiravam a roupa e se sentavam dentro de um rodamoinho no rio, enquanto outros jogavam água sobre sua cabeça. “Estão sendo batizados”, diz Zelalem. “E depois vão levar água benta para a família.”
 Nossa atividade nas margens transtornou o cotidiano tranqüilo do lugar. As pessoas ficaram deslumbradas com duas visões inéditas: gente branca e barcos no Nilo Azul. “Parecem aviões”, opina um miliciano atarracado, Kassa Mongenet, sobre nossos barcos a remo. Havíamos nos despedido de nossos guias e carregadores na ponte, mas contratamos Kassa – e sua Kalashnikov, é claro – para fazer parte do nosso grupo. Ele disse que sabia nadar. Também tinha certeza, contudo, de que muitos demônios habitavam o rio. Desconfiado, examinava atentamente as águas barrentas e revoltas.
A caminho do Sudão, levamos uma semana para percorrer a primeira parte do rio, um trecho de 190 quilômetros desde a ponte Quebrada até a ponte Abay. É impressionante pensar que, na virada do século 21, conseguimos fazer essa expedição num rio tão grande e vigoroso como o Nilo Azul. Quase todos os rios similares do mundo há muito foram represados ou desviados para a irrigação. Porém, com exceção de um pequeno conduto abaixo das cachoeiras de Tis Isat, que canaliza parte do rio para uma usina hidrelétrica, o Nilo Azul segue ininterrupto, intocado, até atravessar a fronteira. Na represa de Roseires, que fica já no Sudão, o fluxo contínuo do rio enfim é detido. Suas águas são aprisionadas num imenso e indolente reservatório. Depois da represa, o Nilo Azul continua seu caminho errante, vagando pelas quentes e áridas planícies sudanesas por mais 480 quilômetros, até chegar à confluência com o Nilo Branco na cidade sudanesa de Cartum. Os dois então unem suas forças, transforman-se no grande Nilo, e rumam para o mar Mediterrâneo, a 3 mil quilômetros de distância.
 Dos dois rios, o Branco é o mais conhecido e talvez o mais revestido de uma aura romântica. Em parte isso se deve ao mistério da sua nascente, que só foi descoberta em 1862. Havia séculos os etíopes consideravam a fonte do monte Gishe o ponto inicial do Nilo Azul. Em 1618 eles conduziram um padre jesuíta, Pedro Páez, até a mesma campina lamacenta que visitei. A nascente, entretanto, sempre foi a única porção que o Nilo Azul deixou explorar com facilidade. Os etíopes das montanhas raras vezes se aventuram por seu estreito desfiladeiro, temendo o calor, a malária e os maus espíritos.
 É por isso que, nos mapas, seu curso limitou-se a uma linha pontilhada até o final da década de 20, quando o major R.E. Cheesman, cônsul britânico, começou a explorar o rio. Pôr um barco no Nilo era uma hipótese fora de cogitação. Algumas tentativas haviam sido feitas, mas os barcos arrebentavam-se nas corredeiras cheias de pedras. Em vez arriscar-se num barco, Cheesman decidiu mapear o rio a pé e em lombo de mula, numa tarefa que lhe consumiu oito anos. Sua esperança era poder viajar sempre ao lado do rio, mas logo descobriu que isso era impossível: as montanhas e as paredes verticais do desfiladeiro do Nilo Azul eram muito íngremes. Assim, resignou-se a acompanhar e traçar o curso do rio a partir dos planaltos, seguindo pela margem do rio apenas quando era possível chegar até ela.
 A primeira vez que alguém conseguiu descer de barco uma distância considerável do Nilo Azul foi há cerca de 50 anos. E só em 1968 uma equipe finalmente percorreu todo o curso do rio na Etiópia. Mesmo este último grupo, liderado por um explorador britânico, coronel John Blashford-Snell, foi obrigado a dividir o rio em trechos, descendo a parte inferior do Abay no final da estação das chuvas e, em seguida, retornando ao desfiladeiro superior depois que o nível das águas baixou. Desde então, alguns outros grupos já conseguiram navegar trechos determinados do rio.
 Apesar dos relatos desses exploradores anteriores, não sabíamos com certeza a localização e o grau de perigo das corredeiras que teríamos de enfrentar, especialmente na época das cheias. Assim, fomos obrigados a redobrar nossa atenção sobre o Nilo Azul. Nos primeiros 20 quilômetros da aventura, o próprio rio lutava para atravessar um estreito desfiladeiro. O grande volume de água aprisionado num espaço exíguo explodia continuamente em ondas revoltas. Essas pequenas seqüências de corredeiras sempre acabavam numa série de rodamoinhos profundos, que sugavam nossos barcos e os faziam despencar girando pela correnteza. Não podíamos fazer nada. O rio parecia estar mandando um recado: era capaz de nos apanhar a qualquer momento e brincar com nossos barcos como se fossem patinhos de banheira. Desconfiado das águas escuras e revoltas, Kassa examinava o caminho como se fosse a passagem para o inferno. Mas era dia claro, com o céu azul acima dos paredões do cânion e, se é que o Nilo de fato abrigava maus espíritos, eles decidiram nos deixar passar.
