sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A SECULAR RESISTÊNCIA MAPUCHE

A etnia que teve território e soberania reconhecidos pela coroa espanhola foi massa crada pelos Estados argentino e chileno após a independência destes países. A luta deste povo não acabou e continua nos dias atuais.
 Na cidade de Santiago (Chile), manifestantes saem às ruas para exigir o fim da repressão policial contra a comunidade Mapuche, que havia iniciado o processo de recuperação de suas terras "ancestrais".
Quando observamos mapas da América do Sul do período da independência de nossos países, além de diferenças nas fronteiras de cada um deles, podemos ver no extremo sul do continente uma enorme gleba territorial cuja história nunca é contada, pois nunca fez parte nem da América colonial espanhola, nem da portuguesa, nem de nenhuma outra conquista europeia. Nos mapas essa região aparece como Patagônia, nome que em nada se relaciona com os povos que nela habitavam. Muito menos com o povo que delimitou essa fronteira em batalhas contra os espanhóis: os mapuches. Estes ocupam a Araucania chilena e a cordilheira dos Andes nesta região, tanto do lado chileno como do lado argentino. O território denominado nos mapas como Patagônia era ocupado também pelas etnias Tehuelche, Onas, Aonikenk (batizados de patagones pelos europeus) e Chonos. Um expoente contemporâneo da população mapuche é Mauro Millán, o porta-voz ou werkén em mapudungun (a língua originária mapuche) das comunidades da região do Maitén, na patagônia argentina, em região andina próxima ao Chile. Ele foi um dos primeiros a se levantar contra o empreendimento mineiro de Esquel, um movimento que mobilizou a cidade e, através de um plebiscito, impugnou a concessão que o Estado argentino dera à canadense Meridian Gold para explorar ouro em uma mina a céu aberto e com uso de substâncias altamente contaminantes como o cianureto. Durante as gravações do documentário Onde Está América Latina? Uma Mina de Ouro em PuelMapu (que conta a história deste plebiscito) conversamos com Millán, porém nossa conversa seguiu outros rumos e foi muito além da discussão sobre o embate com a mineradora.
 A independência da América espanhola, por contraditório que possa parecer, foi ruim para os mapuches. Significou na verdade o fim da autonomia deste povo. Os Estados chileno e argentino que surgiam trataram de construir uma pátria grande e delimitar as fronteiras do país. Na Argentina, o general Roca comandou o avanço militar à Patagônia em campanha chamada de A Conquista do Deserto, que não era assim tão deserto, mas que, para os livros de história era deserto. Ali não havia mais que uns poucos "bárbaros"...
 O primeiro ponto que Millán fez questão de salientar é o significado das fronteiras. "Os mapuches nunca precisaram de cercas, nem grades, nem arames farpados", conta. No Chile essa resistência à delimitação territorial durou até 1974, quando um decreto-lei do ditador Augusto Pinochet distribuiu arame farpado às populações camponesas e as obrigou a delimitar o espaço de terra de cada família sob pena de perda de propriedade das terras não demarcadas. O fato, além de individualizar as propriedades, servia também para desestruturar a forma de organização política dessas populações. Segundo nos explica Mauro Millán, os mapuches resistiram à invasão espanhola, não porque eram povos guerreiros, mas porque sua estrutura de organização social lhes trouxe uma forma eficaz de resistência. Ao contrário dos modelos verticais que os europeus estavam acostumados a lidar, os mapuches se organizavam de forma horizontal, não havia líderes. Eles se dividiam em milhares de lofts, que eram comunidades autônomas que funcionavam internamente como imensas famílias. Cada loft era representado por um Lonko. E, cada Lonko tinha o mesmo grau de importância e autonomia entre os mapuches. As decisões que abrangiam a coletividade mapuche eram discutidas em Parlamentos. "Muitos cronistas europeus se admiraram com o que viram. Imaginem que neste período a Europa vivia sob estruturas absolutistas monárquicas. Estamos falando de um período muito anterior à Revolução Francesa. Quando chegam e veem que os povos que para eles eram 'bárbaros' têm esse tipo de organização, fazem relatos admirados", comenta Millán. De fato, os espanhóis tinham por tática sequestrar e matar os líderes para então dominar os povos à medida que estes ficavam, por assim dizer, órfãos. Foi assim com Atahualpa, o último líder Inca, por exemplo. Ele foi sequestrado e após a entrega de quantidades exorbitantes de ouro dos povos que o adoravam, houve a traição e o assassinato do líder.
