terça-feira, 23 de julho de 2013

AS QUESTÕES GEOPOLITICAS NA AMÉRICA LATINA

O NACIONALISMO LATINO-AMERICANO
                Em cada parte do mundo e em cada país ocorrem situações particulares que explicam o aparecimento do nacionalismo. Os movimentos nacionalistas podem ser democráticos e emancipatórios ou ter um caráter autoritário e contribuir para o estabelecimento de regimes ditatoriais. Na história da América Latina pós-colonial são encontrados tanto o nacionalismo vinculados aos princípios democráticos como o orquestrado para a legitimação de governos autoritários. Uma das formas de nacionalismo característico da América Latina está o populismo, fenômeno politico que possibilita a ascensão de um líder carismático visto como defensor dos interesses das camadas menos favorecidas. São exemplos de nacionalismo populista o peronismo na Argentina, o varguismo, no Brasil; e mais recentemente o chavismo, na Venezuela. No conjunto latino-americano, merece destaque também o exemplo de Cuba, cujo movimento nacionalista liderado por Fidel Castro e Che Guevara depôs o ditador Fulgêncio Batista, defensor dos interesses dos EUA, e instaurou um regime socialista.
                O nacionalismo orquestrado para a legitimação de governos autoritários pode ser ilustrado pelo cunho patriótico que caracteriza os discursos dos governos militares das décadas de 1960 a 1980 na Argentina, Brasil, Chile e Uruguai. Esse nacionalismo em plena época da Guerra Fria prestava-se a garantir a “segurança nacional” contra a “ameaça comunista”, mas aceitava a hegemonia dos EUA no continente. Além do pretexto anticomunista, o nacionalismo na Argentina e no Brasil impulsionava a busca pela liderança no cenário geopolítico sul-americano.
                Na Venezuela, país que detém a maior reserva de petróleo da América Latina, também tem se caracterizado pelo nacionalismo, que se configura em um intenso plano de mudanças. São partes desse plano a estatização do petróleo, dos setores de telecomunicações e bancário, a distribuição de terras, o controle estatal de frigoríficos, a regulamentação de serviços médicos privados, o fornecimento de alimentos subsidiados a população mais carente e a intensa censura à imprensa. O presidente Hugo Chávez no poder desde 1998 (até 2012, ano de sua morte) durante parte de seu governo demonstrou carisma e pode contar com apoio popular. Assim conseguiu promover mudanças institucionais, como alteração do nome do país, agora denominado de República Bolivariana da Venezuela, e a adoção de dispositivos constitucionais que permitem sucessivas reeleições do presidente. A proposta politica de Chávez baseia-se no que ele determinou de Revolução Bolivariana. No entanto, várias medidas por ele adotadas, como fechamento de veículos de comunicação que se opõem ao seu governo, tem revelado um caráter centralizador e antidemocrático.
                O chavismo adquiriu adeptos, em 2005, pela primeira vez na história da Bolívia, um indígena, Juan Evo Morales, foi eleito presidente, apoiado por um partido politico de linha socialista e nacionalista. Inspirado em Chávez, Morales aumentou o controle estatal sobre a exploração do petróleo e do gás natural, que se encontrava em mãos de empresas estrangeiras, dentre as quais a brasileira Petrobras. Políticas semelhantes de nacionalização e estatização dos recursos energéticos, também têm sido adotadas no Equador e no Paraguai.

AS TENSÕES NA COLÔMBIA
                Em toda a América Latina, a Colômbia é o país com o mais elevado nível de violência. Segundo a ONU, existem atualmente no país cerca de 2,5 a 3 milhões de refugiados internos, pessoas que abandonaram suas terras, casas e pertences em função dos ataques dos grupos armados.  Também se contabilizam cerca de 8 mil homicídios por ano, a maior parte deles provocada por questões políticas.
                Devido à instabilidade politica no país desde a sua independência no século XIX gerada pela grande alternância de grupos antagônicos no poder, durante o século XX, organizaram-se no país numerosos grupos rebeldes, que passaram a atuar de forma decisiva no destino politico  econômico da Colômbia.  Em 1964 foram criadas as Forças Revolucionárias da Colômbia – Farc – de ideologia marxista, o maior e mais antigo grupo guerrilheiro da América Latina. Ainda, durante a década de 1960 surgiram outros grupos revolucionários, de esquerda e de direita, porém, sem a mesma abrangência das Farc. Dessa forma, há várias décadas se instalou na Colômbia um clima de guerra civil, com confrontos entre os grupos revolucionários e contrarrevolucionários, ataques criminosos a vilas e povoados, saques e invasões de propriedades, etc.
                Quando criadas, as Farc tinham como objetivo promover a reforma agrária na Colômbia. Com o passar do tempo às pretensões da organização foram sendo ampliadas e, atualmente, lutam pelo poder político. Embora essa informação seja contestada por seus líderes, as Farc, que hoje somam quase 30 mil homens, tem seu sustento relacionado ao narcotráfico, uma das principais atividades no país, que é responsável por cerca de 75% de toda a cocaína produzida no mundo. As ações desenvolvidas pelas Farc envolvem ataques a órgãos públicos, assassinatos e sequestros de civis e políticos. Por isso, muitos classificam as Farc de grupo terrorista e não guerrilheiro.
                Para combater as Farc, os EUA criaram o Plano Colômbia, uma intervenção militar em terras colombianas para combater o narcotráfico na sua essência. Entretanto, esse plano é bastante criticado pelos que defendem a soberania latino-americana, pois os EUA financiam armas, helicópteros e treinamento militar ao exército colombiano. Além disso, os estadunidenses instalaram uma base militar na selva amazônica colombiana, em uma área de grande riqueza natural.

AS TENSÕES NA AMÉRICA CENTRAL
                A América Central é formada pelos países situados no istmo que liga a América do Sul a América do Norte e por um conjunto de ilhas que compõem a América Central Insular ou Caribe, como também é chamada. Alguns países da porção continental passaram por uma série de instabilidades politicas nas últimas décadas, evidenciando a falta de solidez na composição de regimes democráticos.
                É esse o caso da Nicarágua, um dos países mais pobres da América Latina. Desde a sua independência no século XIX, o país viveu em constante instabilidade politica, com golpes de Estado e sucessivas ditaduras. Entre os oposicionistas estavam os sandinistas, uma guerrilha de inspiração marxista. Na década de 1980, o então ditador Anastácio Somoza foi derrubado e os sandinistas assumiram o governo. O governo estadunidense financiou mercenários de direita para promover uma contrarrevolução e desestabilizar o governo nicaraguense. Em 1984, os sandinistas venceram as eleições. Mas a democracia no país é frágil. Guatemala e El Salvador também apresentam histórias politicas semelhantes à da Nicarágua: período de ditaduras, surgimento de grupos guerrilheiros de esquerda e paramilitares de direita financiados pelos EUA que geraram guerras civis, desestruturação econômica e intervenções comandadas pelos EUA. Assim como a Nicarágua, esses países vivem momentos de trégua e reconstrução econômica, ainda insuficiente para superar os quadros de pobreza, devido a constante instabilidade.
                O Haiti divide com a República Dominicana a segunda maior ilha das Antilhas. É o país com o mais baixo IDH da América Latina e está entre os mais pobres do mundo. Ex-colônia francesa foi à primeira nação da América Latina a se tornar independente e também a primeira república negra do mundo, em 1804. No decorrer do século XX, o Haiti experimentou longos períodos de ditadura e governos corruptos que agravaram os problemas sociais do país. Na década de 1990, um golpe de Estado derrubou o presidente eleito e levou a intervenção dos EUA e da ONU. A paz foi aparentemente restabelecida, permitindo novos processos eleitorais até 2004, quanto o então presidente Jean Aristide passou a governar sem a presença do Poder Legislativo, o que provocou uma onda de protestos e a renuncia do presidente. A ONU novamente interviu no país como uma força de paz constituído pelos EUA, Canadá e China. Posteriormente estas tropas foram substituídas pela Força de Paz da ONU, coordenada pelas tropas brasileiras. A missão de estabilização do Haiti sob a liderança de militares brasileiras, teve papel fundamental na manutenção da ordem e da paz no país. No entanto, um forte terremoto que arrasou o país em janeiro de 2010 vem dificultando a estabilização e a situação no Haiti. Cerca de 200 mil pessoas morreram entre elas 18 militares brasileiros.
                Outro problema geopolítica da América Central é a questão cubana. Desde a instalação do regime socialista em 1959 através de uma revolução liderada por Fidel Castro, que derrubou do poder o ditador Fulgêncio Batista, aliado dos EUA, a ilha sofre com o embargo impostos pelos estadunidenses ao país. Durante a Guerra Fria com o alinhamento a URSS, Cuba conseguiu manter uma certa estabilidade e crescimento, principalmente na área social, as maiores conquistas dos revolucionários. Entretanto, após o fim da URSS, a situação econômica do país é cada vez mais precária e sua infraestrutura é muito deficitária. Muitos acreditavam que após a saída de Fidel Castro do poder, o regime cairia, mas não foi o que ocorreu. Raul Castro, seu irmão vem implementado algumas reformas, mas as relações diplomáticas com os EUA continuam difíceis.

OS CONFLITOS DE CHIAPAS
                Os estados de Chiapas, Oxaca e Guerrero são considerados as regiões mais carentes do México. Habitados principalmente por camponeses descendentes de indígenas, estes estados promoveram um grande movimento popular armado na década de 1990. Em 1982, formou-se em Chiapas, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), que reivindicava a manutenção das línguas, dos costumes,  e das tradições indígenas, o direito de cultivar a terra, além de melhorias nos setores econômico e social. A organização teve um expressivo crescimento, pois recebeu a adesão de diversas comunidades indígenas da região.
                Em 1994, explodiu a rebelião em Chiapas. Os integrantes da EZLN utilizaram armas de todos os tipos, desde pedaços de madeira e espingardas de ar comprimido até metralhadoras de ultima geração. Quinze dias após o inicio da rebelião, o governo mexicano tomou a iniciativa de cessar fogo. Em todo o país ocorreram manifestações de apoio ao movimento de Chiapas, assim como de protesto contra o Nafta (bloco econômico formado por EUA, Canadá e México). Em 1996, o governo mexicano propôs alguns acordos garantindo direitos e autonomia aos indígenas, aos quais foram ratificados em 2001. Desde o inicio do movimento, os zapatistas declararam que não lutavam para separar a região do México, mas apenas para manter suas raízes indígenas e garantir autonomia e melhores condições de vida. (Adaptado da série Ser Protagonista, Geografia 3, p.154-161).



               
               


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