 Parecia muito mais provável que os perigos viessem do alto do cânion. Éramos um alvo fácil para qualquer pessoa mal-intencionada que estivesse de tocaia. Várias histórias nos assustavam. Em 1968, por duas vezes a equipe do coronel Blashford-Snell trocou tiros com shiftas que, à noite, se aproximavam furtivamente do acampamento. Os exploradores foram forçados a embarcar em plena escuridão e descer às cegas as corredeiras do cânion. Um americano que percorreu a pé todo o desfiladeiro havia desaparecido. Outros remadores foram atingidos por pedradas de atacantes invisíveis. E o nosso barqueiro, Michael Speaks, quase levara um tiro. Diante disso tudo, qual seria a reação dos nativos ao ver três barcos descendo o rio com oito estrangeiros brancos a bordo?
 Por sorte, um primeiro aviso minimizou nossos temores. Avistamos um grupo correndo na beira do cânion, dançando e batendo palmas para nos incentivar: “Konjo! (Que beleza!), Gobez! (Que coragem!), Melkam gouzo! (Boa viagem!)”. Seus gritos nos acompanharam rio abaixo durante vários quilômetros. Essa torrente de boa vontade e inocência, totalmente inesperada, deixou nosso grupo envergonhado. Onde estavam os tiros, as pedradas, os ladrões? Como explicou Zelalem, nossa viagem era uma novidade para aquela gente do interior. Os nativos nunca iriam se esquecer de nós.
 Naquele dia viajamos cerca de 25 quilômetros rio abaixo, acompanhando o Nilo Azul em seu caminho tortuoso pelo cânion. Centenas de riachos e cachoeiras desciam pelos paredões até o rio. Ao longo desses fios d’água, brotavam moitas emaranhadas de samambaias e altos juncos verdes. Em contraste, a rocha nua do cânion parecia árida e áspera – não é à toa que os etíopes das montanhas chamam de “deserto” o fundo do desfiladeiro. Às vezes, passávamos por largos bancos de areia clara e num deles avistamos o nosso primeiro crocodilo.
 No dia seguinte, o cânion começou a se alargar. Sempre remando, passamos por duas altas formações de basalto escuro que se elevavam do rio como chaminés em ruínas. Logo depois entramos num cenário completamente distinto. Em ambas as margens o rio escavara largos planaltos em degraus, separados por faixas de arenito vermelho e calcário amarelado. Em todo e qualquer pedacinho de terra plana, possível de ser cultivada, havia plantações de painço, milho e sorgo. Mas não vimos nenhuma aldeia. As poucas pessoas que encontramos nos explicaram que suas casas ficavam mais para cima, no topo dos planaltos, a uma distância de três ou quatro horas de caminhada. Nesses lugares mais altos, o clima é mais fresco e são raros os mosquitos transmissores de malária.
Enquanto o Nilo Azul rumava veloz para o sul, outros rios vinham juntar-se a ele. As águas despencam por desfiladeiros íngremes, passam por canais pedregosos e depois desembocam no rio principal, aumentando-lhe a força e o volume. Para compensar o balanço das ondas, avistamos garças-vermelhas-gigantes (Scopus umbretta) e imponentes águias-pescadoras, todas ocupadas em garantir a próxima refeição. Andorinhas-de-cauda-afilada (Hirundo smithii) e martins-pescadores (Alcedo semitorquata) passavam rente ao rio, com suas penas azul brilhante reluzindo ao sol, enquanto bandos de babuínos e macacos-vervet (Cercophitecus aethiops) corriam pelas margens.
 À noite, procurávamos lugar para acampar em trechos onde o leito do Nilo se abre e forma praias de areia. Embora estivéssemos distantes de qualquer aldeia, muita gente vinha nos visitar – em geral homens. Éramos mais visíveis para os moradores da margem oposta. Para alcançar nossos acampamentos, eles desciam o desfiladeiro e procuravam um tronco de árvore para usar como bóia. Tiravam então a roupa e atravessavam o rio a nado – uns bons 90 metros – batendo os pés e agarrando-se ao tronco como se fosse uma pequena prancha de surfe.
 Foi assim que conhecemos Melese Menesha, médico do posto de saúde de Mertule Maryam, uma aldeia tão distante no planalto que nem conseguíamos avistá-la. Magro e pequeno, com zigomas salientes e cabelo negro encaracolado, Melese contou a razão de sua visita em voz baixa, enquanto se aquecia junto à fogueira do acampamento. Ele revelou que, embora nunca tivesse visto um estrangeiro, decidira nos visitar porque ouvira dizer que os brancos têm excelentes remédios. Queria descobri-los.
 Infelizmente nosso grupo não dispunha de novos conhecimentos ou remédios milagrosos para oferecer ao curioso visitante. E, depois que Melese explicou o que faz – distribui anticoncepcionais e comprimidos para dor de cabeça e aplica injeções de quinino nos doentes de malária –, ficou claro também que ele tinha muito mais treinamento médico do que nós, além de um melhor estoque de remédios. Possuía também um rádio, em sua casa na aldeia, e nos informou das últimas notícias da guerra entre a Etiópia e a Eritréia. Zelalem e Kassa ouviam tudo, abanando a cabeça em desalento.
 Melese partiu ao amanhecer, voltando a atravessar o Nilo com vigorosas batidas dos pés. “É um homem de idéias progressistas, mesmo morando num lugar tão remoto”, diz Zelalem com admiração. Eu estava pensando o mesmo e fiquei perturbada ao ver como estávamos mal preparados para encontrar pessoas bem-intencionadas ao longo do Nilo Azul. Esperávamos cruzar com bandidos e nativos atirando lanças. Jamais com paramédicos que acompanhavam as notícias pela BBC.
 Com o tempo, homens como Melese Menesha decerto vão trazer muitas mudanças ao Nilo Azul. Muitos outros nativos que encontramos, porém, como os mercadores de gado, continuam levando uma vida semelhante à de vários séculos atrás. Hoje, como sempre fizeram, os comerciantes das aldeias na região de Gojam cruzam o Nilo em bóias de madeira ou de couro de cabra, depois sobem a pé pelos planaltos até os mercados na região de Borana. Ali compram cabras, burros, cavalos e vacas a bom preço e conduzem os animais até o rio, fazendo-os atravessar a nado até o outro lado. Para eles, o Nilo Azul é apenas um obstáculo irritante.
 Observando um desses homens atravessar o rio a nado, segurando, ao mesmo tempo, pela cabeça suas três cabras acima das ondas, fiquei de novo impressionada com o uso limitado que os povos das montanhas fazem de toda essa imensidão de águas. Embora uma equipe de engenheiros etíopes e americanos tenha traçado planos para vários reservatórios e projetos de irrigação, há 40 anos, nenhuma obra foi sequer iniciada, devido ao alto custo e aos obstáculos políticos. Com isso, os agricultores continuam dependendo apenas da chuva. Quando a água é muito escassa, eles são obrigados a contemplar suas plantações de milho e cevada morrendo, enquanto logo abaixo as águas do Nilo jorram com força. “Há um provérbio sobre isso”, comenta Zelalem. “No verão, o Abay lavra a terra com bois negros, mas onde semeia milho só nasce pimenta.” Tal como muitos outros pensamentos etíopes, esse tem vários níveis de significado, mas de maneira geral sua mensagem é clara. “O Nilo leva embora nosso solo fértil e nada nos dá em troca”, completa Zelalen. Por quê, perguntam os camponeses, o rio não pode retardar seu curso, passar mais lento ao longo de suas terras?
 Depois das duas modernas pontes de concreto, 240 quilômetros abaixo de onde estávamos, o Nilo Azul faz uma curva para o oeste, rumo ao Sudão, e enfim oferece aos camponeses aquilo de que precisam: uma terra saturada de água e de ricos nutrientes na camada superior do solo. Pouco além desse trecho, ainda cavalgando em suas ondas, entramos nos amplos vales dos gumuzes, um povo que tem a pele muito negra e lustrosa e um rosto largo de traços delicados. Até por volta de 1930, os gumuzes sofriam um bocado nas mãos dos etíopes montanheses, que atacavam suas terras em busca de escravos e do precioso marfim das presas de elefante. Hoje os elefantes quase desapareceram, vítimas da caça excessiva, e raras vezes avistamos hipopótamos ou crocodilos. Muita gente da etnia gumuz vive à beira do rio, cultivando sorgo e algodão e criando gado.