Outra tática dos espanhóis era, sempre que possível, criar cisões e discórdias internas e externas entre as populações. Porém, as tropas comandadas por Pedro de Valdívia ao território mapuche não tiveram êxito. Não identificaram o líder e não conseguiram criar rivalidade entre os Lonkos, pois esses tinham por tradição respeitar as diferenças. Vale frisar que nos parlamentos se um Lonko não concordasse com determinada decisão, mesmo tendo voto vencido, seu loft não era obrigado a acatar a decisão dos demais. Quando os espanhóis chegam a essas terras, encontram milhares de lofts livres e autônomos, mas nunca isolados. Os mapuches contavam com uma eficiente rede econômica e de informação. Por outro lado, logo nos primeiros parlamentos os Lonkos consideraram os forasteiros perigosos e criaram táticas de resistência. Como as populações eram nômades e tinham amplo domínio da Geografia local, os espanhóis eram constantemente emboscados. Dessas batalhas dois nomes são imortalizados como grandes heróis da história latino-americana: Lautaro  e Caupolicán , que impuseram à coroa espanhola consideráveis derrotas. Para os mapuches, a situação também não era agradável e ambos chegaram a uma trégua. Em 1641, assinaram um tratado de paz que determinava o rio Bio-Bio (a mais ou menos 500 km ao sul de Santiago) como fronteira entre o território mapuche e o espanhol.
 A independência da América espanhola, por contraditório que possa parecer, foi ruim para os mapuches. Significou na verdade o fim da autonomia deste povo. Os Estados chileno e argentino que surgiam trataram de construir uma pátria grande e delimitar as fronteiras do país. Na Argentina, o general Roca comandou o avanço militar à Patagônia em campanha chamada de A Conquista do Deserto, que não era assim tão deserto, mas que, para os livros de história era deserto. Ali não havia mais que uns poucos "bárbaros"...
 Nasceu em Pilmaiquén. É o mais conhecido dos heróis mapuches. Quando assume a incumbência de Toqui (liderança militar), consegue a rendição das forças espanholas que controlam a Plaza Arauco. Junto a Lautaro, participou da Batalha de Tuca-Pel, na qual venceram e aprisionaram o líder militar espanhol Pedro de Valdívia. No combate de Millaraque é vencido pelas tropas espanholas de García Hurtado e forçado a refugiar-se. Assim mesmo, refuta acordos de paz e rendição e continua a comandar a resistência mapuche. É vencido após o frustrado ataque ao forte de Cañete. Morre em praça pública perfurado por um enorme pedaço de pau, que atravessa suas entranhas.
 O general Roca delimitou as fronteiras argentinas e evitou que a Patagônia fosse tomada pelos chilenos. Do lado chileno, a campanha comandada por Cornélio Saavedra recebeu o nome de Pacificação da Araucania. O Estado chileno precisava colocar fim aos distúrbios causados pelos povos rudes da região e levar a eles a civilização. Para o mapuche Mauro Millán, há a outra versão: "Os militares avançaram naquilo que poderíamos chamar 'plano tesoura', destruindo as terras por onde passavam e encurralando as populações locais até que elas não tivessem mais para onde correr. Minha bisavó contava que o povoado onde ela cresceu era formado por mapuches que originalmente estavam do lado chileno da cordilheira e que se refugiaram para este lado (argentino), assim como populações do lado de cá tiveram que fugir para lugares inóspitos do outro lado da cordilheira para escapar da Campanha de Conquista do Deserto. Imaginem quantos povos não desapareceram como consequência dos avanços territoriais da economia globalizada. E cada povo tinha uma visão de mundo própria, um idioma. Fala-se muito de Império Inca, que dominava imenso território etc. Vocês sabem que os Incas, por exemplo, não eliminaram nenhuma língua originária? Alguém fala de quantos idiomas a América do Sul perdeu com o avanço espanhol? Quantas culturas e diferentes visões de mundo, não apenas religiões, foram perdidas com a evangelização?".
 A luta mapuche continua nos dias atuais. Tanto do lado argentino como chileno as populações se mobilizam pelo reconhecimento do direito às suas terras e pelo resgate da autodeterminação, a preservação de sua cultura, tradições e idioma. No Chile contemporâneo essa luta acontece com intensidade. E o embate é difícil. Hoje, neste país, há 44 mapuches encarcerados como terroristas, em uma política de Estado que atua com leis herdadas do regime do ditador Augusto Pinochet.
Pedro Dantas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário