terça-feira, 5 de novembro de 2013

ROBOTIZAÇÃO DA PRODUÇÃO

Adeus trabalho velho, bem-vindos robôs
A globalização é um processo de mudanças que não pode ser analisada apenas pelos seus aspectos geopolíticos e econômicos. Correríamos o risco de cair na cilada do tecnicismo, que apenas alinha dados e situa fenômenos específicos. No entanto, esse fenômeno atua fortemente sobre o homem alterando comportamentos e abalando personalidades.
Os conceitos políticos, sociais, valores éticos, o uso da ciência, das artes, enfim, a cultura criada pela humanidade em milênios está sendo afetada, substituída e modificada. Nos países altamente industrializados, as fábricas também foram beneficiadas com a automação. Junto com os computadores vieram os robôs, isto é, equipamentos mecânicos destinados à manipulação de objetos, ferramentas e peças, dotados de inteligência artificial. Em 1975, a indústria automobilística japonesa produzia 2,5 milhões de carros por ano, empregando 500 mil trabalhadores. Dez anos depois, passou a produzir 10 milhões de carros por ano, isto é, quatro vezes mais, com o mesmo número de trabalhadores.
Na era dos robôs, eficácia, rapidez e padronização tornam-se as palavras de ordem. Quanto mais racionalizados e mecanizados, melhor será o trabalho. A população de robôs do planeta aumentou em 85 mil máquinas a cada ano, segundo relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas.
A ideia de que os robôs irão criar mais empregos do que eliminá-los é somente mais uma das ilusões fundamentais do setor. A outra é que os robôs necessariamente irão liberar a humanidade do “trabalho alienante”. Na verdade, eles tanto criarão quanto eliminarão empregos, porque os engenheiros que projetam robôs tentam garantir que sua utilização implicará na mais barata mão-de-obra possível, e preferivelmente nenhuma.
A introdução desses novos sistemas tecnológicos e de padrões de organização do trabalho tem elevado substancialmente a produtividade industrial. Mas, por outro lado, essa mesma produtividade crescente imposta pela revolução tecnológica acarreta um problema extremamente sério: que lugar terá o trabalho humano nesse mundo de máquinas?
 Alguns estudiosos recentes, como o norte-americano Alvin Toffler e o italiano Domenico De Mais, falam de uma crise do trabalho convencional. As máquinas produzem muito mais com menos trabalhadores, é verdade. Um braço mecânico acoplado a uma esteira giratória no processo de fabricação de um automóvel repete com muito maior precisão e rapidez os movimentos necessários à fabricação do produto.
 Desemprego estrutural
Significa a proporção de pessoas desempregadas na sociedade. Não um desemprego temporário, por pedido de dispensa ou demissão da empresa em que trabalhava. Mas o desemprego demorado, provocado por falta de oportunidade no mercado de trabalho. Estudos feitos na Alemanha apontam cada robô como o responsável pelo desemprego de dois a dez trabalhadores. Nos países altamente industrializados, nunca trabalho humano esteve tão desvalorizado.
Além disso, apesar de caras, as máquinas só são compradas uma vez, enquanto os trabalhadores têm de ser pagos mensalmente. Máquinas não ficam doentes, não se acidentam, não precisam descansar, nem reclamam do que fazem. A questão é: o que fazer com os trabalhadores?
 QUESTÕES
Talvez a maior consequência da automação, quer dizer, da implantação das máquinas com cérebro eletrônico nas fábricas, tenha sido o que se denomina desemprego estrutural fábricas, tenha sido o que se denomina Desemprego estrutural  ou tecnológico. Em 1995, havia na Europa 18,5 milhões de desempregados e aproximadamente 50 milhões de pessoas em estado de pobreza.
 Máquinas não ficam doentes, não se acidentam, não precisam descansar, nem reclamam do que fazem. A questão é: o que fazer com os trabalhadores?
 Na medida em que a proporção de desempregados estruturais aumenta, também mudam as relações sociais nos países industrializados.
 Nas últimas décadas, os Estados Unidos e os países europeus foram “invadidos” por massas de estrangeiros provenientes de países pobres, que para lá se dirigiam em busca de emprego e melhor condição de vida. Formaram-se verdadeiras colônias de “latinos” (designação dada a mexicanos, cubanos, porto-riquenhos, brasileiros etc.), em grandes cidades norte- americanas, e colônias “africanas” (argelinos, tunisianos, líbios, egípcios, marroquinos) na França e Alemanha.
 Durante as décadas de 1970 e 1980, esses imigrantes eram bem recebidos porque facilitavam a substituição dos trabalhadores europeus, mais qualificados e com salários mais elevados. A eles eram reservados os trabalhos manuais e domésticos, pesados e insalubres. Com a aceleração do desemprego estrutural no final dos anos 1980 e, sobretudo, nos anos 1990, os imigrantes deixaram de ser bem vistos, já que passaram a disputar vagas de trabalho com os europeus. Os governantes criaram medidas restritivas visando deter as imigrações, enquanto, na Europa, cresceram os movimentos de discriminação racial.
 O aumento do desemprego nas décadas de 1980 e 1990 também fez com que as empresas procurassem outras formas de manter seus lucros sem assumir os custos sociais devidos aos trabalhadores. Entre essas, destaca- se a terceirização, isto é, a contratação de outras empresas para realizar certos serviços com trabalhadores temporários ganhando salários baixos e sem garantias sindicais.
Imagine uma concessionária de automóveis, ou seja, uma grande loja dedicada à venda de carros. Quando um carro é vendido ao consumidor e este desejar fazer o seguro, tal serviço é realizado no mesmo local em que comprou, mas nem sempre pelos funcionários da loja que vendeu. Possivelmente, o seguro será feito por pessoal preparado só para prestar esse tipo de serviço, que não tem nenhum vínculo empregatício com a concessionária. Eles são funcionários de outra empresa, uma seguradora, ou são autônomos que prestam esse tipo de serviço para a concessionária. Uma mesma seguradora poderá ter empregados espalhados por várias concessionárias: se for autônomo, poderá prestar o mesmo tipo de serviço em vários locais diferentes.
 Repare pelo exemplo que, com a “terceirização”, cada uma das empresas envolvidas reduz seus custos com pagamento de pessoal. A diferença básica entre o empregado convencional e o trabalho “terceirizado” é que, nesse caso, o vínculo com a empresa contratante sempre é temporário.
O primeiro problema importante decorrente da nova Revolução industrial é o de como assegurar a manutenção de um exército de pessoas estruturalmente desempregadas, que perderam seus empregos em consequência da automação e da robotização da produção e dos serviços.
 CONQUISTAS E ILUSÃO
As conquistas tecnológicas produzidas na era da globalização em geral são apresentadas como benefícios para toda a humanidade. Porém, cabe a pergunta: até que ponto a ciência, a tecnologia e a indústria atuais beneficiam toda a sociedade?
José Odair da Silva (Revista Geografia: Conhecimento e Prática).

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