 Nossa presença, mais uma vez, provocou alarme geral e instantâneo. As crianças correram aterrorizadas para longe das margens, as mulheres fugiram para os campos de sorgo e os homens agarraram suas inseparáveis Kalashnikov, prontos para enfrentar os forasteiros. “Corram, depressa!”, grita um grupo de crianças para os pais. “Tem algo enorme voando pelo rio!” A recepção, contudo, foi cordial – o maior motivo de susto, segundo eles, foram os longos remos entrando na água em círculos, que faziam nossos barcos parecerem enormes gansos batendo asas. Mais: para os gumuzes, nossos olhos pareciam de gato. E os cabelos lembravam a pelugem de um babuíno ou de uma cabra. Brincando, um homem advertiu Zelalem, cuja pele tem cor de mel: “Cuidado! Você está começando a desbotar como eles”.
Alguns camponeses que plantavam feijão na beira do rio largaram suas enxadas e correram para casa. Voltaram trazendo exóticos instrumentos musicais, como trombetas feitas de bambu e cabaças. Para tocá-las, os homens e os garotos inflavam as bochechas como um trompetista de jazz e, depois, soltavam todo o ar de uma vez só, produzindo sons muito próximos aos de trompetes, trombones, clarins e saxofones. “É uma canção”, explica nosso guia gumuz. A letra tinha um tema universal: “Minha garota tem seios grandes e uma bunda grande... Ela é a mais bonita, a melhor de todas”. Quando perguntamos se tinham alguma canção sobre o Nilo Azul, eles nos olharam espantados. “Ora, o rio é o rio e nada mais”, explicam. Lá dentro não há demônios nem reis nem deuses. Os gumuzes chamam o rio pelo mesmo nome usado pelos montanheses, Abay, mas ali os espíritos maus já abandonaram suas águas. Talvez porque o rio lhes dê água e terra fértil.
 Nem por isso estávamos livres de perigos rio abaixo. Certa manhã, ao acordar, notamos um grande grupo de homens armados na outra margem. Um deles nos acenou com uma bandeira branca, enquanto os outros gritaram que precisávamos parar e lhes mostrar nossas permissões de viagem. Havia uns 25 milicianos, alguns de uniforme cáqui, outros com paletó puído. Muitos traziam no rosto marcas e cicatrizes tribais. Todos pareciam tristes, temendo que estivéssemos levando armas para alguém. E quem era Zelalem? Para eles, talvez um espião da Eritréia, disfarçado. Nossa pilha de salvo-condutos não os deixou satisfeitos. Um sujeito de turbante, com a Kalashnikov nos braços, fez cara feia e dispensou nossos papéis, dizendo que era melhor segui-los até o quartel-general – a 6 horas de caminhada dali!
 Começava a cair uma chuva forte e gelada. A perspectiva de caminhar até o longínquo posto policial nos fez ficar tão infelizes como nossos anfitriões. Só fomos salvos pela habilidade diplomática de Zelalem. Ele escutou com paciência todos os temores e queixas dos homens e depois lhes explicou em detalhes a nossa viagem. Como poderíamos estar ajudando a Eritréia se esse país ficava para o norte, e nós só podíamos viajar rio abaixo? Além disso, ele, tal como os milicianos, era etíope e patriota.
 Aos poucos os semblantes carrancudos foram desaparecendo. Um deles pediu para ser fotografado. Depois, outros milicianos começaram a brincar, tentando conseguir o melhor ângulo e a pose mais feroz. Estava tudo bem. Quando voltamos ao rio, eles nos acompanharam pela margem, acenando em despedida.
 Durante a maior parte da viagem, o Nilo Azul espumava sob nossos barcos. Ao chegar ao Sudão, porém, o rio tornou-se lento, preguiçoso. Estávamos a quase 65 quilômetros da represa de Roseires, mas ela já tinha aprisionado o rio. Seu espírito vivaz e brincalhão desaparecera. Não havia mais demônios em suas profundezas nem trechos revoltos. Ao tirarmos os barcos da água, na cidade fronteiriça de Bumbadi, demos adeus a um rio tão plácido e domesticado que o apelidamos de “lago” Abay.
 Voltei mais tarde ao lago Tana com dois guias, num giro solitário pela Etiópia. Consegui um barco e atravessei o lago até a foz do Pequeno Abay, o Pequeno Nilo Azul, o riacho que corre da nascente simbólica do Nilo, no monte Gishe.
 Embora naquela época do ano não fosse costumeiro oferecer sacrifícios ao Nilo Azul, perguntei se era possível abrir uma exceção.
 Os aldeões concordaram e comprei deles café, uma garrafa de araki (uma bebida alcoólica), três galinhas e um carneiro. Tudo foi ofertado ao rio numa cerimônia simples. Ao ver que as carcaças das galinhas e os intestinos do carneiro flutuavam, em vez de afundar, todos sorriram. “É um bom sinal”, explica um homem idoso. “O rio ficou surpreso e feliz com a oferenda inesperada. E vai abençoá-la.” Sentada com alguns aldeões na margem do rio e degustando um típico banquete de carneiro e galinha, eu sorri ao pensar na minha sorte e nessa última bênção do Nilo Azul.
Virginia Morell (Revista Conhecimento Geográfico).

segunda-feira, 26 de maio de 2014

SUPER EXOESQUELETO

Já pensou em ter um exoesqueleto robotizado? Sabe o que é isso? Até o presidente Barack Obama quer um... Quem imaginou uma armadura como a dos filmes, tipo Homem de Ferro, acertou.
Existem diversos protótipos de exoesqueletos por aí, um dos mais espetaculares, seguramente, é o do robô XOS 2. Desenhado pela companhia Raytheon para os campos de batalha, o traje transforma qualquer soldado asmático em uma máquina de agilidade, força e resistência. E, com certeza, deve aumentar também a bravura desses combatentes durante operações em locais de desastres naturais e zonas de combate. 
Outro protótipo já em funcionamento é um robô exoesqueleto de fabricação italiana, capaz de reproduzir perfeitamente a forma de correr, caminhar, mover os braços e levantar equipamentos pesados. Na verdade, o modelo italiano foi feito para trabalhar em fábricas, mas o objetivo é que, uma vez aperfeiçoado possa atuar em salvamentos de vítimas de desastres.
A utilização desse tipo de equipamento se estende às pessoas que perderam os movimentos ou ficaram paralisadas. Hospitais da Europa e Estados Unidos têm apresentado excelentes resultados durante as provas iniciais.
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sexta-feira, 23 de maio de 2014

FATAH

Fatah é o nome de uma organização política e militar de defesa dos interesses e da autonomia Palestina.
O Movimento de Libertação Nacional da Palestina é o nome completo do movimento que foi criado em 1959 para defender os palestinos. Embora esse seja o nome oficial, o mesmo ficou mundialmente conhecido pela sigla Fatah. O nome desse grupo político e militar guarda curiosidades. O acrônimo do movimento na ordem não reversa resulta em Hataf, que significa morte em árabe. Os integrantes preferem não utilizar esse nome e utilizam o acrônimo reverso, Fatah, com significado mais ameno, como começo ou vitória. Além disso, Fatah é uma palavra religiosa que está ligada à expansão islâmica dos primeiros séculos de sua história. Logo, possui grande relevância para a comunidade islâmica da região em que atua.
 O Fatah surgiu na década de 1950 não por acaso. Em função do holocausto judeu promovido por Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial, aquele povo recebeu como indenização da ONU pelo sofrimento vivido uma porção de terra no Oriente para abriga-los. O mundo estava comovido com as atrocidades por eles vividas e, assim, fundou-se o Estado de Israel. No entanto, o território destinado aos judeus para construírem um país a seu modo e superar as perdas e o sofrimento do conflito internacional já era ocupado por outro grupo étnico e religioso. Os muçulmanos estão em maioria no Oriente Médio há séculos. Porém a solução dada para o holocausto foi colocar os judeus em um território islâmico. Não demorou muito, naturalmente, para que os conflitos começassem, afinal, Israel foi um Estado criado de modo artificial. Os judeus receberam ajuda internacional para se fixarem no novo território e, aos poucos, os conflitos foram expulsando muçulmanos da região. Esse deslocamento forçado dos islâmicos é chamado de diáspora palestina. Foi nesse contexto que Yasser Arafat, Khalil al-Wazir e outros líderes palestinos fundaram o Fatah, um partido de centro-esquerda na politica palestina.
 Alguns anos depois da fundação do Fatah, em 1964, foi fundada a Organização pela Libertação da Palestina (OLP), que é reconhecida como única representante legítima do povo palestino e reúne os movimentos e partidos que passaram a trabalhar pela causa daquele povo. Dentro dessa organização, o Fatah é a maior facção existente, pregando um Estado nacionalista e laico. Durante muito tempo, Yasser Arafat foi o líder do Fatah e presidente da OLP. Ele trabalhou intensamente para negociar a paz na região, ao mesmo tempo em que defendia a autonomia do Estado palestino em um território artificialmente ocupado pelos judeus. Arafat ganhou, inclusive, um Prêmio Nobel da Paz. No entanto, Yasser Arafat faleceu no dia 11 de novembro de 2004 após passar alguns dias internado. Alguns suspeitaram e ainda suspeitam de sua morte, acreditando na hipótese de envenenamento pelo serviço secreto israelita. Sem ter preparado um sucessor, o posto de principal liderança palestina ficou vago e abriu espaço para novos confrontos na região, ignorando tratados de paz anteriores.
 Um dos principais adversários do Fatah é o Hamas, que também é um movimento político palestino. Todavia, este segue a linha fundamentalista islâmica e possui, inclusive, um braço armado. As duas organizações estão em constante confronto e, recentemente, o Hamas conquistou a maioria das cadeiras no parlamento palestino. Fatah e Hamas disputam também a autoridade na Faixa de Gaza, gerando vários conflitos armados entre eles.
Antonio Gasparetto Junior  

quinta-feira, 22 de maio de 2014

AREIA MOVEDIÇA?

