quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A INFLUENCIA GEOPOLITICA DAS DIÁSPORAS ÉTNICAS

As diásporas étnicas e a questão identitária de um povo estão intrinsecamente ligadas à geopolítica.
 Tradicionalmente, as teorias geopolíticas são elaboradas a partir de uma interpretação do mundo político com base na teoria da soberania, que sustenta ser o Estado a autoridade suprema sobre determinado território. Essa interpretação considera que as relações entre essas unidades territoriais delineiam os contornos da política mundial. Em outras palavras, os Estados territoriais seriam os únicos atores da imaginação geopolítica.
Contudo, uma questão extremamente relevante para a compreensão da correlação de forças no espaço mundial constitui a infl uência geopolítica das diásporas étnicas. Uma diáspora étnica é uma formação sócio-política dispersa por diversos Estados, criada como resultado da migração forçada ou voluntária. Essas formações políticas adquirem cada vez mais um papel significativo na política nacional, interestatal e global.
 O fator identidade
Portanto, a geopolítica – como combinação de fatores geográficos e políticos que determinam a condição de um Estado ou região – deve considerar a dinâmica interna dos Estados e o papel das diásporas étnicas que são capazes de direcionar a atenção para a questão da identidade: uma vez despertada, a questão identitária pode ser usada para infl uenciar a formulação da política externa. O fator identitário é tão importante que alguns teóricos acreditam que a construção de uma identidade étnica é pré-condição para a identidade política e demandas políticas. Outros, como o russo Yuri Boradai, afirmam que os principais fundamentos da geopolítica seriam a etnia e a identidade.
No processo de formação dos Estados-nação, as diferentes identidades foram subordinadas à identidade cultural “oficial” do Estado-nação por meio de um processo muitas vezes violento. Um exemplo é a formação identitária da República da Turquia na década de 1920 que, na tentativa de homogeneizar a população, suprimiu a identidade etno-linguística curda e a religião xiita dos alevis.
Apesar do uso da violência durante as tentativas de unificação identitária, as identidades nacionais são bem menos homogêneas do que aparentam. Muitos Estados contêm dentro de suas fronteiras grupos minoritários que se identificam com culturas diferentes, formando enclaves etno-culturais no interior dos Estados receptores, como consequência da frágil identificação com a cultura nacional. Geralmente, esses grupos étnicos diaspóricos mantêm contatos regulares ou esporádicos com Estados ou grupos com os quais possuem relação de parentesco ou cultura e podem, eventualmente, ter afinidades e interesses convergentes. No entanto, devido a fatores como aculturação, assimilação e integração, nem todos os membros de uma diáspora têm o mesmo sentimento de pertencimento à cultura ancestral e, sendo assim, nem todos compartilham a mesma visão e nem estão dispostos a participar de organizações diaspóricas.
Diásporas na História
As diásporas etno-nacionais não são um fenômeno recente. Algumas diásporas étnicas, como a grega e a judaica, se desenvolveram durante a Antiguidade; outras, como a romani (cigana), surgiram na Idade Média; e há comunidades chinesas dispersas pelo mundo desde o século 17. O diasporismo étnico cresceu após o fim da ex- URSS e certos grupos diaspóricos antigos e dormentes se tornaram mais ativos nas arenas políticas e socioeconômicas. Isso porque a globalização possibilitou, por um lado, uma maior integração e interconexão das partes, estimuladas em grande medida pela disseminação e consolidação de novas tecnologias de comunicação. Por outro lado, a expansão da homogeneização cultural incitou a resistência cultural e política dos grupos minoritários. Apesar de muitos integrantes de diásporas pertencerem a culturas híbridas, o recuo ao absolutismo étnico e religioso promovido por alguns Estados alimentou as identidades defensivas, como reação às tentativas de restauração da coesão frente ao hibridismo nacional.
Quanto à atuação política, as diásporas étnicas possuem esferas de atuação, orientações políticas e estratégias distintas e nem sempre são convergentes com os interesses das pátrias de origem. Há estratégias diversas, como assimilação, separatismo, integração, autonomia e irredentismo, algumas com implicações territoriais diretas, outras com impactos limitados na dinâmica interna dos Estados receptores. Além disso, as políticas das diásporas têm obtido grande relevância e despertado o interesse de diversos governos devido à amplitude de sua infl uência no comportamento internacional e as múltiplas maneiras de infl uenciá-lo. Como canais entre diferentes sociedades, as diásporas agem como pontes ou mediadoras, transmitindo valores e intermediando o fl uxo de recursos. Podem desencadear confl itos e interferem na perpetuação ou na resolução das tensões, podendo até servir de pretexto para o irredentismo de alguns Estados que pretendem expandir seus limites territoriais. De forma negativa, algumas diásporas são a principal fonte de violência e instabilidade, criminalidade e terrorismo internacionais, utilizando modernos recursos tecnológicos além do alcance dos Estados estabelecidos.
 A região de Nagorno- Karabakh se encontra dentro do território do Azerbaijão e foi palco de conflito armado entre a Armênia e o Azerbaijão. O conflito se acendeu em 1991, após a declaração de independência da região, que, apesar de estar localizada na parte sudoeste do Azerbaijão, possui população predominantemente de origem armênia.
 Além das fronteiras

A ação de uma diáspora não é constante, estando sujeita a alterações conjunturais. A aquisição de uma pátria territorial por uma etnia altera o posicionamento do grupo diaspórico, como no caso dos armênios. A independência da Armênia após o fim da ex-URSS fez com que a principal preocupação dos armênios diaspóricos fosse oferecer apoio político e assistência econômica aos armênios envolvidos no conflito de Nagorno-Karabakh aos armênios envolvidos no . A conexão de uma diáspora com a pátria de origem pode também atingi-la durante um confl ito ou tensão entre grupos ou Estados. Como em 1994, quando a comunidade judaica argentina foi vítima de um ataque terrorista provocado por radicais islâmicos com apoio do Irã, que causou 85 mortes e a destruição da Asociación Mutual Israelita Argentina. Não obstante o aumento do hibridismo cultural dentro das fronteiras nacionais, os indivíduos diaspóricos permanecem definidos como o paradigmático “outro” do Estado-nação, como desafiadores das suas fronteiras tradicionais, como transportadores transnacionais de culturas, e como manifestações de comunidades desterritorializadas. Apesar das atitudes hostis de muitos Estados diante das diásporas e da ambiguidade política de suas pátrias, a luta pela sobrevivência física e cultural dos indivíduos diaspóricos continua e as futuras pesquisas sobre as diversas esferas geopolíticas não podem ignorar os objetivos e as infl uências das diásporas.
Marcos Toyansk

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