Existe, mas não como nos velhos filmes do Tarzan. Esse tipo de terreno até pode prender um animal, mas ver uma pessoa ser engolida, só no cinema. Além de ser difícil achar um atoleiro muito profundo, a pessoa que enfiar os pés nele ainda terá os braços livres, bastando se apoiar em áreas próximas com um solo mais firme para sair. As principais vítimas são os animais, que atolam as quatro patas e não têm como fugir. Mesmo assim, o perigo não é o bicho ser engolido, mas morrer de fome se não for resgatado.Atoleiro animalTerreno instável é resultado de grãos soltos e muita água
1. Um área com areia normal tem grãos bem compactados, bem próximos uns dos outros. É como se a areia fosse prensada. Numa praia, por exemplo, a ação do vento e das pessoas e objetos que circulam em cima da areia ajudam a grudar os grãos, deixando o terreno mais firme2. Sob certas condições, a areia pode ficar menos compactada. Em uma região entre dunas, por exemplo, os grãos trazidos pelo vento ficam protegidos da circulação de ar e acabam permanecendo mais soltos, formando uma areia fofa. Esse é um tipo de local que pode dar origem à areia movediça3. Se esta areia fofa receber muita água, como a da chuva, os grãos que já estavam um pouco soltos se separam mais ainda. Os espaços vagos vão sendo preenchidos pela água, criando uma mistura viscosa de areia e líquidos que é a popular areia movediça, chamada pelos geólogos de areia fluidificada4. Se um animal pisa nesta área instável, os grãos de areia passam a se movimentar em direção ao fundo, carregando junto as patas do bicho, como se elas fossem "grãos gigantes". Até suas patas atingirem um nível de areia mais compactada ele já pode estar completamente atolado


quarta-feira, 21 de maio de 2014

CABO DA BOA ESPERANÇA

O Cabo da Boa Esperança fica no sul do continente africano e é conhecido por ser uma localização geográfica importante durante o processo de expansão marítima dos europeus.
A partir da unificação de Portugal, os portugueses começaram a buscar novas rotas marítimas para comercializar os produtos provenientes do Oriente Médio. Durante alguns séculos, os portugueses foram conhecendo e conquistando novos territórios ao longo do litoral Norte da África. Aos poucos, descobriu-se que o continente era muito mais extenso ao sul do que se imaginava e traçou-se uma rota ao longo do litoral africano com o objetivo de conhecer toda sua dimensão e, possivelmente, contorná-lo. Foi assim que Portugal angariou uma série de colônias pelo mundo, avançando pouco a pouco no Oceano Atlântico e conhecendo o território que por ele é banhado.
 Após muitas expedições, os portugueses chegaram ao limite do território africano, região de navegação perigosa, com águas turbulentas que ofereciam muitas dificuldades para a tecnologia marítima da época. No final do século XV, precisamente no ano de 1488, o navegador português Bartolomeu Dias chegou à região com sua tripulação enfrentando vários dias de severas tempestades que colocaram em risco a sobrevivência da expedição. Por conta disso, Bartolomeu Dias deu ao local o nome de Cabo das Tormentas. Mas, apesar das dificuldades, ele foi o primeiro navegador a superar tais dificuldades e dobrá-lo. Foi uma enorme conquista para Portugal, que, finalmente, descobria uma nova ligação com as Índias.
 Quando Bartolomeu Dias retornou a Portugal e informou ao Rei João II sua conquista, este reprovou o nome Cabo das Tormentas para a região localizada na porção sul do continente africano. Ao dobrá-lo e conhecer uma rota tão desejada, o monarca preferiu nomeá-lo de Cabo da Boa Esperança.
 O Cabo da Boa Esperança localiza-se a oeste do que hoje é a Cidade do Cabo. Por sinal, esta cidade surgiu a partir de um posto de reabastecimento estabelecido pelo mercador holandês Jan van Riebeeck em seis de abril de 1652. Mas, ao contrário do que se acreditava na época e ao contrário do que se imagina ainda hoje, o extremo do continente africano é o Cabo das Agulhas. De toda forma, o Cabo da Boa Esperança foi muito importante para a história ocidental. Uma vez dobrado, Portugal ampliou seu comércio com as Índias ampliando seus lucros, pois não precisava mais se submeter ao domínio das cidades italianas no Mar Mediterrâneo. Esta conquista inspirou também a Espanha e traçou um novo desafio, lançar ao mar rumo ao oeste para chegar ao leste, acreditando que a Terra seria redonda. Como sabemos, essa rota levou ao descobrimento da América. A associação de todos esses eventos é a gênese da globalização do comércio e das relações humanas que o avanço da tecnologia nos apresenta muito mais evoluído hoje.
Antonio Gasparetto Junior  

terça-feira, 20 de maio de 2014

DUELO DE GIGANTES

Uma disputa entre leões e elefantes pela posse das raras fontes de água no coração da África.Os leões são oportunistas. Não são orgulhosos a ponto de desprezar insetos ou porcos-espinhos nem tímidos demais para caçar animais maiores, como búfalos ou hipopótamos. Ainda assim, foi chocante descobrir, no norte de Botsuana, um bando de leões que caça o maior animal terrestre do planeta, o elefante.Observei os primeiros leões do Parque Nacional de Chobe no início dos anos 80. Não era tão raro os felinos atacarem filhotes de elefantes que haviam se afastado da manada. Mas o que descobri nos anos 90 foi algo muito diferente: caçadas deliberadas no meio das manadas. Na maior parte das situações, leões e elefantes são adversários precavidos. Durante a estação seca, entre abril e outubro, porém, a água torna-se mais importante do que a cautela.Os elefantes deste reservatório – que, em outubro, tinha apenas 10 centímetros de profundidade e o diâmetro de uma mesa de jantar – afastaram todos os outros animais. Os leões reagiram à altura: passaram a atacar os elefantes. A primeira vítima que encontrei foi um filhote de 6 anos. Mas, a cada vitória, os leões se tornaram mais audazes. Arremeteram contra filhotes mais velhos e arriscaram-se em ataques frontais no meio da manada, afugentando fêmeas de 6 toneladas para agarrar suas crias. No final, passaram a atacar até mesmo os elefantes adultos – um duelo surpreendente, nunca antes fotografado.( Dereck Joubert).

segunda-feira, 19 de maio de 2014

INDÚSTRIA DE BENEFICIAMENTO

No processo de industrialização, o produto passa pelas etapas de beneficiamento, embalagem e distribuição. O beneficiamento é todo o trabalho de tratamento e preparo da matéria-prima para a produção do produto final. Para explicar a etapa de beneficiamento, tomamos como exemplo o aço.
Na indústria do aço o beneficiamento é um dos principais processos para metais que requerem esforços, pressões, estiramentos, entre outros métodos que adaptem o metal para determinado tipo de produto. Os processos de beneficiamento para o aço visa ajustá-lo , entendido como parte da elaboração de peças metálicas.
 O beneficiamento do aço é aplicado para a peça de metal se tornar mais resistente, com mais tenacidade e dureza. O beneficiamento torna o metal um material mais duro. Esse tipo de beneficiamento consiste em duas etapas básicas, a têmpera e o revenimento, mas isso depende das especificações exigidas pelo cliente que utilizará o metal adaptado para determinada finalidade.
 Podemos exemplificar também pelo processo de beneficiamento do arroz, nesse setor há as empresas de empacotamento, responsáveis também pelo beneficiamento do arroz. Depois de ser produzido em grande escala, o arroz precisa ser descascado e tratado para depois ser encaminhado para o empacotamento e distribuição. O beneficiamento desse produto gera resíduos que podem afetar o meio ambiente,  o resíduo que mais chama atenção, a casca, preocupa pela sua alta quantidade e pela demora de ser absorvido naturalmente pelo meio ambiente. Portanto, a indústria de beneficiamento exige a gestão de resíduos.
 O farelo de arroz gerado no processo pode ser reaproveitado para a produção de óleo e ração, os grãos quebrados podem ser utilizados como matéria-prima na produção de farinhas de amido pré-cozido, e a casca na produção de papel.
 Na indústria do vidro, a empresa de beneficiamento desse setor é capaz de transformar o vidro comum em temperado, referido como blindex, produzido para ser comercializado em vidraçarias, construtoras e serralheiras.
 Portanto esse tipo de indústria visa transformar ou preparar uma matéria-prima para uma etapa seguinte de industrialização, seja para disponibilizá-la como insumo ou produto final pronto para ser comercializado.

 Fernando Rebouças.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

COMO ALGUNS PAÍSES ENFRENTAM INVERNOS RIGOROSOS?

No Canadá e na Suécia, dois dos países mais frios do mundo, a neve raramente interrompe as atividades dos cidadãos. Seja em pequenas cidades, seja em metrópoles, há investimento pesado na limpeza de vias públicas, soluções arquitetônicas e hábitos populares que ajudam a manter pessoas e veículos circulando apesar do clima desfavorável. Nesses países, as construções têm isolamento térmico, todo mundo acompanha a previsão do tempo e, em creches e escolas, a criançada sai diariamente para brincar no pátio, mesmo com temperaturas abaixo de -10 oC.
Saindo numa fria
Em países gelados, a vida só para durante tempestades de neve

GARIS DO GELO
Todo ano, milhões de dólares são gastos pelo poder público para remover a neve de ruas e estradas. Além de bancar os veículos usados na operação, há gastos com o sal despejado para acelerar o derretimento e com o armazenamento de neve retirada. A limpeza das calçadas é responsabilidade do dono de cada terreno
TELHA FORTE
Telhados que se estendem pela lateral da construção captam luz solar por mais tempo, mantendo a casa mais aquecida. A inclinação ajuda a neve a escorrer, evitando o acúmulo, que pode sobrecarregar a cobertura. Além disso, as casas possuem isolamento térmico em portas, janelas e paredes
DIREÇÃO SEGURA
O sal usado na remoção da neve gruda no vidro dos carros, formando uma camada esbranquiçada. Para limpar, só abastecendo o esguicho do para-brisa com um fluido especial. Outro item essencial são os pneus de inverno, com ranhuras mais fundas para não deslizar na neve e borracha que não racha no frio
ABAIXO DE ZERO
Em algumas grandes cidades, dá para percorrer toda a região central por baixo da terra. Galerias subterrâneas interligadas, cheias de lojas e lanchonetes, como num shopping center, podem ser acessadas pelas estações de metrô. Escadas rolantes ligam as galerias a estabelecimentos comerciais no solo
OLHO NO TEMPO
Às vezes, a neve derrete e congela novamente, formando uma perigosa camada de gelo - essa é uma das raras situações que interrompem a rotina das pessoas. Para prevenir acidentes, algumas cidades têm canais de rádio e TV dedicados a informar sobre os estabelecimentos fechados por condições climáticas adversas
SOBREVIVENDO NO INVERNO
Os motoristas são obrigados a ter ferramentas para o caso de o carro ficar soterrado na neve. Além de uma espátula para raspar gelo da lataria, uma escova ajuda a tirar a neve acumulada nas ranhuras dos pneus. Além disso, um kit de sobrevivência, com lanterna, cobertor, pilhas e velas, também é obrigatório.
TEMPORADA DE MODA
Cobrir as extremidades do corpo com gorro, botas e luvas ajuda a não perder calor. A roupa é vestida em camadas: uma camiseta de tecido sintético transfere a umidade do corpo para uma blusa de lã, que deixa o ar circular e mantém estável a temperatura. Por cima, um jaquetão impermeável isola o corpo da neve e do frio
• Montreal, uma das maiores cidades do Canadá, gasta cerca de R$ 240 milhões por ano limpando a neve das ruas.

 Tiago Jokura
 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

MATEMÁTICO DESCOBRE QUE ESTAMOS EM HORÁRIO DIFERENTE QUE ACHAMOS ESTAR

O matemático italiano Stefano Maggiolo resolveu descobrir o que realmente está por trás dos fusos horários. E o mais importante: o impacto que a hora do relógio causa no organismo das pessoas em diversos países do mundo. Para isso, criou um sistema que determina com a maior precisão possível em que horário vive cada país. A conclusão foi assombrosa. O mundo inteiro vive, praticamente, na hora errada.
Maggiolo tomou a Espanha como ponto de partida, onde as refeições acontecem muito mais tarde do que em boa parte do resto do mundo, e até mesmo nos países vizinhos. Em busca das respostas que esclarecessem a diferença entre o horário do relógio e o horário solar, o jovem matemático acabou criando um mapa completo do “destempo” mundial.
A Espanha, especificamente, atrasou seu horário nos tempos do General Franco. Em 1942, o ditador resolveu adotar a hora da Alemanha nazista. Agora, a cidade de Barcelona está 50 minutos atrasada em relação ao Sol. A Galícia, uma hora e meia.
E, em muitos casos, várias regiões de alguns países são prejudicadas devido à distância geográfica em relação à capital, que costuma comandar o fuso horário. Como no caso de Xiajiang, na China, que está quatro horas atrasada em relação ao Sol.

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